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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Domingo Sombrio

O domingo é sombrio
As minhas horas sem sono
Queridas as inúmeras sombras
Com as quais convivo
Pequenas flores brancas
Não te acordarão
Não onde o treinador negro
Da dor te levou
Os anjos não pensam
Em te devolver jamais
Será que eles ficariam zangados
Se eu me juntasse a ti?

O domingo é sombrio
Passados nas sombras
O meu coração e eu
Decidimos acabar com tudo
Daqui a pouco haverão flores
E orações que dizem saber
Mas não os deixem chorar
Deixem saber
O quão feliz estou por partir
A morte não é um sonho
Pois na morte eu te acaricio
Com o último suspiro da minha alma
Eu te abençoarei
Domingo sombrio

Sonhando
Eu estava apenas sonhando
Acordo e te encontro dormindo
No fundo do meu coração
Querida, eu espero
Que o meu sonho nunca te persiga
O meu coração está te dizendo
O quanto eu te quero
Domingo sombrio
Domingo sombrio

- Ferdinandi

Flor branca ao centro

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O Paraíso e a Prisão

Dentro da minha mente, a maior jaula, grande como o universo.
Deuses e demônios habitam meus pensamentos. Estendo minhas mãos e
Alcanço as nuvens, o meu salto chega ao infinito do céu.
Será que ainda expulsam do paraíso os que sentem desejos?
Pois, a intensidade do desejo e que nos leva a fé.
Será que ainda expulsam do paraíso os que sentem desejos?
Bênçãos e maldições, em minha mente, são irmãs.
O sofrimento abre as portas para o amor, e o amor o sopro para a vida, e a vida sem a dor, não se faz sentir.
A dor é esposa, o amor é a amante.
Habitam os vivos e os mortos, enxergo na escuridão, o negro da vida, na luz, o brilho da morte.
Vem comigo, prova do fruto proibido, vamos fugir. O paraíso é uma prisão.

- Luis Fernando Lançoni


Sombra sob mão segurando grade
Imagem Ilustrativa



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Culto dos Amantes da Lua

Você sabe por onde tenho andado.
Você sabe quem ouvido os meus segredos.
Você sabe sobre o que estou falando.
Eu não me sinto só!
Eu não me sinto só!
Tenho seguido o rastro, o rastro das almas perdidas.
E você se sente só!
E você se sente só!
Então, garota, conheça o culto dos amantes da lua, oculto dos amantes da lua.
A vida e a morte.
Não existem segredos, quando a lua sorri.
As estrelas iluminam a noite e, sob o doce luar,
nossas almas brindam o fim, nossas almas brindam o fim.
E você se sente só!
E você se sente só!
Então, garota, conheça o culto dos amantes da lua, oculto dos amantes da lua.

- Luis Fernando Lançoni

Homem em barco sob o luar
Imagem Ilustrativa


quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Azul, Violeta, Vermelho e Verde

Azul, violeta, vermelho e verde.
Cores que colorem tantos amores preenchidos
em doses plenas do sentido da alma.

Azul brilho de azul,
voa livre e solto,
não quer comparação,
simples sentido,
doce sonido.

Quem quer violeta?
Escuta a paz e então beija emoções,
vibra alto na ponta do arco-íris.

Sangue de vermelho,
brota da terra,
cota ou mesmo velha,
símbolo de bravura,
som puríssimo da força.

Cresce verde e deixa a chuva te tocar.
Amanhece com sono,
com o ninar da manhã,
verde como te quero verde.

Desabrocha em caules maduros
de florestas virgens e delgadas,
patamares de lendas descoloridas,
somente reluz alto na dádiva do campo.

Lendas de fontes inesgotáveis,
colorindo tristezas,
traços de vidas,
e de clarões.


- Sergio Eduardo Del Corso



quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Desabafo à Sociedade

"Formou Deus o homem, e o pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices." (Viagens na minha terra - Almeida Garrett).
O fato de que o homem vê o mundo por meio de sua cultura e considera seu modo de vida como mais correto, nada mais é do que etnocentrismo, o grande responsável por conflitos sociais na maioria das vezes.
Em nossa sociedade, a “indústria cultural” (mídia) frequentemente nos fornece exemplos de etnocentrismo, mostrando o modelo de vida mais “correto” e estabelecendo um padrão que você “deve” seguir, se quiser ser aceito. Isso acaba manipulando muitas pessoas que tentam se encaixar nesse padrão e, muitas vezes, deixam de ser e crer em seus próprios costumes.
“Rotulamos e aplicamos estereótipos através dos quais nos guiamos para o confronto cotidiano com a diferença.”
Esse julgamento a priori serve como um carimbo. Uma vez “carimbada”, a pessoa jamais será avaliada pelas suas qualidades individuais, apenas pelo seu rótulo. Infelizmente isso acontece praticamente o tempo todo.
Tem muita gente tatuada por aí com muito mais conhecimento letrado e valores éticos do que aquele cara “bonitinho e engravatado” que você acabara de contratar. Poucos enxergam isso, poucos vão além das aparências. Muitos julgam sem antes conhecer, simplesmente por ser mais fácil estereotipar, com a sua visão etnocêntrica de “meu modo de vida é certo, o seu não”.  Acontece que...  Não existe certo e errado! Existem diferenças culturais, pontos de vista diferentes. O ideal seria que todos respeitassem os diferentes modos de vida, seria considerar o mundo do ponto de vista do outro, tentar entender, deixar de tomar sua própria cultura como medida para julgar o outro, ou seja, relativizar.
Só espero que ninguém deixe de viver como quer, por medo dos julgamentos da sociedade. Todos nós temos o direito à liberdade de expressão. Pare para pensar se você vive para si ou se vive para a sociedade. Você prefere viver no padrão ou viver feliz consigo? Se você morrer hoje, vai estar satisfeito com quem foi? Reveja seus conceitos.

- Clara Brunetti

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Lembranças

Hoje eu decidi arrumar o meu quarto.
Pensei em começar pelas gavetas, mas comecei pelos armários.
Terminei de colocar alguns documentos no lugar e os ordenei por nome e data, tipo e tamanho.
Cheguei nas gavetas e comecei com as de cima e fui descendo.
Folhei cada objeto que descansava ali, demorei muito tempo.
Eram gavetas que não deveriam ser abertas.
Gavetas antigas, imóveis há cinco anos.
Seu conteúdo, embora estivesse logo ao meu lado durante as horas vagas, nunca me dei ao trabalho de movimentá-las.
Elas simplesmente estavam ali, esperando.
Uma lembrança embaixo de alguma apostila velha do ensino médio;
Algum passado alojado por entre fio velhos e fones quebrados;
Fotos escondidas por entre folhas de caderno;
Um convite para um baile de debutante;
Uma carta;
Uma foto de meus pais;
Um maço de cigarros vazio;
Adornos utilizados em épocas de escola;
Carregadores para celulares ultrapassados;
Apostilas do ensino fundamental;
Um presente sem valor;
Uma foto 3x4;
Chaves do meu antigo quarto; e
Um cofre vazio.
Ali dentro das gavetas, nada mais tem o valor que teve.
O valor se perdeu com o tempo e com as pessoas que se perderam.
No fim das contas, nós é quem agregamos valores às coisas.
A foto 3x4 não tem a barba que tenho hoje, as apostilas não sanam as dúvidas da faculdade, as antigas chaves não abrem porta alguma, não utilizo mais adornos, a carta não tem mais o amor, a debutante se mudou e nunca mais a vi.
Preparo o saco de lixo e jogo a gaveta toda lá dentro.
O mais engraçado é que na época, eu não jogaria nada daquilo no lixo.
Preciso descansar. São duas horas da manhã e o tempo não nos espera tomar fôlego.
A vida é rápida demais para termos lembranças.

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

O Beijo da Desilusão

O beijo da desilusão, fez estraçalhar
Um milhão de sorrisos perdidos
Em uma noite em que a lua engoliu o céu
Ao sabor de um velho vinho, azedo como vinagre
E as bruxas sangram os seus pés, dançando ao redor do fogo
Música da desgraça humana, do pranto dos mortais
Do pranto dos mortais.

- Ferdinando

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Monólogo

Você já teve a sensação de não fazer parte de algo?
Sentar na cadeira do ônibus, olhar à sua volta e não encontrar nada?
Não encontrar uma aspiração de crescimento, não encontrar alguém que você possa simplesmente conversar sobre o futuro?
Em todo lugar há pessoas implorando por ajuda, mas que nada fazem para merecê-la, já viu alguma delas?
Pessoas que preferem continuar sentadas na mesma cadeira de secretária que se sentaram desde a época do ensino médio; conhece? Sim, as mesmas que perguntam o que fazer, mas não como e muito menos por que fazer o que se faz.
Já parou para notar quantas pessoas estagnaram conscientemente no patamar em que se encontram?
O que você aprendeu no dia de hoje? Você utilizou o que aprendeu? Pelos menos ensinou alguém? Passou adiante?
Pelo amor que você tem pela praticidade que este aparato eletrônico na sua frente te proporciona, pelo amor que você tem pelo conforto da sua cama, pelo amor que você tem à toda projeção intelectual existente, me diga que você está ai! Em algum lugar. Por favor.
- "Mais um dia se passou e foi mais um dia em que não utilizei a Fórmula de Bhaskara!" - E caem na risada.
Eu simplesmente não compreendo. Não compreendo o fato de não desejarem algo mais.
Sempre vomitam o mesmo tipo de desculpa e, peço perdão aos que se desculpam com honestidade por eu generalizar todos vocês, mas não me aguento mais.
As pessoas estacionaram, amoleceram e esqueceram que o mundo é dos grandes e não dos pequenos estagnados.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado ganhem alguma bolada em dinheiro.
Imploram e oram aos céus para que um aumento apareça no holerite do inicio do próximo mês.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado a sorte grande bata a porta e diga:
- "Ei, camarada! Seu grande dia chegou! Isso mesmo, a partir de hoje você poderá fazer o que sempre sonhou e deixar de lado todo esse esforço que você faz apenas para garantir o teu básico. Agora sente-se ai, vamos iniciar seu grande sonho, a partir de hoje você não precisará fazer mais nada!"
Os corruptos, os ignorantes, o compassivos, os estacionários, os apáticos, os desonestos, os oportunistas, os oprimidos.
- "Ei, você ai no fundo, que acabou de se levantar. Sim! Você mesmo! Gostaria de dizer algo? Não? Ah, você só estava indo ao banheiro. Tudo bem, me desculpe. Achei que ia dizer algo... Não? Tudo bem. Não sabe se vai voltar? Mas acabamos de começar. Ah, tudo bem. Não tem problema."

Alguém me diga que estou errado, que não são todos assim.
- "Oi, você! É, você! Gostaria de dizer algo? Ah, você só quer um carregador para o seu celular? Ah, tudo bem." - Não está nada bem.

Por favor, alguém me diga que estou errado!
- "Posso ir ao banheiro?"

- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A Falsa Aceitação

O que é pior, fazer o errado de forma consciente ou ter a ilusão de que o que se está fazendo é o correto? A negligência ou a ignorância?
Provavelmente, diríamos que a negligência é a pior das duas, pois o praticante carrega consigo a consciência e a desonra assumida pela atitude tomada e, justamente por ter esta consciência, ele deve ser duplamente punido. O indivíduo é assumidamente errado.
Porém eu lhes afirmo, sem sombras de dúvidas, que o pior é aquele que erra sem saber da natureza do erro, que afirma sem fundamento, que atira antes de perguntar, uma variante do chamado 'Idiota com Iniciativa', o ignorante; pois funciona como uma doença altamente contagiosa e quase impossível de ser destruída quando se encontra no seu ultimo estágio: A falsa aceitação.
A falsa aceitação é tão perigosa socialmente quanto uma bomba atômica a é para a humanidade, devido aos falsos valores que o indivíduo assume quando se depara com um grupo que pensa exatamente como ele; um grupo que não questiona, que não discute outros ideais e onde as outras linhas de pensamento não são bem-vindas.
O problema começa quando os próprios meios de comunicação ou até mesmo as pessoas passam a desarmar os meios de discussão.
Se todas as armas, como a denúncia, a expressão e a liberdade; forem censuradas, como poderemos dar voz às outras linhas de pensamento?
Será que a maioria é mesmo composta por aqueles que carregam a razão? E se não podemos dar voz àqueles que pensam de forma diferente, será que não estamos monopolizando as ideias e nos privando de possíveis verdades não ouvidas?

E afinal, se não posso ouvir ninguém gritando o quanto eu estou errado, provavelmente eu esteja certo, não é mesmo?

Não, às vezes as pessoas não gritam porque elas simplesmente não podem.


- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Os Passos da Bailarina

Seus dedos bailavam como se tocassem instrumentos imaginários, e talvez realmente o fizesse, pés flutuando, olhos cerrados. Decerto visitava um de seus mundos particulares. Caso pudesse defini-la em uma característica principal - permita-me ou não, o farei -, diria que é cárcere da própria ilusão. Flores nascem em seu peito num único gesto doce, que é sua morte também. A moça baila num romance e sobrevive nele, ainda que esteja fadado ao fracasso, ainda que ela seja o borrão de tinta que pinta o final. Seria, talvez, causadora do próprio mal, a destruidora de seu mundo, e de outros também. Quem a via tornava-se cárcere da doçura que transitava livremente no assoalho de madeira. Sequer imagina que há tantos observadores da cena se julgando oniscientes, tão transparente se parece. Ou talvez saiba e ri de cada espectador assim que a cortina se fecha. A bailarina se parece com o personagem de um livro que ainda não foi escrito, é certo que não recordo de nenhum capaz de se encaixar em passos milimetricamente ensaiados para parecerem naturais. Dança como se fosse uma dessas pessoas que precisam do amor para sobreviver. Na falta de um, o inventa. Como se dispusesse das palavras além do papel.
De tanto imaginar, escreve em passos de dança. De tanto escrever, se guia pelas palavras que lhe invadiam o âmago, então acreditava. De tanto acreditar, vivia - ainda que dentro de si -, e assim por diante. A verdade é que cada etapa era um passo para o abismo. Foram tantos os abismos que o último passo era dado com os braços abertos.
- "Algum dia" – pensava – "algum dia voarei" – e mergulhava na escuridão.
A plateia aplaude em júbilo.

- Maia

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sem Título

Depois do silêncio fica o eco das palavras perdidas.
Ali, quando tudo o que não foi dito finalmente pede passagem, bem ali há o ponto que impede a continuação. No exato local em que é possível sentir a mão invisível que te prende. Onde o arfar não é mais ouvido e o esfregar de mãos vazias é inevitável. Há uma silhueta que não sai da vista e lágrimas nos olhos. Tanta vida não vivida em plenitude.
Note, as pessoas na rua sempre tem algo a esconder. Seus crimes hediondos foram passionais e juvenis, das cartas rasgadas às chamadas não atendidas. Piores são aquelas que sequer fizeram a ligação. Não é problematização suficiente que explique todas as fugas, a maioria sequer recorda o motivo, apenas sabem que um elo foi quebrado e não há mais conserto.
Eu vejo pessoas partidas sendo inteiras com tudo que tem, e é bonito como um soldado ferido que continua a lutar. Eu me vejo moída no escuro do quarto e completa no espelho. Há um silêncio que me permite sentir em plenitude que nada jamais será total, o recuso como quem finge que jamais teve sequer uma noite insone por pensar demais. Mantenho-me na multidão para ter certeza de que todos vivem bem entre bandagens e cicatrizes, parece altruísmo, mas é egoísmo barato, não quero ser só no ato de ser só.
Sinto que sou inteiramente metade ou menos do que isso. Minha contradição me mantém sã, uma desculpa para ser o que me resta, seja lá o que for. Ainda não sou capaz de me ver por completo. Que assim seja por mil anos, me compreender seria desistir. Que seja assim até amanhã, esperança é bonita, mas dói tanto quanto a tristeza que a acompanha.
Não espere o tempo acabar para mudar uma vida.

- Maia

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Voltas do Mundo

Se minha biografia amorosa fosse escrita, o autor seria Hitchcock.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

Amores, aqueles, que vêm e duram até a eternidade, eterno por uma semana ou dois anos.

A minha certeza de ter o controle sobre tudo era quase arrogante.

Uma tentativa de independência.

Mas não existem razões para coisas feitas pelo coração.

É Renato... Seu subversivo, seu maluco "seu" sábio.

Aquela troca de olhares, o convite para o café .

Aqueles olhos azuis, aqueles olhos...

Um beijo e de novo me vi naquela situação que pensei ser eterna.

Pasmem! Eu não estava no controle.

Uma marionete seduzida por aqueles olhos azuis, uma feição angelical com um gênio demoníaco.

Meses se passaram, promessas que nunca havia feito e atitudes que nunca havia tomado.

Sacrifiquei meu orgulho, paguei meus pecados, fui substituído.

Falava sozinho, arquitetava conversas de reencontro, imaginava nossa viagem de lua de mel.

Mesmo sabendo que nunca mais seria minha, qualquer assunto uma esperança me arrancava gestos humilhantes.

Era sádico, era gostoso.

Meus conflitos ou meus demônios?

Talvez apenas meu ser...

Aquele desejo de suicídio após cada frustração.

Estava sendo castigado?

Por sorte ou azar o meu inverno chegou.

Agora é pra valer.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

[...]

Aqueles olhos castanhos, aqueles olhos...

- J.A 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Fui Joio e Voltei Trigo

O que eu sentia naquele banco, nem com mil palavras eu poderia descrever, algo me apertava a alma e me dizia que levantasse. Meu coração acelerou-se como se eu estivesse à beira de um ataque, minhas pernas estavam bambas e tremiam feito duas finas varas de bambu sozinhas ao vento, minha cabeça, aérea, parecia estar no topo daquele prédio. Eu apenas implorava para que não fosse a minha hora.
Já cansado de todo meu esforço espiritual, tentando resistir à vontade de ir até lá, deixei-me às vontades das sensações que me tomavam. Minhas pernas então, contra qualquer instinto que eu já tivera, enrijeceram-se e começaram a caminhar. Era como se um fantasma me dominasse o corpo e me fizesse apenas caminhar, me sentia uma marionete à mercê dos fios que lhe guia.
Quando me deparei com a água da pia batismal, declarei que não era minha hora, rejeitei ao Senhor e Sua bênção. Pedi a Deus que esperasse o meu tempo, pedi que me poupasse da salvação, mesmo que por enquanto.
No momento em que meu corpo entrava na água gelada pelo frio de agosto, declarei a Deus que naquele momento, Ele me matava. Declarei a Deus que se me lavasse de todos os meus pecados, perderia de vez a minha alma. Disse a Ele que no instante em que eu pisasse fora da igreja, me entregaria a todos os tipos de vícios, me deleitaria nos braços de todas as mulheres e também nos braços de homens, jogaria a mim mesmo na sarjeta, declararia repúdio ao Seu nome. Blasfemaria e exaltaria Satã.
Depois que levantei das águas, nada do que prometi a Deus fazer me foi possível, no instante em que pisei no degrau da pia batismal, ouvi uma voz forte e grave:
- "Você conhece o seu tempo?"
No momento em que sai, renascido e puro, de dentro daquela pia, nada me foi possível fazer. Apenas ouvi a música que se cantava dentro daquela igreja de teto branco abobadado, durou meia hora, do meu tropeço ao encontro do chão, ainda assim não foi possível nem mesmo um pensamento que me desviasse dos propósitos do divino.
Nas águas entrei joio, delas saí trigo, limpo e maduro, então, por Deus fui colhido.

- Wendy Cho

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ensaio para um Mundo Melhor

Fizeram algumas marcas no chão, como se estivessem se preparando para algo.
Um dos participantes tropeçou, atingindo o solo e foi assim que tudo começou.
A platéia soltou um grito de dor, cantarolando com a sonoridade do baque feito pela colisão entre o palco e o rapaz.
Um dos participantes saiu de posição e se pôs a ajudar o companheiro. Parou ao seu lado e estendeu uma das mãos.
Ouviu-se alguém gritar ao fundo:
-Meu deus! Que lindo!
O ator caído levantou uma das mãos e agarrou o braço do companheiro de palco, que o ajudou a levantar, contraindo os ombros.
A platéia estava eufórica. Alguns gritavam, enquanto outros estavam em pé, batendo palmas.
Os dois amigos, de mãos dadas e levantadas para que todos pudessem ver, estavam no centro do palco e completamente iluminados pelo show de luzes que o palco proporcionava.
Todos lutavam para ver o que acontecia, não queriam perder um segundo daquele sentimento que absorviam dos atores.
Por fim, o rapaz dirigiu uma das mãos ao bolso e dele tirou uma flor, entregando ao companheiro, que aceitou de bom grado, expressando a completa e fugaz sensação de ajudar alguém.
A platéia delirou por alguns segundos, bateram palmas, assoviaram, bateram nas cadeiras e assoviaram mais um pouco.
As cortinas se fecharam.
Apagaram as luzes.
Os rapazes soltaram as mãos.
Um deles amassou a flor e jogou no chão escuro.
Removeram as marcas do chão.
Era apenas um ensaio.

- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Curiosidade Matou o Gato

O que?
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!

-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Garantia

Eu só queria uma garantia.
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.

- Lágrimas de Gasolina

sábado, 23 de maio de 2015

Souvenires

Então, no fim das contas devo ser influente.
Disseram que a tomada do sucesso profissional caminha pelo vale da influencia.
Influenciar os outros a acreditar nas minhas mentiras, é isso?
Será que o sucesso pessoal dá as mãos à realização profissional?
Eu não acredito nisso e desacredito, ainda mais, nas pessoas que acreditam nisso.
Não anseio por poder, embora me apeteça a ideia de comandar e dominar. Isso deve ser alguma falha da minha humanidade. Este anseio pelo controle.
Todos somos controladores, por isso prezamos tanto pelo autocontrole.
Acredito que haja algo mais.
É claro que eu adoraria ter imensuráveis posses ou quaisquer outros bens materiais, não sou nenhum hipócrita para negar tal coisa.
O sucesso pessoal é mais abrangente, mais profundo, por assim dizer. Acredito que a influencia possa até ser importante ferramenta em determinados casos, mas somente a compreensão é o que realmente deve ser levado em conta.
Compreender, ser empático, se por no lugar de outrem, ou melhor, no meu próprio lugar num determinado contexto.
Compreender o que fora feito e o por que de tê-lo feito.
Relevar a inexperiência, ou melhor, compreende-la.
Lidar com os erros como a bagagem de uma longa viagem, que começa com malas vazias e que se enchem com o decorrer. Caminhar sem arrependimentos.
Enfrentaremos rios ou, quem sabe, mares de impasses ao decorrer desta caminhada.
Pararemos em cada barraquinha de souvenires desta viagem e compraremos os chamados erros, compreenderemos o por que de ter lhes pagado tais preços e os carregaremos com orgulho.
Os mostraremos aos nossos filhos e diremos que existem souvenires mais em conta, mas nunca os pagaremos para eles, pois não podemos. Podemos apenas dizer.
E no final das contas, poderemos olhar pelos espelhos do passado durante as noites mal dormidas, olhar com satisfação e orgulho e, assim, voltar a dormir.
E voltei a dormir.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Como o Vento

Existe um espirito?
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?

- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 24 de março de 2015

Pútrido Ar

O ar mudou.
Não é o mesmo de antes. Certamente não é o mesmo de ontem, e sem dúvidas não é o mesmo de alguns anos atrás.
O ar não carrega mais a pureza que já carregou. Não carrega em pequenas partículas a estabilidade da vida. Não entorpece-nos de riso e alegria.
O ar, hoje, não é mais uma brisa agradável de verão. Não é um leve sopro em um cabelo aleatório.
Não.
O ar mudou, nada é mais como antigamente.
Hoje o ar é pútrido, cheio de ácaro.
O ar é sujo, e não só pelas partículas de poluentes.
O ar está impregnado com partículas que não possuem correspondentes na tabela periódica.
Carregado de cinzas espirituais, de sopros de desespero. Gritos de ódio, gritos de pavor.
Lotado de desapontamento e tristeza, com o cheiro da morte.
Hoje o ar leva apenas a agonia e a angustia.
E se você procurar bem, verá que não é de fábricas que este pútrido ar emana.
Ah, não...
Se procurar da maneira correta, verá que este ar provém do topo de uma montanha,
onde uma multidão perplexa e apática transpira um turbilhão de nada.
Os seres humanos exalam desespero, ódio, pavor. Regurgitam desapontamento e tristeza.
Morrem como se fosse o único fim esperado para uma vida de agonia e angustia.
E aquela maldita multidão, naquele maldito cume de montanha, poluindo o meu ar.
Poluindo o seu ar. O ar da sua mãe, o ar do seu filho.
Infelizmente, naquela multidão encontram-se todas as pessoas.
Sua mãe está ali, observando perplexa e apática. Seu filho também.
E todos eles, cada um que está lá polui o nosso ar pelo simples fato de serem humanos.
Tiram as cores, tiram a saturação, deixando-nos apenas com um cinza opaco.
Se antes era a base para a vida, hoje é apenas uma oxidação precoce dos nossos órgãos.
O ar mudou, e você também está no cume daquela montanha.
E a podridão que você exala também está matando-me mais rápido.

- Dedos Azuis

terça-feira, 17 de março de 2015

Liberália, a cidade dos Perplexos e Apáticos

As observo de longe.
Um sonho estranho, diferente.
Elas estão se matando, gritando alguma bobagem.
O chão está diferente, uma escuridão amortecida sob os pés das mais variadas faces.
Faces alongadas, faces quadradas e faces redondas. Juntas, gritando como crianças famintas.
Uma voz me pergunta:
"Onde está você?"
Estou aqui em cima, sentado. Apático, imóvel.
Como pude deixar tudo isso acontecer? A culpa é mesmo minha?
A voz responde:
"Como pôde? Como pôde?"
Levanto-me e sinto como se um tijolo atingisse o meu abdome. Não estou preparado.
Alguns deles estão tentando escalar a montanha, vejo-os escalando o abismo sob meus pés.
Estão querendo me pegar novamente, querem me levar para baixo, porém não o farão, pois não o permitirei.
Um deles agarra meu pé esquerdo. Forçando-me a sentar novamente.
Penso em chuta-lo, mas não o farei
Já os chutei certa vez e quando menos percebi estava gritando alguma bobagem adentrado ao abismo.
Uma segunda face agarra meu pé direito. Não cederei.
Não os balanço para que se soltem, apenas firmo os pés no chão.
Um deles grunhe:
"Você é um humano!"
O outro concorda e grunhe em resposta:
"Ele tem razão, seu humano!"
Um humano faria isso? Deixaria o mundo ruir? Ser humano é ser humano? O que é ser humano, afinal?
Estendo uma das mãos para uma das faces.
Venha aqui e sente-se ao meu lado.
Veja as coisas como são.
Ela estapeia a minha mão, recuo. Controlo a vontade de chuta-la e apanho teu punho à força.
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.

-Lágrimas de Gasolina