O clique do mouse tornou-se tão repetitivo que passei a processá-lo de forma mecânica.
Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.
- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora!
Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social.
Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:
- Saia disso agora!
Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.
Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.
- Não, não, não...
Era inútil. Minha vida tinha acabado.
Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.
Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão.
Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook.
O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.
Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.
E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.
- Dedos Azuis
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domingo, 1 de junho de 2014
domingo, 19 de janeiro de 2014
Fútil Realidade #3
Apertei forte sua mão e entrelacei meus dedos aos seus. Nenhuma força no mundo poderia me separar dela.
A chuva desistiu de participar do dia, e os guarda-chuvas mostraram-se obsoletos. Com a mão livre, baixei o cogumelo negro que segurava e fechei-o com um singelo clique.
Mesmo depois de dez anos, os olhos de Brígida ainda borravam neste dia, turvejando-se como o céu nublado, que durante uma década manteve-se fiel em chover todos os dias 06 de Janeiro.
Pai não pode vir hoje. Um resfriado forte o deixou de cama, mas não era nada sério. Sentindo a angústia de Brígida em não poder homenagear a mãe, arrisquei-me dirigindo até o cemitério. Minhas aulas práticas começam apenas na próxima semana, mas Brígida merece.
Beijei uma rosa branca e depositei ao lado da foto de Mãe. Caminhamos a passos lentos até a entrada do cemitério, e, após passar o arco, Brígida rodou seu corpo e beijou meus lábios.
- Obrigado por me trazer, você é único!
Passei a mão suavemente por suas costas e sorri. Um sorriso fraco, mas ainda sim um sorriso.
- Você merece muito mais.
- Podemos tomar um sorvete, então? - Sorriu Brígida, com os olhos negros como a lua sorrindo em conjunto.
- Estava bom, anjo?
- Sim, o melhor! Obrigada, de coração.
Sorri.
Depois da morte de mãe, as coisas foram meio estranhas. Risadas e sorrisos não haviam mais. Tudo ficou triste, preto e branco. Pai perdeu sua jovialidade, Brígida perdeu todo seu ânimo e eu perdi, pela segunda vez, minha mãe.
Foram meses até a dor afunilar-se e iniciar um processo de contração. Pai não era o suporte que Brígida precisava, pois também tinha sua enorme dor. Ofereci meu ombro aos dois; tornei-me o melhor filho e o melhor irmão.
Mas, com Brígida, as coisas repercutiram de maneira diferente. Esperava uma explosão de Pai quando contamos que estávamos namorando, mas, ao contrário de minha expectativa, vi seu olho brilhar novamente, e seu sorriso caloroso acender como uma fogueira, coisa que não acontecia há quase oito anos.
Eu e Brígida, Brígida e eu, e Pai também quando não estamos envoltos em nosso casulo de amor. Aos poucos vencemos a dor, aprendemos novamente a ser feliz, pois era isso que Mãe iria querer. Nunca nos esqueceremos dela, mas aprendemos a tocar nossas vidas.
Olhei para cima, e percebi que pela primeira vez em 10 anos, no dia 06 de Janeiro havia um imenso céu azul acima de minha cabeça.
Ajoelhei em frente a Brígida, na calçada que cruzava com a sorveteria, e, antes que o momento passasse, disse:
- Brígida, você aceita se casar comigo?
Continua Aqui
A chuva desistiu de participar do dia, e os guarda-chuvas mostraram-se obsoletos. Com a mão livre, baixei o cogumelo negro que segurava e fechei-o com um singelo clique.
Mesmo depois de dez anos, os olhos de Brígida ainda borravam neste dia, turvejando-se como o céu nublado, que durante uma década manteve-se fiel em chover todos os dias 06 de Janeiro.
Pai não pode vir hoje. Um resfriado forte o deixou de cama, mas não era nada sério. Sentindo a angústia de Brígida em não poder homenagear a mãe, arrisquei-me dirigindo até o cemitério. Minhas aulas práticas começam apenas na próxima semana, mas Brígida merece.
Beijei uma rosa branca e depositei ao lado da foto de Mãe. Caminhamos a passos lentos até a entrada do cemitério, e, após passar o arco, Brígida rodou seu corpo e beijou meus lábios.
- Obrigado por me trazer, você é único!
Passei a mão suavemente por suas costas e sorri. Um sorriso fraco, mas ainda sim um sorriso.
- Você merece muito mais.
- Podemos tomar um sorvete, então? - Sorriu Brígida, com os olhos negros como a lua sorrindo em conjunto.
- Estava bom, anjo?
- Sim, o melhor! Obrigada, de coração.
Sorri.
Depois da morte de mãe, as coisas foram meio estranhas. Risadas e sorrisos não haviam mais. Tudo ficou triste, preto e branco. Pai perdeu sua jovialidade, Brígida perdeu todo seu ânimo e eu perdi, pela segunda vez, minha mãe.
Foram meses até a dor afunilar-se e iniciar um processo de contração. Pai não era o suporte que Brígida precisava, pois também tinha sua enorme dor. Ofereci meu ombro aos dois; tornei-me o melhor filho e o melhor irmão.
Mas, com Brígida, as coisas repercutiram de maneira diferente. Esperava uma explosão de Pai quando contamos que estávamos namorando, mas, ao contrário de minha expectativa, vi seu olho brilhar novamente, e seu sorriso caloroso acender como uma fogueira, coisa que não acontecia há quase oito anos.
Eu e Brígida, Brígida e eu, e Pai também quando não estamos envoltos em nosso casulo de amor. Aos poucos vencemos a dor, aprendemos novamente a ser feliz, pois era isso que Mãe iria querer. Nunca nos esqueceremos dela, mas aprendemos a tocar nossas vidas.
Olhei para cima, e percebi que pela primeira vez em 10 anos, no dia 06 de Janeiro havia um imenso céu azul acima de minha cabeça.
Ajoelhei em frente a Brígida, na calçada que cruzava com a sorveteria, e, antes que o momento passasse, disse:
- Brígida, você aceita se casar comigo?
Continua Aqui
domingo, 12 de janeiro de 2014
Noite de Pesadelos
O celular vibrou, e depois reproduziu um som; Um assobio familiar denunciou a música "Three Little Birds", que se estendia vagarosamente, enquanto Sandman corria para alcançar o aparelho.
- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.
- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!
- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
- Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.
Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.
Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.
- Dedos Azuis
- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.
- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!
- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
- Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.
Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.
Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.
- Dedos Azuis
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Fútil Realidade #2
Quem pode prever o início de uma verdadeira amizade?
Quem pode prever quando uma família começa ou acaba?
A minha havia acabado de recomeçar.
Alex era seu nome, e ela era Marta. Os pais de Brígida, quando ouviram minha história, interviram pela minha guarda na justiça. Como eu nunca tive avós ou tios próximos, ninguém questionou. Na verdade, o serviço social ficou feliz por livrar-se de mais uma boca para ser alimentada em um orfanato triste em qualquer canto triste da cidade.
A noticia foi como um choque para mim, mas admito que no fundo uma sensação de segurança aqueceu meu coração, como uma manta cobrindo os pés de uma velha senhora, sentada em sua poltrona em um dia frio de inverno.
Tudo se desenrolou tão rápido; as primeiras noites no quarto de hóspedes, o processo de adoção, o carinho e o amor que cresciam dentro dos corações e lacrava-nos uns aos outros.
Em um mês, não era mais um quarto de hóspedes; era meu quarto. Não era mais Alex e Marta, e sim pai e mãe. Não era só Brígida; era melhor amiga incondicionalmente e uma irmã como ninguém jamais sonhara.
Aos poucos, o terror daquele dia começou a desgrudar de minha jovem lembrança, e o riso de minha nova família obscureceu os pesadelos frequentes.
Sorri, pela primeira vez depois da morte de meus pais, quando Brígida entrou em meu quarto e me ofereceu uma tigela de açaí com banana. Rimos por horas, gargalhamos, e terminamos apoiados, um no outro, para recuperar o ar. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.
Tudo estava perfeito. Tudo era lindo. Um sonho que eu jamais tivera a audácia de sonhar. Rezei pelos meus falecidos pais, e agradeci a Deus por esta nova família.
No meu aniversário de oito anos, Marta, mãe, anjo da guarda, guardiã, protetora, morreu em um acidente de carro enquanto comprava meu presente de aniversário.
E de repente o céu azul acinzentou enquanto minha vida perdia novamente o sentido.
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Fútil Realidade #1
Brígida franziu o cenho e mostrou para os amigos à sua volta o pequeno pote arroxeado em suas mãos.
- Banana, vocês podem acreditar nisso? - Grunhiu e arremessou o recipiente lacrado ao chão - Meus pais devem me odiar! Eu peço açaí com guarana, e me compram com banana! Meus Deus, como posso ser tão abandonada assim?!
Olhou para cima e gritou, batendo com o sapato rosa na grama pisoteada do pátio da escola.
- Sério! Meu Deus, que vida injusta, eu não aguento mais isso! Eu não aguento mais! Vocês não acham um absurdo isso? Como alguém pode continuar vivendo assim? Banana, poxa!
Eu ouvia aquilo enquanto olhava para a pequena mala em meus pés.
Obviamente, não estava na mesma roda que Brígida estava. Na verdade, não estava em roda nenhuma.
Apenas sentava na grama suja e molhada da recente garoa, abrindo e fechando o zíper.
- Sabe... - Falei, alto o suficiente para Brígida ouvir - Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia. Mamãe estava no chão da cozinha, morta com a garganta rasgada e ensanguentada. Seu pijaminha branco estava todo rasgadinho e sujo. Quando gritei por Papai, ele não respondeu. Corri até seu quarto e encontrei apenas seu corpo pendurado e sem vida no ventilador, girando solitariamente. O pescoço estava todo roxinho.
Algumas crianças reclamaram em desaprovação e saíram de perto, dando pequenos risinhos. Mas Brígida não. Ela olhava para mim com olhos de lua negra, grandes como o universo. Levantei e caminhei até ela, arrastando a mochila e continuando minha história.
- Certamente, ao ver a cena, vomitei um pouquinho. Mas logo o resultado; o serviço social viria me buscar. Sabe, aqueles homens grandes e com roupas brancas, que tem enormes siringas que parecem espadas. Eles viriam me buscar e me levariam para um lugar triste, com crianças tristes e paredes tristes, onde não se pode desenhar na parede ou desenhar com as crianças. Eu cresceria triste, e provavelmente me tornaria um adulto triste, se um dia chegasse a ser adulto. Então, como era o óbvio, fiz minha mala com alguns brinquedos e roupas, e fugi de casa. Corri até a escola, e desde que acabou a aula não tenho para onde ir.
As outras crianças riram e saíram de perto, cuspindo em mim quando passaram. Brígida não.
Brígida permaneceu boquiaberta, com os buracos negros que eram seus olhos fixos em mim. Com passos curtos e lentos, caminhou até o pequeno pote de açaí e agarrou-o com as duas mãos. Caminhou até mim com um pequeno sorriso, e disse:
- Você quer dividir comigo? Eu tenho duas colheres na minha lancheira.
- Dedos Azuis
domingo, 20 de outubro de 2013
Amor Piscopata
Ah, o nosso amor, você me disse que estava escrito nas estrelas.
Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?
Como pôde, depois de tudo?
Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?
Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.
Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.
Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.
Cruel. Malévola. Vaca.
Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.
Vaca.
Vaca.
E agora, está mais feliz?
Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?
Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.
Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.
Eu tinha planos para você, sabia?
Sim, eu tinha.
Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.
Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.
Mas você, simplesmente, morre.
Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!
Como pôde, eventualmente, morrer?
Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!
À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?
Óh, Deus!
Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.
Você simplesmente partiu.
Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.
Espero te ver em breve.
Vaca.
- Dedos Azuis
Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?
Como pôde, depois de tudo?
Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?
Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.
Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.
Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.
Cruel. Malévola. Vaca.
Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.
Vaca.
Vaca.
E agora, está mais feliz?
Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?
Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.
Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.
Eu tinha planos para você, sabia?
Sim, eu tinha.
Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.
Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.
Mas você, simplesmente, morre.
Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!
Como pôde, eventualmente, morrer?
Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!
À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?
Óh, Deus!
Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.
Você simplesmente partiu.
Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.
Espero te ver em breve.
Vaca.
- Dedos Azuis
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Espelhos
Acendi um cigarro empoeirado e apoiei a cabeça no encosto do banco do carro. Com a janela aberta, soprei a fumaça para a negritude da noite. Malditos. Malditos.
Com um braço apoiado na porta, e o outro segurando o Hollywood, aguardava dentro do veículo, olhando fixamente para a janela iluminada. Malditos, puta que pariu, como estes filhos da merda eram malditos.
Há dois dias, quando abri a porta do apartamento, deparei-me com o corpo de minha mulher estirado no chão, com o rosto inteiramente coberto em sangue, disforme. Agachei ao seu lado, segurei seu frágil corpo, e urrei em desespero. Foram infinitos momentos de sofrimento. Não conseguia dormir, apenas gritar.
Com uma gélida faca, rasguei minha mão, deixando sangue cair no carpete. Em pouco, uma criatura apareceu, e me saudou. Cumprimentei o espírito sombrio de volta, e lhe fiz minha proposta. Minha alma em troca de uma volta no tempo, para matar o assassino que fez aquilo com minha amada. O trato estava feito. E aqui estou eu.
Traguei novamente o cigarro empoeirado, quando vi as silhuetas na janela. Ela em um vai e vem inabalável, e atrás, uma outra silhueta, irreconhecível, que acompanhava seu ritmo, mexendo os braços enfaticamente. Em um ato sexual inescrupuloso, apoiados na janela, minha esposa e um outro homem continuavam imersos em seus prazeres. Até que ele olhou assutado em direção do carro. Mas que malditos!
Abri mão de minha alma, por esta filha da puta, para encontrá-la me traindo?
Em estase, desci do carro, e corri a passos firmes até o prédio. Subi as escadas correndo, bufando. Com um violento chute, arrombei a porta do apartamento e corri para a sala.
E lá estava ela. Sentada, no sofá, lendo um jornal, apenas de roupão, como se nada tivesse acontecido.
- Meu amor - ela sussurrou, tirando o óculos e caminhando em minha direção - já voltou?
- Sua puta! - Gritei, e joguei-me violentamente para cima dela, socando-a inúmeras vezes.
Quando o seu corpo caiu no parapeito da janela, eu não parei. Sentei apoiei-me em sua cintura e continuei socando-a, socando-a. Até seu corpo sem vida cair aos meus pés.
Olhei para fora, para a janela.
Ali, parado no carro do outro lado da rua, estava eu mesmo, com um olhar de puro ódio nos olhos.
Olhei desesperado, para o corpo morto de minha esposa, para minha versão de mim mesmo que corria pela rua como um louco. Olhei para o lado.
E lá estava ele, o espírito sombrio, apenas rindo, com o braço em riste, a palma aberta, cobrando aquilo que eu estava lhe devendo.
- Dedos Azuis
terça-feira, 10 de setembro de 2013
4, 8, 15, 16, 23, 42
Abri os olhos, desbravando um novo mundo.
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.
Gritei.
Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.
Foi quando eu ouvi.
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
Procurei o som, arfando.
Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
- Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.
Foi quando eu ouvi:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.
Meu sangue e meu vomito ressecados.
Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.
- Dedos Azuis
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.
Gritei.
Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.
Foi quando eu ouvi.
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
Procurei o som, arfando.
Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
- Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.
Foi quando eu ouvi:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.
Meu sangue e meu vomito ressecados.
Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.
- Dedos Azuis
sexta-feira, 16 de agosto de 2013
Portas e Buracos
A rua prolongava-se em uma gigantesca serpente solitária e escura. Luzes perdidas intercaladas entre postes queimados e postes amarelados traçavam um caminho que poucos gostariam de seguir. Becos abandonados, lixões em putrefação, paredes tomadas por pichações vulgares. O mundo real.
Caminhava a passos apressados, subindo a velha rua, fugindo de minha própria sombra, vez que não havia uma única alma vagando por entre as paredes maltratadas.
Exitei. Agora havia.
Na outra extremidade da rua, parada sobre um colossal poste, iluminada pela luz amarelada lusco-fusco que descia sadicamente sobre seu pequeno corpo, uma criança jazia parada. Fitando o chão, a criança permanecia ali, alternando o peso entre os pés. Para cá, para lá, e de novo para cá.
Continuei andando, subindo a rua, alheio a pequena criatura, até o momento em que ela levantou seus olhos.
Inundados por um branco leitoso, seu olhar arrancou todo o calor de meu corpo, deixando-me com um abraço gélido de desespero. Calmamente desencostou do poste e começou a andar em minha direção, mancando, soltando pequenos sons estranhos de todas as articulações de seu corpo.
Tec. Tec. Tec. Um estralo a cada novo movimento.
Tec.
Tec.
Tec.
Não diminui meu ritmo em momento algum, mas quanto mais andava, mais próximo dela eu ficava.
Com a proximidade, percebi sua pele. Branca, translúcida, dominada por veias estouradas que seguiam até as orbitas brancas de sues olhos.
E então ela parou. E o som do mundo parou.
As cores pararam, assim como o gosto de bile em minha boca deixou de existir.
Agora era um mundo preto e branco, abafado, surdo, e com ela parada em minha frente.
E seu sorriso. Um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação.
Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
Apenas um buraco.
E disse:
- Vejo você em breve.
Joguei meu capuz sob minha cabeça, fechando-me em meu casulo de moletom. Puxei meus fones a minha orelha e isolei o mundo. The Strokes.
"Last night she said
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out"
Quando cheguei no cruzamento ao final da rua, olhei para trás, para ver se a criança continuava ali.
Ao fazer isso, subitamente não percebi o ônibus 3.85 que vinha em minha direção.
"So I, I turned around
Oh, baby, I don't care no more
I know this for sureI'm walking out that door"
E percebi, tarde demais, que aquela boca não era apenas um buraco, e sim uma porta.
Uma porta para o inferno.
Dedos Azuis
Caminhava a passos apressados, subindo a velha rua, fugindo de minha própria sombra, vez que não havia uma única alma vagando por entre as paredes maltratadas.
Exitei. Agora havia.
Na outra extremidade da rua, parada sobre um colossal poste, iluminada pela luz amarelada lusco-fusco que descia sadicamente sobre seu pequeno corpo, uma criança jazia parada. Fitando o chão, a criança permanecia ali, alternando o peso entre os pés. Para cá, para lá, e de novo para cá.
Continuei andando, subindo a rua, alheio a pequena criatura, até o momento em que ela levantou seus olhos.
Inundados por um branco leitoso, seu olhar arrancou todo o calor de meu corpo, deixando-me com um abraço gélido de desespero. Calmamente desencostou do poste e começou a andar em minha direção, mancando, soltando pequenos sons estranhos de todas as articulações de seu corpo.
Tec. Tec. Tec. Um estralo a cada novo movimento.
Tec.
Tec.
Tec.
Não diminui meu ritmo em momento algum, mas quanto mais andava, mais próximo dela eu ficava.
Com a proximidade, percebi sua pele. Branca, translúcida, dominada por veias estouradas que seguiam até as orbitas brancas de sues olhos.
E então ela parou. E o som do mundo parou.
As cores pararam, assim como o gosto de bile em minha boca deixou de existir.
Agora era um mundo preto e branco, abafado, surdo, e com ela parada em minha frente.
E seu sorriso. Um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação.
Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
Apenas um buraco.
E disse:
- Vejo você em breve.
Joguei meu capuz sob minha cabeça, fechando-me em meu casulo de moletom. Puxei meus fones a minha orelha e isolei o mundo. The Strokes.
"Last night she said
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out"
Quando cheguei no cruzamento ao final da rua, olhei para trás, para ver se a criança continuava ali.
Ao fazer isso, subitamente não percebi o ônibus 3.85 que vinha em minha direção.
"So I, I turned around
Oh, baby, I don't care no more
I know this for sureI'm walking out that door"
E percebi, tarde demais, que aquela boca não era apenas um buraco, e sim uma porta.
Uma porta para o inferno.
Dedos Azuis
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Forte
Tentei gritar, mas o sangue transbordou por minha boca.
O maldito corria muita a frente, com a bolsa balançando ao seu lado. Mas deixou, além de gritos grosseiros, uma faca cravada em minha jugular.
"Otária, por que foi tentar reagir?"
"Otária"
"Otária"
"Otária"
Os joelhos tornaram-se fracos, e meu corpo cedeu para frente. Com a queda, senti a faca penetrando mais e mais, destroçando toda minha placa óssea, minha clavícula.
Engraçado; espancada, cortada, fraturada, e eu estava morrendo afogada. Afogada em meu próprio sangue.
Gostaria de ter ouvido harpas, mas todo o som do mundo sumiu, dando espaço a um seco som de pedra quebrada, de chão se partindo. Uma mão magra desvirginou o novo espaço, seguida por um braço em terno cinza risca de giz. Em pouco, um homem magro estava parado, encarando-me.
Logo acima de sua gravata verde limão, um cavanhaque comprido finalizava o fino perfil de seu rosto.
O Tinhoso sorriu. Caminhou em minha direção à passos lentos. Pegou-me em seu colo e murmurou em meu ouvido:
- Vamos, querida?
Olhei no fundo de seus olhos sem pupila, sem íris; poços leitosos de desolação e sofrimento.
- Não - respondi calmamente, e cravei minhas unhas em seu rosto, rasgando pele e olhos.
Ele urrou de dor e me largou, enquanto meus dedos se embebedavam em viscosidade sanguínea.
Bati com o ombro no velho ah minha frente, e com um balançar inútil, seu corpo caiu na fenda recém aberta, voltando para a escuridão.
Olhei para baixo; não havia faca nem ossos fraturados. Apenas sangue e roupas rasgadas.
Baixei os olhos, para a fenda, e mostrei o dedo do meio. Olhei para cima e repeti o gesto.
- Eu vou viver, babacas - E após dito, caminhei a passos calmos na direção do ladrão.
Hoje a noite alguém iria sofrer muito.
- Dedos Azuis
O maldito corria muita a frente, com a bolsa balançando ao seu lado. Mas deixou, além de gritos grosseiros, uma faca cravada em minha jugular.
"Otária, por que foi tentar reagir?"
"Otária"
"Otária"
"Otária"
Os joelhos tornaram-se fracos, e meu corpo cedeu para frente. Com a queda, senti a faca penetrando mais e mais, destroçando toda minha placa óssea, minha clavícula.
Engraçado; espancada, cortada, fraturada, e eu estava morrendo afogada. Afogada em meu próprio sangue.
Gostaria de ter ouvido harpas, mas todo o som do mundo sumiu, dando espaço a um seco som de pedra quebrada, de chão se partindo. Uma mão magra desvirginou o novo espaço, seguida por um braço em terno cinza risca de giz. Em pouco, um homem magro estava parado, encarando-me.
Logo acima de sua gravata verde limão, um cavanhaque comprido finalizava o fino perfil de seu rosto.
O Tinhoso sorriu. Caminhou em minha direção à passos lentos. Pegou-me em seu colo e murmurou em meu ouvido:
- Vamos, querida?
Olhei no fundo de seus olhos sem pupila, sem íris; poços leitosos de desolação e sofrimento.
- Não - respondi calmamente, e cravei minhas unhas em seu rosto, rasgando pele e olhos.
Ele urrou de dor e me largou, enquanto meus dedos se embebedavam em viscosidade sanguínea.
Bati com o ombro no velho ah minha frente, e com um balançar inútil, seu corpo caiu na fenda recém aberta, voltando para a escuridão.
Olhei para baixo; não havia faca nem ossos fraturados. Apenas sangue e roupas rasgadas.
Baixei os olhos, para a fenda, e mostrei o dedo do meio. Olhei para cima e repeti o gesto.
- Eu vou viver, babacas - E após dito, caminhei a passos calmos na direção do ladrão.
Hoje a noite alguém iria sofrer muito.
- Dedos Azuis
terça-feira, 23 de julho de 2013
Possuir
Ao som do mais remoto silêncio, ao tremor do mais tranquilo repouso, ouço seu nome sendo sussurrado, espalhado aos quatro ventos; como a mais bela canção de amor, ou a mais triste lágrima derramada.
Não sei se te amo, se te odeio. Te amar me faz odiá-la. E quando eu te odeio percebo o quanto te amo.
Se eu seguro sua mão, em um movimento ríspido você a recolhe. Se você me abraça, sem demoras me afasto.
Quando me critica, sorri. E quando lhe irrito, sorrio. Pare de jogar. As fichas acabaram.
Ter você aqui, agora é um vicio.
Se te amo ou se te odeio? Não sei. Nunca vou saber.
Só sei que preciso de você aqui, e agora.
- Dedos Azuis
terça-feira, 16 de julho de 2013
Raízes
Ele lentamente levantou a cabeça, abrindo uma brecha em seu pensamento e deixando seu olhar fundir-se no céu noturno.
Vagou e divagou sobre galáxias e estrelas, e em meio a um determinado brilho, parou.
No dia seguinte, completaria 42 anos.
42, nossa! Como a vida passou rápida!
Olhou para baixo, para seu terno impecável, para sua gravata perfeitamente lisa, e pensou se tudo aquilo valia realmente a pena.
Tentou lembrar-se da sua infância, de como tudo era simplesmente mais calmo antes.
E conseguiu; porém, atrelado a perfeição de uma calmaria espiritual, estava sempre entrelaçada a imagem de seu pai.
Bóris; o Grande e Perfeito Bóris. Este era seu pai, um executivo brilhante, que com um rápido vislumbre conseguiu salvar suas três companhias em meio ao caos de 29. Nascido com uma intuição de ouro, potencializado para o sucesso, e com o cu virado para a lua, seu pai era uma enorme Sequoia, ofuscando todas as outras palmeiras ao seu redor.
E lá estava ele, sempre ofuscado pela sombra do pai. Uma singela gramínea perdida nas raízes da monstruosa árvore Bóris.
Fechou os olhos, reprimindo a raiva, e cortando momentaneamente sua conexão com as estrelas.
Lembrou-se da casa na praia, de sua mãe preparando o peixe para o almoço, enquanto ele voltava da praia com sua pequena prancha em baixo do braço. O cheiro da maresia subitamente preencheu suas narinas, inundando seu cérebro em nostalgia. Viu o pai parado na soleira da porta, e correu em sua direção, gritando, feliz, exaurindo saudades. Bóris, friamente virou-se para o lado, e disse:
- Não toque em mim sujo deste jeito! Esta calça é nova, pelo amor de Deus! Este menino não tem jeito!
Lentamente tirou os sapatos e a gravata.
Estava em sua casa. Caminhou à passos apressados ao escritório de seu pai. Empurrou a pesada porta, ansioso para mostrar sua mais nova obra de arte.
- Papai, olhe! - E levantou o desenho o mais alto que suas pequenas mãozinhas podiam alcançar.
Bóris, apenas virou a cadeira, e com ela o braço estirado, que tapeou a criança em cheio no rosto.
A pequena criatura caiu no chão, alguns metros ao lado.
- Nunca mais entre em meu escritório sem bater! Nunca mais.
Deixou cair por sobre os ombros o paleto, e removeu a camisa.
Ligou para o pai quando tinha 18 anos, gritando, perdido em felicidade:
- Pai, eu passei pai! Fui chamado na primeira lista! Você acredita?
- Está surpreso por que? Sua obrigação foi cumprida, nada mais.
E desligou.
Retirou a calça e a cueca.
Parou, com a mão na cintura, observando o monstruoso e colossal universo que estendia-se a sua frente.
Hoje fora o funeral de Bóris, e ele nem teve tempo de ir. Mas não se sentiu mal por isso.
Em contraponto, ontem fora a feira de ciência de Sirob, seu filho. Tempo também fora o carrasco, mas, pensando bem, vontade não havia.
Foi quando ele percebeu, que, ramo por ramo, ano à ano, ele mesmo havia se tornado igual seu pai, e estava sendo um terrível Bóris para seu filho.
Removeu então sua pele, e deixou toda sua essência ser espalhada pelo vento frio que rumava a leste, dissolvendo-se em uma nuvem negra de ácaro.
Afinal, uma gramínea pode ser infinitamente menor do que uma Sequoia, mas produz sementes. E, se há um mal, seja ele gramínea ou Sequoia, deve ser cortado pela raiz.
- Dedos Azuis
Vagou e divagou sobre galáxias e estrelas, e em meio a um determinado brilho, parou.
No dia seguinte, completaria 42 anos.
42, nossa! Como a vida passou rápida!
Olhou para baixo, para seu terno impecável, para sua gravata perfeitamente lisa, e pensou se tudo aquilo valia realmente a pena.
Tentou lembrar-se da sua infância, de como tudo era simplesmente mais calmo antes.
E conseguiu; porém, atrelado a perfeição de uma calmaria espiritual, estava sempre entrelaçada a imagem de seu pai.
Bóris; o Grande e Perfeito Bóris. Este era seu pai, um executivo brilhante, que com um rápido vislumbre conseguiu salvar suas três companhias em meio ao caos de 29. Nascido com uma intuição de ouro, potencializado para o sucesso, e com o cu virado para a lua, seu pai era uma enorme Sequoia, ofuscando todas as outras palmeiras ao seu redor.
E lá estava ele, sempre ofuscado pela sombra do pai. Uma singela gramínea perdida nas raízes da monstruosa árvore Bóris.
Fechou os olhos, reprimindo a raiva, e cortando momentaneamente sua conexão com as estrelas.
Lembrou-se da casa na praia, de sua mãe preparando o peixe para o almoço, enquanto ele voltava da praia com sua pequena prancha em baixo do braço. O cheiro da maresia subitamente preencheu suas narinas, inundando seu cérebro em nostalgia. Viu o pai parado na soleira da porta, e correu em sua direção, gritando, feliz, exaurindo saudades. Bóris, friamente virou-se para o lado, e disse:
- Não toque em mim sujo deste jeito! Esta calça é nova, pelo amor de Deus! Este menino não tem jeito!
Lentamente tirou os sapatos e a gravata.
Estava em sua casa. Caminhou à passos apressados ao escritório de seu pai. Empurrou a pesada porta, ansioso para mostrar sua mais nova obra de arte.
- Papai, olhe! - E levantou o desenho o mais alto que suas pequenas mãozinhas podiam alcançar.
Bóris, apenas virou a cadeira, e com ela o braço estirado, que tapeou a criança em cheio no rosto.
A pequena criatura caiu no chão, alguns metros ao lado.
- Nunca mais entre em meu escritório sem bater! Nunca mais.
Deixou cair por sobre os ombros o paleto, e removeu a camisa.
Ligou para o pai quando tinha 18 anos, gritando, perdido em felicidade:
- Pai, eu passei pai! Fui chamado na primeira lista! Você acredita?
- Está surpreso por que? Sua obrigação foi cumprida, nada mais.
E desligou.
Retirou a calça e a cueca.
Parou, com a mão na cintura, observando o monstruoso e colossal universo que estendia-se a sua frente.
Hoje fora o funeral de Bóris, e ele nem teve tempo de ir. Mas não se sentiu mal por isso.
Em contraponto, ontem fora a feira de ciência de Sirob, seu filho. Tempo também fora o carrasco, mas, pensando bem, vontade não havia.
Foi quando ele percebeu, que, ramo por ramo, ano à ano, ele mesmo havia se tornado igual seu pai, e estava sendo um terrível Bóris para seu filho.
Removeu então sua pele, e deixou toda sua essência ser espalhada pelo vento frio que rumava a leste, dissolvendo-se em uma nuvem negra de ácaro.
Afinal, uma gramínea pode ser infinitamente menor do que uma Sequoia, mas produz sementes. E, se há um mal, seja ele gramínea ou Sequoia, deve ser cortado pela raiz.
- Dedos Azuis
quinta-feira, 11 de julho de 2013
Cebolas por Cebolas
Ele olhou para o baixo, nervoso.
Naquela altitude, o vento frio e cortante era o menor de seus problemas.
De repente, toda sua determinação parecia se esvairir de seu corpo com a fluidez de um Yakult derramado.
Será que era o certo?
Será que era o caminho?
Apoiou sua nuca contra o parapeito do prédio, feito com mármore gélido. Pombas mordiscavam o outro lado do terraço, enquanto as nuvens perdiam-se em meio ao límpido céu azul de Forster.
Em meio ao caos que era sua mente, a lucidez abriu espaço, e o homem viu nascer em seu ombro uma pequena criatura.
Primeiro ela mostrou-se curvada, mas aos poucos começou a adotar uma postura ereta, como uma flor desabrochando.
Sua pele não era de nenhum tom tradicional. Era algo indefinido entre vermelho ou azul, o pobre homem só não sabia diferenciar, pois tinha toda a gama RGB limitada por um daltonismo nunca antes identificado.
A miniatura abriu um pequeno sorriso, e iniciou seu diálogo:
- Faça, aproveite o momento. Sinta cada sensação como se fosse única, sinta cada toque como um fragmento do céu. Cada beijo como uma gota de mel.E as consequências, se forem consequências e não apenas lembranças, serão recebidas de braços abertos, braços abertos e orgulhosos por terem vividos apaixonadamente um momento jamais imaginado, e jamais arrependido.
E nesse momento, o homem apenas acenou com a cabeça, pois sabia que era o que tinha de ser feito, compreendia, e aceitava que era o primeiro passo para a extinção do mal.
Apoiou a Sniper no parapeito do prédio, regulando o zoom, e deu início assim, a sua chacina pessoal.
- Dedos Azuis
Naquela altitude, o vento frio e cortante era o menor de seus problemas.
De repente, toda sua determinação parecia se esvairir de seu corpo com a fluidez de um Yakult derramado.
Será que era o certo?
Será que era o caminho?
Apoiou sua nuca contra o parapeito do prédio, feito com mármore gélido. Pombas mordiscavam o outro lado do terraço, enquanto as nuvens perdiam-se em meio ao límpido céu azul de Forster.
Em meio ao caos que era sua mente, a lucidez abriu espaço, e o homem viu nascer em seu ombro uma pequena criatura.
Primeiro ela mostrou-se curvada, mas aos poucos começou a adotar uma postura ereta, como uma flor desabrochando.
Sua pele não era de nenhum tom tradicional. Era algo indefinido entre vermelho ou azul, o pobre homem só não sabia diferenciar, pois tinha toda a gama RGB limitada por um daltonismo nunca antes identificado.
A miniatura abriu um pequeno sorriso, e iniciou seu diálogo:
- Faça, aproveite o momento. Sinta cada sensação como se fosse única, sinta cada toque como um fragmento do céu. Cada beijo como uma gota de mel.E as consequências, se forem consequências e não apenas lembranças, serão recebidas de braços abertos, braços abertos e orgulhosos por terem vividos apaixonadamente um momento jamais imaginado, e jamais arrependido.
E nesse momento, o homem apenas acenou com a cabeça, pois sabia que era o que tinha de ser feito, compreendia, e aceitava que era o primeiro passo para a extinção do mal.
Apoiou a Sniper no parapeito do prédio, regulando o zoom, e deu início assim, a sua chacina pessoal.
- Dedos Azuis
domingo, 7 de julho de 2013
Leitores
Os anos passam, assim como páginas.
Temos este corpo, duro como uma capa revestida em couro, mas por dentro, somos mais frágeis do que velhas folhas amareladas, que desfazem-se ao toque.
E assim, vamos aprendendo aos poucos que a vida é feita de fragmentos de livros, e não o contrário.
Nascemos no momento que escolhemos qual marcador de página vamos usar;
Alguns são planejados, bem escolhidos. Outros são simplesmente pegados numa velocidade brutal.
Vivemos, enquanto páginas descorrem. Alguns tão rapido que as folhas se rasgam, outros tão devagar que as folhas mal viram.
E no fim, o que importa é como fecharão este livro. Se vamos ser fechados com força e jogados no fundo de um armário, ou se seremos fechado com deliciosa delicadesa, e enfeitaremos para sempre
a cabeceira de cama de um leitor que nos amou por toda uma vida.
E assim, quando aprendermos que vidas são livros, passaremos a ser brilhantes leitores.
- Dedos Azuis
Temos este corpo, duro como uma capa revestida em couro, mas por dentro, somos mais frágeis do que velhas folhas amareladas, que desfazem-se ao toque.
E assim, vamos aprendendo aos poucos que a vida é feita de fragmentos de livros, e não o contrário.
Nascemos no momento que escolhemos qual marcador de página vamos usar;
Alguns são planejados, bem escolhidos. Outros são simplesmente pegados numa velocidade brutal.
Vivemos, enquanto páginas descorrem. Alguns tão rapido que as folhas se rasgam, outros tão devagar que as folhas mal viram.
E no fim, o que importa é como fecharão este livro. Se vamos ser fechados com força e jogados no fundo de um armário, ou se seremos fechado com deliciosa delicadesa, e enfeitaremos para sempre
a cabeceira de cama de um leitor que nos amou por toda uma vida.
E assim, quando aprendermos que vidas são livros, passaremos a ser brilhantes leitores.
- Dedos Azuis
quinta-feira, 4 de julho de 2013
Prozac
Ela sorriu, mas não era mais forte do que um pé de alface.
Com os anos ele passou a odiá-la, mas nunca a contou.
Com os anos, ela também passou a odiá-lo, e manteve isto em segredo.
Mulheres são mais complicadas do que moscas.
Ela deveria ter continuado dormindo. Era preferível um belo sonho do que um domingo assistindo ao futebol.
Ele nunca deveria ter encontrado o sapato de cristal. Criar um aspecto de amor para simplesmente ser traído meses depois.
Ela nunca deveria ter sido salva daquele dragão, daquela bruxa. Nunca deveria ter descido da torre e acreditado em um falso cavaleiro cavalheiro.
E para todos os outros que ainda acreditam em contos de fadas, comprem uma caixinha de anti-depressivos.
- Dedos Azuis
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Monstros e Humanos
Ela ouviu um pequeno sussurro em baixo de sua cama.
Abriu os olhos, mas a escuridão preencheu-os tão violentamente que precisou processar por alguns segundos se realmente estava de olho aberto ou fechado.
Puxou, calmamente, o edredom acima do nariz, deixando apenas os olhos de fora. Aos poucos suas pálpebras ganharam densidade, e seus olhos começaram a se fechar. O mundo começou a perder a cor, a perder forma. A escuridão começou a tornar-se clara, e sua consciência a ...
E novamente o sussurro puxou-a de volta. Abriu os olhos, assustada.
Sabia que não fora sonho, que não fora estado de dormência.
Sabia o que tinha ouvido.
E sabia que estava em baixo de sua cama.
Lentamente tirou o edredom de cima de seu pequeno corpo, e apoiou o os bracinhos na beirada da cama.
Em seus cinco anos, a única coisa que realmente era clara para ela era que em baixo da cama havia monstros. No escuro havia monstros.
Mas... Se todo o quarto é escuro, então há monstros em todo o quarto?
Se ela está no quarto, então ela é um monstro?
Mas e a noite, que assola o mundo em escuridão? Seremos todos monstros vagando em um escuro com medo de nossa própria sombra? Existe uma sombra então?
Será que o real escuro é a nossa sombra? O monstro real? A outra parcela de nossa personalidade que filtra tudo aquilo que em nós nos deturpa da humanidade?
Ou será que nos tornamos monstros no escuro pelo simples fato de nossa sombra fundir-se ao nosso integro, tornando um só, monstro e humano?

Seus cachos loiros tocaram o chão quando ficou de cabeça para baixo, fitando fielmente o chão em baixo de sua cama.
E ali, olhando de volta, e sorrindo, estava ela mesma.
Sorrindo e sussurrando, segurando uma pequena ampulheta, enquanto gotas de sangue escorriam por seu nariz.
- Dedos Azuis
Abriu os olhos, mas a escuridão preencheu-os tão violentamente que precisou processar por alguns segundos se realmente estava de olho aberto ou fechado.
Puxou, calmamente, o edredom acima do nariz, deixando apenas os olhos de fora. Aos poucos suas pálpebras ganharam densidade, e seus olhos começaram a se fechar. O mundo começou a perder a cor, a perder forma. A escuridão começou a tornar-se clara, e sua consciência a ...
E novamente o sussurro puxou-a de volta. Abriu os olhos, assustada.
Sabia que não fora sonho, que não fora estado de dormência.
Sabia o que tinha ouvido.
E sabia que estava em baixo de sua cama.
Lentamente tirou o edredom de cima de seu pequeno corpo, e apoiou o os bracinhos na beirada da cama.
Em seus cinco anos, a única coisa que realmente era clara para ela era que em baixo da cama havia monstros. No escuro havia monstros.
Mas... Se todo o quarto é escuro, então há monstros em todo o quarto?
Se ela está no quarto, então ela é um monstro?
Mas e a noite, que assola o mundo em escuridão? Seremos todos monstros vagando em um escuro com medo de nossa própria sombra? Existe uma sombra então?
Será que o real escuro é a nossa sombra? O monstro real? A outra parcela de nossa personalidade que filtra tudo aquilo que em nós nos deturpa da humanidade?
Ou será que nos tornamos monstros no escuro pelo simples fato de nossa sombra fundir-se ao nosso integro, tornando um só, monstro e humano?

Seus cachos loiros tocaram o chão quando ficou de cabeça para baixo, fitando fielmente o chão em baixo de sua cama.
E ali, olhando de volta, e sorrindo, estava ela mesma.
Sorrindo e sussurrando, segurando uma pequena ampulheta, enquanto gotas de sangue escorriam por seu nariz.
- Dedos Azuis
terça-feira, 25 de junho de 2013
Brilhar
O brilho dos olhos brilha mais que o brilho da faca.
Mas o mundo não brilha. Não mais.
Lusco-fusco, lusco-fusco.
Seu caminhar abafado, e a faca a tilintar.
Lusco-fusco, lusco-fusco.
De repente um sorriso a brilhar, e as estrelas opacas.
O mundo vive, e o opaco brilha. Não mais, não mais.
Lusco-fusco, lusco-fusco.
Sangue brilha a escorrer, e o mundo não vive, jamais.
Meu sangue ou sangue dele?
Lusco-fusco à brilhar.
- Dedos Azuis
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Manifesto
E naquela esbranquiçada escada de mármore, ele esperava.
Em uma mão pousava uma bandeira branca, na outra, um ardente molotov.
Ele olhou de relance para a prefeitura, e depois para a rebelião caótica que ocorria em suas costas.
Levantou uma das mãos, mas parou antes de concluir a ação. Todos os manifestantes subitamente pararam. A tropa de choque baixou seus escudos. O som do mundo foi reduzido à um leve crepitar de chamas.
Rapidamente as cores e nuances também abandonaram o Brasil. Não havia mais bandeiras. Havia um universo estático preto e branco, e um jovem, ali, parado, com o futuro da nação em suas mãos.
Voltou o olhar para a prefeitura, e desceu-o para a bandeira branca. Sua mão transpirava, dando vida as gotículas que escorriam por sob a haste da paz. Mas, antes de declará-la, hesitou.
Lembrou-se então, dos vinte centavos. Dos vinte centavos que compram cargos políticos, dos vinte centavos que compram amigos. Vinte centavos estes que totalizam a verba anual gasta em saúde, gasta com educação. Talvez vinte centavos seja até mesmo as duas verbas somadas. Lembrou-se dos vinte centavos pagos de salário a polícia, que, por mais vinte centavos, oprime qualquer um que se posicionar contra este Governo que não vale mais do que vinte centavos.
Tentou gritar Brasil, tentou chamar pela pátria! Mas a única coisa, a única, em meio a tanta roubo, a tanta corrupção, a única coisa que passou pela sua garganta foi um jorro de sangue quente. Sangue de ódio, sangue revolucionário.
Voltou a olhar para a bandeira branca. No fundo, ele queria levantá-la, queria amar esta porra de Brasil, pois, se não amasse, teria que deixá-lo. Mas então lembrou-se da merda dos vinte centavos que por anos compraram a dignidade do povo brasileiro.
Mas não mais, não mais! Não mais, PORRA!
O Brasil acordou, a sociedade reagiu! Tardia, mas frenética! Um batalhão sem precedentes que anseia por mudanças, que só vai ser freado por resultados! Uma tropa de pessoas que lutam por um país melhor. Que gritam e jogam para os céus os vinte centavos. Não é por um vinte centavos. Mas por milhões de vinte centavos. Extorquidos de cada brasileiro ano à ano, década após década, mas ninguém diz nada. Ou pelo menos não dizia, pois agora todos foram para as ruas.
Em um momento final, o jovem revolucionário concluiu de que este país não precisa de mudanças, ele precisa ser refeito, e com um grito cortante de agonia, arremessou o coquetel molotov, incendiando tudo e todos.
Ele só não sabia que seu ato não destruiria apenas o país vigente. Destruiria todo um ideal, toda a estrutura da manifestação. Acabaria com os protestos, pois perderam seu caráter pacífico. Não sabia que iniciaria uma guerra civil, um estado de sítio.
Não sabia que o fogo o consumiria tão rápido.
Mas rápido até do que mudanças de estação. Do que primaveras políticas.
- Dedos Azuis
Em uma mão pousava uma bandeira branca, na outra, um ardente molotov.
Ele olhou de relance para a prefeitura, e depois para a rebelião caótica que ocorria em suas costas.
Levantou uma das mãos, mas parou antes de concluir a ação. Todos os manifestantes subitamente pararam. A tropa de choque baixou seus escudos. O som do mundo foi reduzido à um leve crepitar de chamas.
Rapidamente as cores e nuances também abandonaram o Brasil. Não havia mais bandeiras. Havia um universo estático preto e branco, e um jovem, ali, parado, com o futuro da nação em suas mãos.
Voltou o olhar para a prefeitura, e desceu-o para a bandeira branca. Sua mão transpirava, dando vida as gotículas que escorriam por sob a haste da paz. Mas, antes de declará-la, hesitou.
Lembrou-se então, dos vinte centavos. Dos vinte centavos que compram cargos políticos, dos vinte centavos que compram amigos. Vinte centavos estes que totalizam a verba anual gasta em saúde, gasta com educação. Talvez vinte centavos seja até mesmo as duas verbas somadas. Lembrou-se dos vinte centavos pagos de salário a polícia, que, por mais vinte centavos, oprime qualquer um que se posicionar contra este Governo que não vale mais do que vinte centavos.
Tentou gritar Brasil, tentou chamar pela pátria! Mas a única coisa, a única, em meio a tanta roubo, a tanta corrupção, a única coisa que passou pela sua garganta foi um jorro de sangue quente. Sangue de ódio, sangue revolucionário.
Voltou a olhar para a bandeira branca. No fundo, ele queria levantá-la, queria amar esta porra de Brasil, pois, se não amasse, teria que deixá-lo. Mas então lembrou-se da merda dos vinte centavos que por anos compraram a dignidade do povo brasileiro.
Mas não mais, não mais! Não mais, PORRA!
O Brasil acordou, a sociedade reagiu! Tardia, mas frenética! Um batalhão sem precedentes que anseia por mudanças, que só vai ser freado por resultados! Uma tropa de pessoas que lutam por um país melhor. Que gritam e jogam para os céus os vinte centavos. Não é por um vinte centavos. Mas por milhões de vinte centavos. Extorquidos de cada brasileiro ano à ano, década após década, mas ninguém diz nada. Ou pelo menos não dizia, pois agora todos foram para as ruas.
Em um momento final, o jovem revolucionário concluiu de que este país não precisa de mudanças, ele precisa ser refeito, e com um grito cortante de agonia, arremessou o coquetel molotov, incendiando tudo e todos.
Ele só não sabia que seu ato não destruiria apenas o país vigente. Destruiria todo um ideal, toda a estrutura da manifestação. Acabaria com os protestos, pois perderam seu caráter pacífico. Não sabia que iniciaria uma guerra civil, um estado de sítio.
Não sabia que o fogo o consumiria tão rápido.
Mas rápido até do que mudanças de estação. Do que primaveras políticas.
- Dedos Azuis
domingo, 16 de junho de 2013
Vidas Obssessoras
O árido mármore arranhou minhas costas. Os recentes ferimentos ainda incomodavam Mal cicatrizada e mais fina do que seda, minha pele gritou.
Todo o mundo que me adornava começou a tornar-se preto e branco, conforme iniciava minha aventura no passado. Um hábito comum à todos aqueles que buscavam entender suas falhas.
Novamente no parque, novamente no banco, porém há muito tempo atrás. Giovanni ali, com suas curtas perninhas balançando no ar. As pequenas mãos entrelaçadas a fria corrente do balanço, enquanto sua cabeça pendia para baixo.
A tristeza era seu melhor amigo de infância.
Foi então que me apresentei. Sorri, e ele sorriu para mim. Foi o suficiente para uma efetiva aprovação. Nos tornamos inseparáveis.
Sua infância foi monótona, mas satisfatória. Solitária, porém feliz. Giovanni conversava pelos desenhos, sorria rabiscos. E dava todos para mim.
Porém isto começou a mudar. Sua adolescência, seu sucesso profissional, sua vida social. Não havia espaço para fé em meio a tantas garotas. Não havia deixas para crenças bobas, para anjos da guarda.
Giovanni alcançou a tudo e todos pelos seus próprios esforços, pelo seu próprio carisma. Aos 17 Giovanni era ateu.
Seguiu toda uma vida, ou uma desvida.
Ele foi promovido e casou. Teve um filho e chamou-o de Vitor.
Foi demitido e abandonado. Seu filho adoeceu aos 6.
Pela primeira vez em 9 anos, Giovanni chorou de verdade. Pela primeira vez, rezou.
Penso se as coisas teriam sido diferentes.
Penso se as coisas teriam sido diferentes se eu tivesse feito Giovanni abaixar a voz naquela reunião. Bater o carro antes de chegar no motel. Se eu tivesse salvado Vitor.
Mas meu ego não me permitiu-me. Ó caro leitor, não. Desculpe se passei-lhe uma impressão errada. Não sou um anjo da guarda, não.
Sou mais… como meu amigo gosta de dizer, de um departamento mais profundo.
Realmente as coisas teriam sido diferentes, se eu não tivesse ajudado Giovanni a pressionar o gatilho.
- Dedos Azuis
terça-feira, 11 de junho de 2013
O Mundo Mágico de Giovanni
O tênue e morno sono foi partido pelo gritante berro do despertador. O som preencheu o ambiente, preencheu o coração de Giovanni. De mãos dadas a agonia, ele despertou.
Derrubou no prato frio sobre a mesa seus ovos mexidos. Quarta não tinha bacon. Esgueirou o alimento garganta abaixo, enquanto o desprezível gosto de sono recheava sua boca.
Escovou seus dentes, enquanto a pastava gerava um novo produto, agora misturada com pequenos pedaços de ovos.
Indo para o escritório, uma curva acentuada o fez cometer um deslize. Quase sofreu um acidente.
Seu computador estava um pouco mais devagar hoje. Acreditava que o responsável era o recente download do novo torrent operacional. O café da cantina estava uma merda.
Sorriu ao jogar seus sapatos em um canto da sala, e se derreteu no sofá. Janta e sono foi uma mistura de miojo e lençóis, mas para Giovanni era o suficiente.
Porém o tênue e morno sono sabia que seu carrasco logo se aproximaria.
E para todos aqueles que esperavam um conto sobre magia, apenas questionem-se:
- O que é mais mágico do que a vida?
- Dedos Azuis
Derrubou no prato frio sobre a mesa seus ovos mexidos. Quarta não tinha bacon. Esgueirou o alimento garganta abaixo, enquanto o desprezível gosto de sono recheava sua boca.
Escovou seus dentes, enquanto a pastava gerava um novo produto, agora misturada com pequenos pedaços de ovos.
Indo para o escritório, uma curva acentuada o fez cometer um deslize. Quase sofreu um acidente.
Seu computador estava um pouco mais devagar hoje. Acreditava que o responsável era o recente download do novo torrent operacional. O café da cantina estava uma merda.
Sorriu ao jogar seus sapatos em um canto da sala, e se derreteu no sofá. Janta e sono foi uma mistura de miojo e lençóis, mas para Giovanni era o suficiente.
Porém o tênue e morno sono sabia que seu carrasco logo se aproximaria.
E para todos aqueles que esperavam um conto sobre magia, apenas questionem-se:
- O que é mais mágico do que a vida?
- Dedos Azuis
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