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segunda-feira, 14 de março de 2016

O Homem que Tinha Tudo

Bocht era seu nome, mas entre os moradores de sua antiga rua, era conhecido como “o menino que tinha de tudo”. Tudo, talvez fosse uma tênue hipérbole, mas não a ponto caricato, longe de ser um exagero de proporções colossais. Bocht tinha mais do que muitos, mais do que todos que o conheciam, e nunca teve constrangimento algum em demonstrar isto.
Além de ser um garoto extremamente belo e que atraía olhares por onde passava, também era um jovem gênio, que demonstrava fácil aprendizagem e compreensão com o mínimo de esforço aplicado. Seus pais eram donos de uma pequena fortuna, e gabavam-se aos amigos pelo filho que ainda tinha os quatro avós vivos. Falta de amigos nunca foi um problema, vez que Bocht estava sempre rodeado por crianças das mais variadas idades, além dos sempre presentes admiradores seniores. Animais de todas as espécies e tipos preenchiam sua pequena mansão, desde gatos e cachorros até pássaros e pequenos roedores. Por último, mas não final, pois o tudo é grande demais para resumi-lo em um parágrafo, ele tinha o que muitos batalham por toda a vida e nunca conseguem; Bocht era sincera e honestamente feliz.

Os anos passaram, as estações mudaram e o mundo acinzentou-se. O ar tornou-se mais pesado e difícil de respirar, a comida perdeu o gosto, o dinheiro perdeu o significado. A vida por vezes ameaçava perder o sentido. O menino que tinha de tudo acabou tornando-se o homem que tinha de tudo, e se alguma vez em sua vida, até agora, podemos dizer que Bocht perdeu algo, foi a felicidade que trazia em seu peito quando criança. Mas para este homem, a felicidade não representava nenhuma força estrutural para abalar seu contexto de todo, e, mesmo não sendo mais feliz, ainda acreditava ter tudo. Como esta é uma narrativa de sua vida, por seu subjetivo acreditar que ele ainda tinha tudo, trataremos desta forma até segunda instância.
Após o conhecimento da perda, esta se mostrou mesquinha outra vez, e cada vez mais frequente; seus avós, seus amores, seus admiradores, seus amigos, seus pais. A última perda que Bocht sofreu foi a de seus sentimentos, e, desde então, parou de notar o que mais perdia.
Em contraponto, cada vez sua fortuna tornava-se maior, dobrando, triplicando, em um ritmo exponencial humanamente inacreditável. Dedicava-se aos estudos com tamanha voracidade que os resultados eram diplomas atrás de diplomas, títulos, prêmios, reconhecimentos, mais fortuna. Suas conquistas anestesiaram suas perdas, a ponto de passarem despercebidas e tornarem-se cada vez mais superficiais. Para Bocht, ele ainda era o homem que tinha de tudo, então ainda assimilaremos isto como verdade absoluta.

Já faz tempo, tanto tempo que é difícil buscar a data exata, mas acredito que foi em meados de seu trigésimo aniversário. Ele admirava seu reflexo esbelto em seu espelho Guardian quando notou o pequeno fio branco que descansava sobre seu Armani risca-de-giz. Com os dedos em pinça, trouxe a poucos centímetros do nariz e inspecionou-o com afinco.
Efemeridade.
Foi esta a palavra que ecoou em sua cabeça. Foi esta palavra que o atormentou nos anos seguintes. Foi esta palavra que trouxe de volta um sentido para a sua vida, um significado para o seu dinheiro. Bocht precisava descobrir como contornar a morte.
Dedicou-se e investiu em diferentes campos de pesquisa, contratou cientistas de todos os cantos do mundo, apostou em pesquisas pioneiras em universidades estrangeiras e abriu mão do cargo de CEO de sua empresa. Estudou os supercentenários, os atletas que competiram nos Jogos Olimpícos. Viajou aos cantos mais remotos do mundo para compreender a chave da imortalidade dos vermes, assim como o impacto dos alimentos no organismo. Apostou uma parcela de seu dinheiro na recuperação de células e tecidos através da impressão 3D, fez inúmeras pesquisas ilegais em células-tronco e, quando a razão fraquejou, cogitou subornar Deus.
Turritopsis dohrnii, foi este o nome responsável pelas suas insônias. A espécie de água-viva que driblava seu destino e rejuvenescia suas células indefinidamente, não podendo morrer por causas naturais.
“É isso”, gritava Bocht em seu subconsciente. “É isso”. E, tamanha era sua convicção, que no dia em que recebeu a mensagem, avisando que a última amostra tinha morrido por causas naturais, Bocht sentiu medo. Foi a primeira vez, a primeira de duas vezes em que o homem que tinha de tudo sentiu medo.

A chuva gelada caia em sua cabeça, mas ele não ligava. O stress dos últimos anos, movido pelo primeiro fio branco apenas resultou na multiplicação exponencial do mesmo. Ele já era um jovem senhor, com a cabeleira completamente grisalha. Em pontos que ele nunca ousou olhar, constava-se até o início de uma calvície.
Bocht, apesar de ter tudo, não tinha mais rumo. Andava durante horas por ruas vazias, por vielas sem fim. Cruzava bairros, pontes, pessoas, e quando a fadiga o dominava, pegava um taxi e voltava para casa. Só conhecia o escuro, o limite, o frio e a dor.
Naquela noite, na noite da chuva gelada, Bocht foi por um caminho novo. Já fazia três horas e meia que estava em sua caminhada taciturna. Estava perdido, mas ele se perdia todas as noites. Estava sozinho, mas ele estava sozinho todas as noites.
Cansado, desmotivado, letárgico, levantou os olhos, pousando-os na única luz daquela rua negra sem fim. Lentamente decifrou a palavra que aquele conglomerado de letras luminosas formava: VIDENTE. Bocht suspirou, e a noite suspirou junto. Um vento fraco e asmático parecia empurrar-lhe para dentro da loja.
- Eu quero ver meu futuro! – gritou, empurrando a porta com seu sapato Dolce & Gabbana esfarrapado.
A velha senhora assustou com tamanho frenesi, soltando palavras aleatórias e desconexas, enquanto levava a mão ao coração.
- Meu deus, rapaz! Eu tenho pressão alta!
- Eu quero ver meu futuro! – repetiu Bocht, em um tom acima do que o necessário para se fazer ouvir, trazendo em sua voz uma embriaguez psicológica. Pela sua aparência física acaba, as roupas em frangalhos, não era de duvidar-se que realmente estava embriagado.
- Pois bem – disse a idosa – daqui a quanto tempo o senhor gostaria de se ver? Cinco anos? Dez?
Bocht gaguejou, mas não conseguiu dizer nada. Estava apreensivo. Com passos arrastados, começou a mover-se para fora da loja.
- Vou fazer-lhe uma proposta, desde que o pagamento seja gordo – riu a vidente – E se eu enxergar a sua morte? Sim, sim, este assunto parece atrai-lo mais, dado ao espanto em seu rosto. Pois bem, sente-se.
E assim Bocht o fez.
- Encoste sua testa com a minha – e esperou o homem seguir as instruções – cruze os dedos com os meus – disse, estendendo as mãos – agora sopre dentro de minha boca – e assim Bocht o fez.
Segundos que pareciam anos, que arranhavam a garganta do homem com unhas afiadas, fazendo sentir como se afogasse em seu próprio sangue. Então com uma voz rouca, claramente diferente da proferida alguns segundos antes, a senhora disse:
- Não existe futuro, para o homem sem futuro. Não existe morte, para aquele que a muito já moreu. Não existe nada, para o homem que não tem nada.
Bocht jogou-se para trás, recebendo aquilo como um soco na boca do estômago. Sentiu o choro quente escorrendo por seu rosto. Sentiu saudades, sentiu paixão, sentiu remorso. E, pela segunda e última vez em sua vida, sentiu medo.
Mas, quebrando completamente o ambiente de pânico gerado, uma gargalhada ecoou pelo recinto. Não uma gargalhada colossal, sinistra, tenebrosa, e sim uma gargalhada de divertimento sincero.
- Ai, rapaz, você me faz rir! – gargalhou a idosa – estou só tirando uma onda com a sua cara! A Vidente Margô já está em seus aposentos, eu sou apenas a faxineira! – e assim, deu mais uma gargalhada estridente – agora saia daqui, seu mendigo sujo!
Bocht levantou de sobressalto, com o rosto claramente perturbado. Sem dizer uma palavra, saiu da loja.

Não existe nada, para o homem que não tem nada.

Bocht morreu atropelado uma semana depois.

- Dedos Azuis


domingo, 25 de outubro de 2015

A Criança sem Nariz

Os preguiçosos raios de sol rosa-alaranjados já tinham se despedido do céu há muito tempo. O negrume lusco-fusco de um crepúsculo mal-resolvido começava a se expandir, anunciando com trombetas infernais a vinda da noite.
"Maldito Rogério e sua infinidade de planilhas à ser contabilizadas", pensei. Nesta hora, eu provavelmente já estaria logado na Netlfix, tomando uma sopa instantânea enquanto meu maltês já alimentado me acompanhava no oitavo episódio de Narcos. Mas não, graças ao maldito Rogério, cá estou eu, indo para o ponto de ônibus duas horas mais tarde do que meu horário normal.

- Não, não, não!! - gritei. E lá se foi o último ônibus 3.85. Sangue, excremento, suor, lágrimas, detritos, dejetos decompostos. Três quilómetros percorridos a pé, pelo bairro mais sujo desta imunda cidade. Uma hora de caminha infernal, através do próprio inferno. 

Maldito Rogério. 
Maldito 3.85. 

Puxei meu iPod do bolso e desenrolei os earpods. A sujeira acumulada nas pontas dos fones só davam-me menos aflição do que os fios rachados. O cordão que uma vez já fora branco estava amarelado, desfazendo-se em meus dedos. Maldição, maldição. 

Hello darkness, my old friend 

Enquanto eu andava, olhando para o chão e chutando garrafas vazias, Simon e Garfunkel cuidava de minha depressiva trilha sonora. Se eu não poderia desfazer a visão desprazerosa ou o cheiro desgostoso daquele caminho, pelo menos poderia transportar meus ouvidos para longe dali.

I've come to talk with you again 

E, de repente, uma terrível sensação. A incomoda presença que aparenta te seguir, te vigiar. Olhei para trás, sobre o ombro direito e deparei-me com duas silhuetas que me acompanhavam.
Maldição, só faltava eu ser assaltado agora. Fui mais rápido. 
Meu coração acelerou, ouvia os passos a trás de mim tornando-se mais intensos, mais pesados. Comecei a correr. Maldição, maldição.

Because a vision softly creeping 

 Quase gritei quando um vulto cortou minha frente. Parei de súbito, pronto para vomitar minhas vísceras. Olhei para trás, mas não havia mais ninguém.
Tirei os fones dos ouvidos, mas Simon e Garfunkel continuaram cantando.

- QUEM ESTÁ AI? - gritei.

Left its seeds while I was sleeping 

- Vocês querem me roubar? Que assim seja, porra! Venham, levem toda essa merda! Atirei o iPod no chão com força, mas o aparelho não se quebrou. 

And the vision that was planted in my brain 

O silêncio predominava, e a única coisa que eu conseguia ouvir era minha respiração pesada, meu coração explodindo em meu peito e a fraca música que cantarolava no fundo.

Então, quebrando a calmaria efêmera, das sombras formadas pelas ruelas sinuosas e tortas que margeavam a rua, saiu uma estranha garotinha. As luzes amarelas dos postes velhos deixavam seu aspecto um tanto quanto sombrio, sinistro. Um vestido branco rasgado adornava seu corpo e, escondendo a face, uma máscara de cirurgião finalizava o incomum conjunto. 

Still remains 

Fiquei olhando aquela figura, atônito, com calafrios percorrendo todo o meu corpo. Por fim, murmurei:
- O que você quer?
Ela não respondeu.
- O QUE VOCÊ QUER? - gritei.
- Você me acha bonita? - ela perguntou. 
A voz era a mais pura e inocente que eu já ouvira. Adocicada e angelical. Era suave, era tênue. 
Mas eu não sabia o que responder.

- S-s-sim - menti. 

Ela então fez algo que parou o meu antes explosivo coração; removeu a máscara, revelando o buraco no meio de seu pequeno rostinho. A ferida havia removido completamente seu nariz, deixando no lugar um aglomerado de carne exposta, sangue, pus, tecido adiposo e traços do que parecia ser osso. 

Engasguei em minha própria saliva, tomado por um refluxo irracional. Virei para o lado e comecei a vomitar, enquanto e pequena garota caminhava em minha direção. 

- Você ainda me acha bonita? - ela perguntou novamente. Era a mesma voz doce de antes, era a mesma voz. Mas eu não conseguia nem olhar para seu rosto, pois sabia que seria inundado novamente pelo acesso de ânsia. 
- S-sim, sim, ainda acho.
Ela sorriu. Cruelmente, não posso dizer que era um sorriso bonito, pois a ferida chorava lágrimas de sangue sobre sua pequena boca, mas ainda assim era inocente e puro. 
E então ela começou a gargalhar, e naquele instante toda a doçura se desfez. Aquilo era a personificação do mal.
Ela era a forma mais pura de maldade que eu já presenciei.

Um negrume abriu em meu coração, e todo meu peito foi tomado por um vácuo desesperador.
Tentei correr, mas o cimento tinha cedido e incorporado meu pé em sua fundação. Meus braços tornaram-se pesados como chumbo e movimentá-los mostrou-se impossível. 
A garota aproximou-se mais, ainda gargalhando. Tirou um pequeno bisturi da faixa que prendia seu vestido e disse:

- Moço, não se preocupe, eu vou te deixar bonito também!

Within the sound of silence

- Dedos Azuis

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Pedido da Morte #1 - Novos Amigos

I.

Foi durante a noite. A hora exata, o dia exato ou até mesmo o mês exato eu não posso afirmar, pelo simples fato de não lembrar-me.
Uma tempestade forte ameaçava quebrar os vidros das antigas janelas de madeira, que rangiam e debatiam-se em movimentos insanos e desconexos. Os gritos ecoavam pela casa velha, atravessando portas e corredores. Em alguns momentos, eram mais altos que os trovões que retumbavam do lado de fora.
Não consigo lembrar-me de quadros ou móveis para descrever e enriquecer a história, estes detalhes eram muito superficiais na época, e por isso nunca tiveram lugar em minha jovem memória. Mas eu me lembro de uma cor: vermelho.
Vermelho sangue.
Esperava sentado na sala, em algum sofá, poltrona ou cadeira que não sei ao certo definir. Agarrava a manta que me cobria com um anseio paternal, tremendo de medo, frio e angústia. Mais trovões. Mais gritos. As luzes piscavam em um brilho fraco, imitando o lusco-fusco.
Um forte trovão. A janela estourou, arremessando cacos de vidro por toda a sala. Eu gritei, minha mãe gritou. E depois o vendaval cortou o cômodo, silenciando todo o resto.
Foi a última vez que ouvi a sua voz.
Depois de alguns segundos, um choro fraco ecoou. Um choro de bebê.
Uma senhora robusta, com os ombros largos, braços fortes e um pescoço ausente atravessou o corredor em minha direção. Seus passos pareciam marteladas no frágil piso de madeira. Em seus grandes braços, um pequeno manto sujo, manchado de vermelho sangue, emitia um grunhido inocente.
A mulher depositou o pequeno pacote em meus braços, rugiu alguma palavra incompreensível e me deu as costas. Com um forte empurrão, arremeteu contra a porta de entrada, e partiu.
Deixando-a escancarada, fiquei sentado em algum móvel indefinido, observando a tempestade devastadora do lado de fora. Em meus braços, meu pequeno irmão reclamava de alguma coisa.

         
E assim, naquele momento confuso e caótico, enquanto o corpo de minha mãe esfriava em seu quarto, uma grande borboleta negra atravessou o batente da porta aberta. Movimentando-se em semicircunferências, pousou em meu joelho. Depois, com um aceno de antenas, como se cumprimentassem um velho amigo, ela decolou e dirigiu-se para o quarto de minha mãe.

Foi a primeira vez que vi a Morte.

Continua

- Dedos Azuis

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Fútil Realidade #5

Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.

Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?

Fim

- Dedos Azuis

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Tuberculose

Era o refrão.

- I'm lost without you, can't help myself, how does it feel, to know that I love you baby!

E o 3.85 passou, como um falcão, enquanto abstraia-me em meio ao vocal de Robin Thicke. 

Frio, noite, sozinho. E agora sem transporte. As moedas avulsas tilintavam em meu bolso, enfatizando o fato de que, tirando os R$ 3,50, eu não tinha mais nenhum centavo. 
Sem dinheiro para um taxi, sem amigos para uma carona. Neste horário, o próximo 3.85 passaria só daqui há duas horas. Meu celular apitou, sussurrando o fim, e ao som de clarinetes minha bateria despediu-se. Sem comunicação. 

Em uma hora e meia eu estaria em casa, se decidisse caminhar. Xingando o sádico destino, o frio insuportável, a bateria efêmera, o dinheiro escasso e a solidão de morar em uma cidade em que você não conhece praticamente ninguém, levantei e comecei minha jornada. 
A cada passo, repreendia-me mais intensamente, pela falta de atenção. Odiava-me ao ponto de começar a traçar em minha mente soluções incrivelmente ruins para o meu problema. Eu poderia voltar para o ponto de ônibus, e esperar. Talvez tirar um cochilo... e provavelmente ser assaltado. Talvez pegar um taxi, e quando estiver chegando perto pular do carro em movimento... correndo risco de quebrar grande parte dos ossos de meu corpo, além de uma bela surra do taxista. Talvez roubar um carro...

Neste segundo, um suspiro metálico soprou de forma deprimente ao meu lado. Torcendo o pescoço, deparei-me com a lataria verde e branca coberta por ferrugem, os faróis ridiculamente luminosos e as portas escancaradas. O 3.85 estava estacionado ao meu lado, em uma rua que fugia drasticamente do seu destino, em um horário que ele não deveria estar lá, apenas esperando. 

Sorri e subi no ônibus. 

O motorista entrou em uma tosse frenética, escondendo o rosto no canto esquerdo de seu corpo. Sinalizou com o polegar para que eu me dirigisse para o fundo. Não tinha cobrador, então não fiz nenhum movimento para pegar os R$ 3,50 em meu bolso. Nunca se sabe o dia de amanhã. 

Caminhei até o último banco e sentei, com um suspiro de satisfação. Logo estaria em casa. 

Porém, como se lendo meu pensamento e resolvendo contrariar-me, o motorista simplesmente levantou e saiu pela porta de embarque, deixando o motor ligado. 

O cinto apertou-se contra meu peito com uma intensidade anormal (eu não lembrava de ter afivelado os cintos), tirando todo ar de meu pulmão. Tentei gritar, mas nenhuma voz saiu de minha garganta. As janelas estavam completamente embaçadas e opacas, o motor rugia com voracidade. 
O tecido do banco projetou-se, penetrando em minha pele, enquanto eu me debatia enfaticamente. Aos poucos, começou a entrelaçar-se com meus músculos, e senti uma dor aguda, como se minha alma estivesse sendo arrancada de mim. Circulou minha cabeça e entrou em meus orifícios faciais, furando meu tímpano, destruindo meus olhos e adentrando por minha boca e nariz. Desmaiei com a dor. 

Acordei com um pulo assustado. 
Olhei para ambos os lados, assimilando o local. Ainda estava no ponto de ônibus. Maldição, havia sido a porra de um pesadelo. 

Tentava regularizar meu coração acelerado quando o 3.85 virou a esquina. Sinalizei com o indicador. 
Antes de subir a escada, notei a pintura descascando e a ferrugem exagerada. Maldita EMDEC e sua frota velha de ônibus.

Paguei os R$ 3,50 para o motorista e caminhei para os bancos do fundo. Logo que sentei, ouvi uma tosse doentia apoderar-se do motorista. 

Era impressão minha ou ele estava vestido de palhaço?


- Dedos Azuis

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fútil Realidade #4

A vida é irônica. 
Até um certo aspecto, engraçada, mas esta ironia assume uma atmosfera bem sombria quando se presume a efemeridade do tempo. 
Vidas eternas de pessoas eternas, que entre 365 possibilidades, encontraram seu fim em um cruzamento extremamente familiar e singular. 
Há doze anos, eu e Brígida dirigimos até o cemitério nos dias 06 de Janeiro, para prestigiar nossa Mãe. Esta é a primeira vez que estamos vindo, no mesmo dia, para visitar ambos os pais. 
O médico não soube explicar o motivo de Pai ter falecido, há um ano, mas acredito fortemente que o motivo de sua partida foi exatamente a falta de motivos para ficar. A garota de sua vida já não estava mais aqui, e seus filhos estavam casados e aninhados em um laço de amor absoluto. 
Ele cuidou de muitos, e cuidou bem. Deixe que os céus cuidem dele agora. 
Brígida entendeu, eu entendi. Foi menos doloroso que a morte de Mãe. Eles estavam juntos, amando-se sem censuras terrenas, sem podas, sem idade. Apenas um amor infinito e inabalável, o mesmo que há muitos anos gravaram em nossos ânimos. 
Os túmulos estão lado a lado, e isso preenche meu coração com uma felicidade que não é possível transcrever em frágeis linhas. Brígida também está feliz. Muito feliz na verdade. 
Voltamos para nossa casa. para nosso ninho. Perder alguém é doloroso, mas mais doloroso é afastar amantes eternos.
Vendemos nossa antiga casa e compramos uma nova, um pouco menor. 
Recheamos com nossos gostos, nossos valores. Pintamos as paredes com tintas que representavam muito mais do que números em catálogos. 
Éramos muito novos, nem tinhamos terminado nossas faculdades, mas foda-se os padrões que a sociedade impõe. Casamos novos, começamos a morar juntos novos e a vida não podia ser mais feliz. 


Quando terminamos nossas faculdades, agarramos fortemente a ideia de nos tornarmos pais. Sempre fomos adepto, mas agora o tempo livre abriu espaço para este sonho. 
Fizemos uma imensa lista de nomes, para meninos e para meninas, no mesmo dia em que Brígida parou de tomar seu anticoncepcional. Apesar da vergonha, preciso confessar: foram bem prazeirosas as tentativas. 

No começo.

Com o tempo, começamos a ficar preocupados. Quatro meses, quatro menstruações. Brígida insistia em afirmar que era normal, que isso acontece, que em breve Lucas estaria a caminho. Mas eu sabia que tinha algo errado. 

"Endometriose", foi a palavra mais forte que já ouvi. Pior do que "morte", é a anulação da vida, a proibição natural de conceber. Sentamos no chão frio do consultório. Enquanto ela chorava desolada, tentava selar meus braços ao seu redor. Minha camisa empapava-se em suas lágrimas, mas não compartilhei as minhas. 
Não podia ser. Não com a gente. Era um amor tão puro, tão ridiculamente puro. Endometriose. 
Quando ouvi essa palavra, tive medo de perder minha garota. Tive medo de perder a Brígida que eu conhecia, medo de que esta restrição fosse um baque mais forte do que ela poderia aguentar. 

Estava enganado. 

Ficamos sentados no chão por quase duas horas. Quando ela terminou de chorar, levantou-se, limpou seu rosto e me abraçou muito forte. Foi o abraço mais forte que já trocamos. 
A sala do consultório estava bem amarelada por causa da luz artificial, mas os olhos de Brígida continuavam escuros como a lua. 
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e encostou sua testa na minha. 

- Você me ama, mesmo sabendo que não poderei engravidar? 
- Você me ama, mesmo sabendo que eu preferi a trilogia do Hobbit ao invés de O Senhor dos Anéis? 

Ela riu. Uma risada sincera. Fraca, porém sincera. 

- Vamos enfrentar isto - eu disse. 
- Te amo pra sempre. 

Um ano depois, no dia 29 de abril, recebemos a ligação. Lucas estava a caminho. Havíamos conseguido a guarda de um maravilhoso menino de três anos.

Continua


sexta-feira, 15 de maio de 2015

Um passo à frente

Houdini era uma assassina, e disto eu já sabia desde o primeiro instante em que a vi. 
Demasiadamente simpática, demasiadamente solicita. Sorriso demasiadamente branco e olhos demasiadamente verdes.

A calça jeans preta e a camisa slim de botões vinho surpreenderam-me, pois o prático vestido escuro com fenda lateral até a cintura fora substituido. Parecia confortável naquele traje. Parecia mais humana, menos divina.

E, apesar de todos meus instintos, provavelmente foi nesta humanidade em que apaixonei-me. 
Como um ex assassino (não por contrato e nem por psicopatia, e sim pela simples beleza na arte de matar) reconhecer outros assassinos era tão simples como limpar uma faca.

Os ligeiros movimentos nos pequenos músculos faciais normalmente é o que entrega um assassino, e com Houdini fora basicamente da mesma forma. Mas ela era a composição tão perfeita entre divindade e humanidade, que precisei aborda-la naquela festa.

Ela achou que havia capturado sua presa, mas na verdade capturara um novo namorado. 

Houdini era boa, mas não tão discreta, e sempre que voltava para casa após um assassinato, era claro como uma noite de verão que havia matado alguém. Mas como nunca conversamos disso, ela alegrava-se ao pensar que eu acreditava que era apenas uma administradora de empresa que chegava em casa tarde.

Entretanto, criei um fascínio tão grande nela com a obscuridade de meu passado nunca contado, que Houdini despertou em seu íntimo a insaciável vontade de me matar. Bom, insaciável e inalcançável, pois eu estava sempre a um passo à frente. 

No jantar em que ela colocou cianeto de potássio em minha comida, tristemente deixou rastros do pó embaixo da unha, e com um simples "estou enjoado, vou deitar", escapei de forma gloriosa. Isto instigou-a ainda mais, e com o passar dos dias ela começou a tornar-se ansiosa, desesperada e de certa forma um pouco frenética. Certamente pensava em seu próximo passo, mas, apesar de tudo, eu sempre estaria um à frente.

Houdini comprou uma .9mm, e planejava pressionar o travesseiro contra o meu rosto e apertar o gatilho na noite seguinte, quando comprasse o cartucho necessário. Porém, fora traída quando sem querer disse, enquanto cochilava no sofá, "na gaveta do banheiro de hóspedes". Curioso, procurei e encontrei a pequena pistola lá.

No dia seguinte, quando minha namorada não encontrou a arma, teve um pequeno surto, mas não contou-me o motivo do stress. Chorou, gritou, mas em dez minutos tudo estava bem novamente.

Houdini teve outros movimentos, outras ideias, mas eu sempre estava um passo a frente. Tentou com faca pelas costas, linha de nylon em meu pescoço, uma martelada em minha nuca, e, até sendo menos original, tentou colocar um saco plástico na minha cabeça. 

Mas, sério, gloriosamente estive sempre um passo à frente.

Até aquela sexta, obviamente.

Preparava dois deliciosos bifes Angus, enquanto Houdini assava batatas. Estávamos comemorando um ano de namoro. Ela estava tão feliz, tão radiante. Seu sorriso brilhava mais do que no dia em que a conheci.

As velas, o vinho, a janta. A perfeição reinou. Saiu por um instante para pegar algo para brindarmos.
Quando voltou, revelou em sua mão esquerda a prateada garrafa de espumante. Com um sorriso sarcástico, revelou a mão direita. Na ponta do dedo, uma fina calcinha preta balançava promiscuamente.

O sexo nunca fora tão bom. Dois corpos que tornaram-se um, pelo momento, pelo suor, pelo clímax.

Quando terminamos, a sensação de deleite permaneceu. Sua mão acariciando meu peito arrepiava cada milímetro de meu corpo. Minha respiração pesada estava voltando ao normal.

Delicadamente, Houdini levou sua mão ao centro de suas pernas, e após um instante, trouxe o dedo estendido aos meus lábios.

Percorreu toda periferia de meu lábio inferior, depois superior. Inseriu o dedo entre meus dentes semi-serrados e, antes que eu me desse conta, esfarelou uma pequena quantidade de pó em minha boca.

Assustado e perplexo, sentei, cuspindo violentamente o conteúdo. Houdini riu, uma gargalhada maravilhosa.

- É apenas Eno, seu bobo - olhou em meus olhos com aqueles maldito verde celestial - Não vai ser hoje, amor.

Mexendo a língua, assimilei o gosto; Eno. Olhei para ela, com um sorriso desconfiado.

Transamos mais três vezes naquela noite.

- Dedos Azuis


terça-feira, 14 de abril de 2015

O Show

Ele não tinha nada, exceto medo.
Não medo de morrer ou qualquer outra forma de flagelo físico. Ele tinha medo do anonimato.
Anos atrás, foi um famoso orador de circo. Multidões atravessavam estados apenas para vê-lo abrir os números e espetáculos, e a satisfação do público era tão grande que muitos voltavam uma segunda e até mesmo uma terceira vez.
Hoje em dia seu braço era tão fino que não aguentava mais carregar o comprido microfone. A cartola que pousava em sua cabeça abandonara o preto e tornou-se cinza, com mais bocas do que era possível contar. Ao redor dos olhos, a sombra preta escorria em rios por sua bochecha, acusando trajetos cursados por lágrimas. Seu terno vinho estava engomado, e de acordo com a incidência da luz solar era possível identificar manchas de sangue. Mas nada disso importava, pois no topo daquele prédio, detalhes tão pequenos eram invisíveis.
Uma mulher gritou, alguém implorou para que ele não pulasse, outros ignoraram e continuaram andando. Com o decorrer das horas, podia-se dizer que uma bela multidão havia se formado.
Que comece o show.
Botando-se em pé, urrou que iria pular. Um coro negativo veio em resposta, dando-lhe ainda mais ânimo. Articulou violentamente com as mãos, encenando que a vida não mais lhe era prazerosa, e de que o sol não brilhava como antes. Uma criança desatou a chorar.
A multidão aumentava, assim como sua encenação.
Arremessou a cartola aos ventos, chorando falsamente enquanto observava-a rodopiar pelo céu. E em quanto as horas passavam, mais seu show fazia sucesso.
No final do dia, mais de trezentas pessoas concentravam-se ao redor do prédio, maior do que qualquer público que já o visitara no circo. Carros da polícia iluminavam seu palco com sirenes, enquanto os bombeiros cuidavam da parte acústica. Um helicóptero sobrevoava o local, e se estivesse com sorte, já estaria nos jornais locais.
 Pois bem, era hora de encerrar. Agradeceu a Deus pelo rejuvenescimento de sua alma. Virou-se para descer do parapeito e
Escorregou.
Um passo falso apenas, em um parapeito ridiculamente estreito.
Enquanto caia, a surpresa apoderou-se de seu corpo. Mesclado com a felicidade que sentia, o gozo foi absoluto.

Antes de tocar o chão, jurou ter ouvido palmas. Aquele espetáculo foi seu maior sucesso.


- Dedos Azuis

terça-feira, 24 de março de 2015

Pútrido Ar

O ar mudou.
Não é o mesmo de antes. Certamente não é o mesmo de ontem, e sem dúvidas não é o mesmo de alguns anos atrás.
O ar não carrega mais a pureza que já carregou. Não carrega em pequenas partículas a estabilidade da vida. Não entorpece-nos de riso e alegria.
O ar, hoje, não é mais uma brisa agradável de verão. Não é um leve sopro em um cabelo aleatório.
Não.
O ar mudou, nada é mais como antigamente.
Hoje o ar é pútrido, cheio de ácaro.
O ar é sujo, e não só pelas partículas de poluentes.
O ar está impregnado com partículas que não possuem correspondentes na tabela periódica.
Carregado de cinzas espirituais, de sopros de desespero. Gritos de ódio, gritos de pavor.
Lotado de desapontamento e tristeza, com o cheiro da morte.
Hoje o ar leva apenas a agonia e a angustia.
E se você procurar bem, verá que não é de fábricas que este pútrido ar emana.
Ah, não...
Se procurar da maneira correta, verá que este ar provém do topo de uma montanha,
onde uma multidão perplexa e apática transpira um turbilhão de nada.
Os seres humanos exalam desespero, ódio, pavor. Regurgitam desapontamento e tristeza.
Morrem como se fosse o único fim esperado para uma vida de agonia e angustia.
E aquela maldita multidão, naquele maldito cume de montanha, poluindo o meu ar.
Poluindo o seu ar. O ar da sua mãe, o ar do seu filho.
Infelizmente, naquela multidão encontram-se todas as pessoas.
Sua mãe está ali, observando perplexa e apática. Seu filho também.
E todos eles, cada um que está lá polui o nosso ar pelo simples fato de serem humanos.
Tiram as cores, tiram a saturação, deixando-nos apenas com um cinza opaco.
Se antes era a base para a vida, hoje é apenas uma oxidação precoce dos nossos órgãos.
O ar mudou, e você também está no cume daquela montanha.
E a podridão que você exala também está matando-me mais rápido.

- Dedos Azuis

sábado, 21 de março de 2015

Morte | Lágrimas de Gasolina



quarta-feira, 4 de março de 2015

Onze

Hoje faz onze anos.

Nesses aniversários esperamos uma lembrança, uma flor que seja.

Hoje faz onze anos
E creio que ela nem mesmo reparou em mim

O quarto é escuro, a poltrona fica no canto

Hoje faz onze anos e ela não sabe que observo-a

Ela entrou de mãos dadas com outro homem
E deitou ao seu lado na cama

Gostaria de ter um cigarro, cara

Hoje faz onze anos
É a vadia está transando com outro

Onze, que maldito número 
Tão romântico e tão pútrido
Onze anos
Onze traições
Onze mulheres
Onze assassinatos
E uma, não onze, mas apenas uma mísera fração digitada de onze
Uma amaldiçoou-me

Onze vezes puta

E estou aqui
Comemorando meu aniversário de falecimento há onze anos

Hoje faz onze anos


E o sexo durou pouco mais de onze segundos

- Dedos Azuis

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Dia que Contaram a História da Criança que tinha Braços de Porco


O tão esperado dia 16 de fevereiro finalmente havia chegado. Era uma segunda feira chuvosa, e não trazia sinais aparentes de mudanças climáticas.

Ao soar do primeiro sinal, às 7h30 pontualmente, todas as crianças correram agitadas para o grande ônibus estacionado do outro lado da rua. Pouco ligando para a chuva, pouco ligando para os avisos de "cuidado", a manada de pequenas criaturinhas apostavam a corrida decisiva pelo lugar ao fundo.

Após a contagem da turma, o professor deu o sinal para o motorista. Com um som intergalático a porta se fechou, e o estudo do meio iniciava-se.
O destino era Brotas, no interior de São Paulo. O percurso pode ser facilmente percorrido em 1h45, se o trajeto for feito de carro. Agora, em um ônibus lotado de crianças, em pleno feriado de carnaval, e com uma chuva que cada vez tornava-se mais aterrorizante, seis horas de viagem era um pensamento otimista.

No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.

Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.

Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.

Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.

As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.

O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".

No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.

A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.

Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.

- Dedos Azuis





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

4:19 a.m.

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse desligá-lo, ouvi uma enorme explosão do lado de fora da janela.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou...

Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse...

Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.

Esperei pelo despertador tocar, para acordar deste maravilhoso espetáculo apocalíptico. Ao mesmo tempo que era belo, era fatal, aterrorizante.
Era questões de segundo até... Até o despertador tocar...
Em breve...
As explosões aproximavam-se, as estrelas caiam cada vez mais próximas.

Colocando a cabeça para fora, olhei para cima em direção vertical, observando o grande astro que aproximava-se.

O despertador nunca chegou a tocar.

- Dedos Azuis




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

.9mm

 Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
 Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que  Popin nunca havia chegado.
 Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
 Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.

 Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.

 Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
 Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
 Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
 Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.

 Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
 Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
 Matheus foi preso.
 Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
 O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.



Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.

Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.

Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:

" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"

Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.

- Dedos Azuis





quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um dia de Mãe

André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.

A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:

"Vou comprar leite", ela disse.

"Volto logo", ela disse.

Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo. 

Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,

onde detalhes não importavam nada e importavam muito. 

Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser. 

Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.

Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe. 

Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções. 

Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe? 

"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo. 

Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente. 

Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente. 

André teve uma vida boa, só não teve uma mãe. 

Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu. 

Mas hoje ela está ali. 

Não, ela não está morta. 

Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos. 

Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas. 

Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível. 

Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava. 

E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.

Disse que fora convocada, fora escolhida

Para tornar-se uma super-heroína

Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,

Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.

Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,

ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão. 

André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe. 

- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.

- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.

- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis. 
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas. 
São professoras e amigas, são apoio e incentivo. 
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe. 

E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo, 

Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos. 

- Dedos Azuis 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Príncipe do Nada

Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício. 

Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.

Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.  

Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui

Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado. 

Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.

Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco. 

Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados. 

Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz. 

Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.

Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês? 

Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes. 

Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio. 

Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro. 

Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se

E Deus desceu. 

Desceu e disse

Nada. 

E o parapeito tornou-se canja

E o Nada tornou-se meu reino.

- Dedos Azuis