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domingo, 9 de junho de 2013

Distinguir

Me perco por um segundo, e minhas pálpebras pesadas se fecham.
Um sono rápido me atinge, implacável e solidário. Na verdade não um sono, mas aquele belíssimo estado da consciência em que você começa a refletir sobre inúmeras coisas, pensar inúmeras outras, e até mesmo desenvolver conclusões sobre fatos nunca pensados antes; um meio termo entre vigia e sonho.
A realidade se confunde com lençóis, e por um momento chego a acreditar que sou feito de tecido. Mas foi apenas um breve momento.
A madeira rangendo me acorda de sobressalto, enquanto a claridade penetra por minha porta em movimento. Olho, eufórico, para a silhueta que ali está, parada, parada. Fitando-me.
Imóvel ela permanece, e meu coração preste a estourar. 
Suavemente, desliza a mão para trás de seu corpo, e volta a puxá-la. Agora, porém, com um brilho lusco-fusco em suas mãos.
Então é assim? Toda uma vida que foi, que deveria ser, indo embora como um suspiro de alma, como um soluço ofegante?
Como será a sensação? Como será a sensação do frio metal deslizando por entre sua pele, sua carne, seus ossos. Estalando em um banho de sangue quente? Como será o gosto de engasgar com seus próprios fluídos? Como deve ser o último segundo, o último instante?
A silhueta dá um passo para frente, e volta a parar.
Por que tão devagar? Por que tão sádico?
Estica o braço lentamente…
Prendo a respiração. Não quero morrer, não assim, não assim. Este foi um mundo que há muito larguei. Agora eu estava com ela, e tudo estava certo, tudo estava certo. Eu só queria tocá-la mais uma vez, dizer que a amava, dizer que sentiria saudades. 
…E acendeu a luz.
E lá estava ela, parada, na soleira de minha porta. Sorrindo com seus olhos caramelos, segurando na mão um par de alianças.
Foi quando percebi que minha vocação não era o terror. Não.
Minha vocação é o amor.

- Dedos Azuis

sábado, 8 de junho de 2013

Toluene

O pequeno bonsai sobre a escrivaninha continuava me encarando.

Pedi para ele parar, pedi para ele parar. Ele não parou. Ele sabia o que eu tinha feito.

Mesmo limpas, minhas mãos estavam incrustadas com sangue seco, sangue inocente.

Toda uma vida que deveria ser, e não foi. Não para mim, mas para a pequena criança.

Não foi minha culpa, não foi. Ela permanecia ali, encarando-me, não tive alternativas.

Agora a sombra fria da noite penetra pelo meu quarto, refletindo nas paredes brancas todos os pecados de uma pobre criatura vil. Mas ele ainda está ali, parado, me encarando. Robusto em sua forma grotesca, retorcida. Um juiz imponente.

Empurrei a cadeira para trás, levantei e caminhei até a janela. Minhas mãos suavam, o ar tornava-se rarefeito. Andei de volta para a escrivaninha, peguei alguma coisa para me distrair.

As luzes estavam apagadas, como que parar manter o segredo que elas juraram não contar. Mas a noite fria revelava tudo a todos, e meu bonsai sabia. Ele sabia.

Abri a pia do banheiro com um forte tranco, afundando minha cabeça na gélida corrente que por ela transcendia. Afundo meus problemas na gélida corrente que por ela transcendia. Mas afundar não é afogar. Eles ainda estavam ali, ainda estavam ali.

Na escrivaninha, o bonsai me fitava. Se recusava a trocar palavras, apenas olhares.

Meu coração ameaçava sair pela minha boca, titubeando ferozmente por um peito agora fraco. Não tinha mais forças, não tinha mais forças. Quando eles viessem, eu não poderia fazer nada.

Eles não virão, eles não virão, eles não virão.

Eles vieram.

A sirene tocou alta na rua torta que cruzava a passagem de minha casa. Meu quarto foi invadido por luzes azuis e vermelhas, rajadas furiosas que mordiscavam todo o meu corpo em busca de indícios de fraqueza.

Joguei me ao chão, gritando, e me rastejei para baixo da cama.

A polícia gritava no portão, mas não havia ninguém em casa, não havia ninguém em casa.

Ah menos que…

Olhei para o bonsai; ele estava prestes a gritar, a chamar pelos policiais, me denunciar. Ele iria acabar com a minha vida.

Me joguei para cima dele, insanamente. Com braços machucados, lutamos no chão. Rolamos por entre poeira e roupas, seringas e sangue. Nos debatíamos, esganiçávamos, mas sem emitirmos o menor som.

Bati em seu pequeno rosto com o cotovelo. Coloquei os joelhos em seu pequeno peito. A faca que estava sobre a escrivaninha, agora deslizava por sua fina garganta. Tudo isso se passou em milésimos de segundo.

 Agora a polícia entrava em minha casa, e eu sabia que tinha de fugir. Mas não sem antes limpar as mãos, limpar as marcas.

O pequeno bonsai sobre a escrivaninha continuava me encarando.

- Dedos Azuis

Teoria da Desevolução

O isqueiro chiou com a áspera tração. A fumaça que subia do pequeno papel queimado seguiu direto para seus cabelos internos, mesclou-se com os cabelos externos, e coloriu a atmosfera com as cores de Jah.

Inspirou o crepúsculo e tragou uma pontada do sol. Olhou para o infinito e contou a ele que sempre fora seu amor platônico.  Riu ao lembrar de sua infância, e chorou ao lembrar de seus fracassos.

Ah, maldito tempo fugaz! Teorias de Carpe Diem e poetas bucólicos do arcadismo; todos à merda com suas teorias absolutamente certas. Seu único erro foi amar o espelho, que violentamente abandonou-a com o passar dos anos. Maldito amor de um minuto. Previsível fim.

Soltou mais uma onda de fumaça, e aproveitou cada milésimo de segundo enquanto uma gota de lágrima escorria-lhe pela face; a transbordação do líquido quente, a sensação de perda, o escorrer pelos poros que, eriçados, se fecham em seguida, o rastro esfriando e secando na fria pele.

Toda uma vida amando seu próprio reflexo, para terminar assim. A garota mais popular, o sorriso mais belo. Os olhos mais encantadores, a pele mais lisa. Os cabelos mais lisos, a mente mais vazia.

E agora, vinte anos depois do acidente, mal lacrimejava pelo que ocorreu. Era um espelho de mármore. Um coração insensível, não emotivo, indiferente.

Talvez, durante estes vinte anos, uma ou outra lágrima. Como hoje, enquanto fumava. Mas só pelo efeito das drogas.

Afinal, ela perdeu tudo naquele dia. Porém seu tudo se limitava exclusivamente a sua aparência física.

Enquanto as chamas consumia as paredes de sua casa em labaredas vinda do próprio inferno, ela percorria insanamente os corredores em busca de salvação. O ar escasso, a fumaça preenchendo seus pulmões. O corpo queimado, o sangue que escorria por suas mãos.

A notícia de seu filho e seu marido morto. Uma crise momentânea. Uma única crise de choro e negação, até o momento em que se olhou no espelho.

Não existia mais filho nem marido. Não existia mais Charles nem Adam.  Existia apenas o seu mundo egocêntrico, um orgulho rasgado, e um rosto queimado.

Humanos, Darwin, e uma teoria mal compreendida.

- Dedos Azuis

terça-feira, 4 de junho de 2013

Linhas da Vida

Escrevi até ver meus dedos desgastarem.

Rimei, cantei. Apontei meu lápis e atirei inúmeras folhas ao chão.

Tentei forçar uma inspiração que não existia, e extrair de minha alma um ultimo suspiro verdadeiro.

Rimas não havia, muito menos harmonia.

Foram infinitas linhas de puro sacrilégio.

Infinitas linhas pensando no que te agradaria, mas nada sincero.

Infinitas linhas ignorando o coração.

Infinitas linhas secando lágrimas, ao invés de deixá-las livres.

Infinitas linhas sendo todos, menos eu.

Fora-se todo o meu caderno, não havia mais folhas nem linhas. Nem infinitas linhas.

Do lado do lixo vejo um pequeno pedaço em branco; um minúsculo pedaço de inspiração,

E escrevo meu verdadeiro poema: “eu amo você”

- Dedos Azuis

Notas e Traços de uma Vida

Ela já esteve com ele, mas agora esta com o outro.

E agora tudo está bem, tudo está correto. O coração não pulsa dislexo como antes, disforme como já fora. É algo estável, algo concreto. Algo bom.

Mas existe um abismo tão grande entre o bom e o destino. Entre um roqueiro e um ilustrador.

Com o roqueiro, a vida é contínua, alegre, engraçada. Mas só o ilustrador tem o lápis certo para cada momento, a cor que seu coração deseja para aquele milésimo de segundo.

O roqueiro fará da sua vida um festival de Indy Rock. O ilustrador te pegará pela mão e dançará uma valsa sem melodia, sem som. Uma dança descompassada, porém única.

O roqueiro tem aquele sorriso brilhante, fofo, que cativas mesmo o mais insensível coração. Mas o que ela sempre quis foi um sorriso torto, de um ilustrador cafajeste. Um sorriso de um minuto. Um amor de um minuto. Como o amor de um ilustrador.

Como é possível amar alguém que nos faz chorar? Isto nem ilustrador nem roqueiro saberá responder.

Se devemos amar ao próximo, o amor é uma opção. Então por que não escolher o melhor?

O ilustrador nunca vai ser o melhor para ela. Ele é apenas o que ela precisa.

Mas o roqueiro é a base, a estrutura, o conforto da segurança. É saber que o amanhã andará como deves andar, meticulosamente registrado, detalhadamente construído. O roqueiro verá a vida como a sifra de uma música.

O ilustrador… Ah, o ilustrador. Este é um caso perdido, convenhamos. Discorre por momentos incertos, dias aleatórios, fatos únicos e jamais imaginados. Todos os planos se resumem a felicidade, e seus adornos são improvisos momentâneos. O ilustrador vive a vida como um desenho sem esboço, com erros de nanquim, traços sobre traços, linhas incertas, riscos sem nexos.

E como um coração escolherá o ilustrador? Como, por razão ou emoção, alguém escolherá o ilustrador?

- ninguém nunca amará o ilustrador – disse o ilustrador.

Mal sabia ele que a roqueira o amaria. Mas ele nunca vai ser o melhor para ela. Ele é apenas o que ela precisa.

- Dedos Azuis

domingo, 2 de junho de 2013

A Poesia do Negócio

Tão poético esta vida
Que em uma noite escura fria
O sangue da bela escorre
Enquanto palavra de sangue discorre
Ela ali, eu acolá
Escrevendo com uma pena afogada em sangue
Seu corpo distendido no sofá
Eu ereto batucando na cadeira de mangue
Seu pescoço, orifícios sorridentes
Minha boca, poços incandescentes 
E a bela prostituta morta
Enquanto as notas voavam sem volta
Levantei, arrastando a pesada cadeira
Deixando para trás a poesia e a carteira
E também uma bela adormecida, ciente
Que teve o azar de um vampiro cliente
- Dedos Azuis

Dança da Vida

As nuvens lentamente se deslocavam para seus lares, permitindo assim, que a noite avançasse impiedosamente. 
A quanto tempo permanecia estático, jamais saberia dizer-lhe. Minutos, horas, dias. Mesmo o eterno pareceria um tempo incerto.
Baixei a cabeça, pousando meus olhos no nada, e voltei meu corpo para trás, refazendo o caminho que por meio de passos arrastados me trouxera até ali. Mas parei, atento ao pequeno som que começava a se propagar das estrelas que surgiam.
“Cause with your hand in my hand”
Voltei-me para minha origem, olhando, curioso. Buscando algum vestígio concreto, físico. Alguma explicação plausível para a nossa música começar a tocar na hora de minha partida.
“And a pocket full of soul”
Mas a emoção abalou-me de tal modo, que fora impossível persistir em um caminho errante. Agi da única maneira que poderia agir; afastei as pernas ligeiramente, um braço curvado em noventa graus à minha frente, o outro contornando uma cintura imaginária.
“I can tell you there’s no place we couldn’t go”
E comecei a dançar uma valsa solitária. Um início lento, cuidadoso, meticuloso. Com passos planejados, movimentos mecânicos.
“Just put your hand on the past”
Deslizei para o lado, intensificando os movimentos. Um passo para lá, uma abertura para cá. E começou a fluir toda uma energia antes reprimida.
“I’m here tryin’ to pull you through”
A música ficou ligeiramente mais alta, ganhando vida, ganhando cores. Todo o ambiente estava preenchido pela sua voz, pela sua risada, sua gargalhada. Rodopiávamos no ar, juntos, entrelaçados. Movimentos floreados, ensaiados. Em uma bela curva, sinto o suave toque de seus cachos morenos acariciando meu rosto. Seu perfume abrindo espaço por entre as flores, tornando-se absoluto e puro.
“You just gotta be strong”
Apertei sua mão e puxei-a de volta, adornando-a com um terno abraço. Um sorriso audacioso forçou as rugas de minha boca, abrindo uma singela curvatura. Tornamos novamente uma abertura, um giro floreado, um ávido movimento, e na volta…

Fui arremessado ao chão. 
Quem teria tamanha audácia para profanar tal puro momento? Um sacrilégio meu pé ter sido puxado por dito monstro que renega todos os aspectos do amor para seu bel prazer. 
Olhei para meu agressor, para descobrir que era meu carrasco.
Meu antigo pesadelo que, não mais esquecido, voltou a tapear-me a face.

Olhei para a lápide de mármore branco a minha frente. Adornado em sua pedra, com letras que você teria amado há tempos atrás, seu nome no epitáfio.

“Cause I don’t wanna lose you now”

- Dedos Azuis

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Viver

Lá estava novamente, o velho e seu espelho.
Um espelho mágico, porém. Um espelho que refletia uma vida de 47 anos atrás.
E ele se perguntava; onde foi parar toda aquela cor?
Para onde aquele turbilhão, antes chamado de vida, se escondeu para dar espaço a um monótono tique taque de um velho relógio, que sem permissão tornou-se o mestre do tempo. Risadas, agora ecos abafados de ponteiros desgastados.
Para onde foram os seus amigos? 
As pessoas que riam e cantavam ao seu lado. Aqueles que para sempre juraram estar. Onde estava o André, o Guilherme? Bruno ou Pedro? Qualquer Rafael serviria, qualquer braço estendido para um abraço. Qualquer sorriso. Aqueles que por anos estiveram, não estavam mais.
Agora o velho olhava para o lado, e preenchendo o ambiente, apenas música. Músicas e uma solitária lágrima. Solitária como o velho descolorido.
E por fim o amor. Sem dúvidas, esta fora a pior parte da fotografia.
Foram tantos amores, e tantos amores em potencias. Para o velho, antes jovem, era só aceitar. Apenas deixar ser amado, para ser amado. Tantas pessoas que cederam seu coração em busca de apenas um singelo fragmento de amor. 
Porém, para o antigo jovem, a vida se resumia em uma esplendida festa. Cada dia era alguém diferente. Cada dia uma nova boca, um novo sorriso, um novo coração apaixonado. E ah, como era delicioso esta época, como era gratificante, sentir em sua mão o que apenas um par de olhos azuis eram capaz de realizar. 
Lágrimas brotaram dos mesmos olhos azuis quando lembrou-se de seu primeiro amor. De sua primeira namorada. Tentou sorrir, mas as rugas não permitiram. Lembrou do fim, belo e incerto. Chorou mais ao lembrar de garotas que cederam tudo por ele, e que não fora concedido em troca nem mesmo agradecimentos banais.
O velho olhou pela janela, respirando a suave brisa que lhe acariciava o rosto, e permitiu-se sentir as lágrimas esfriando em suas bochechas ressecadas.
E assim por muito continuou, sentado, o velho e seu espelho mágico.
E assim, por muito continuei, sentado, olhando para aquele pequeno porta retrato, naquele solitário quarto do Residencial Recanto Feliz.
E permaneci naquela posição, aproveitando a brisa, um último toque terno, para sempre.
- Dedos Azuis

Heinz

Quando Charles nasceu foi uma bela tristeza.
Uma engraçada tragédia, e também uma irônica Catarse.
Sua mãe se desfez em lágrimas de gasolina, enquanto seu pai esmurrou a parede até seus dedos ficarem azuis.
Charles, ó triste Charles, havia nascido com um rubro vermelho tomate no lugar de seu rosto. Isso mesmo, um tomate. 
Não havia nariz nem boca, só uma lustrosa leguminosa.
Seus pais tentaram, por um ou dois anos. Tentaram ensinar Charles  a ler, a desenhar. Tentaram fazer Charles escrever poesias, ser bom nos esportes, ser inteligente. Tentaram fazer o menino de dois anos aprender a tocar violino. Tentaram ensinar Charles a voar.
Mas Charles não conseguia fazer seus pais orgulhosos.
O fim chega para todos. Para Charles chegou em seus quatro anos.
Cansado de tentar, cansado de frustar seus bastardos fraternos, Chales fez a única coisa útil que estava ao alcance de suas pequenas mãos rosadas.
Charles fez, para seus pais, um pote de molho de Tomate.
- Dedos Azuis
(Nota do Autor: As vezes, cobramos tanto de pessoas que não enxergamos que nossos pedidos, muitas vezes, são inalcançáveis. Não apenas pelas próprias limitações pessoais dos indivíduos, mas por atividades extraordinárias. A cabeça de tomate de Charles nunca atrapalhou nenhuma de suas atividades, só o simples fato de seus pais almejarem realizações fora do patamar de uma criança de 2 anos. Mas ninguém enxerga isso, nem mesmo o próprio Charles.
Somos cegados por nossas limitações, quando na verdade, deveríamos estar olhando para nosso potencial.)

domingo, 26 de maio de 2013

Libertar

O galho pendia com o peso de Carina.
Enquanto a corda abraçava seu pescoço, ela sorria para mim.
Seu corpo dançava no ar há algum tempo, naquele velho salgueiro,
indo e vindo. Uma valsa macabra.
Nossos olhos se encontraram. Ou eu encontrei o branco que preenchia
os olhos antes verdes de Carina.
- Quero ficar com você - ela me disse.
Sorri, e uma lágrima de gasolina escorreu de meus olhos azuis. 
Também quero ficar com você, quis dizer.
Compensei meu peso de um pé ao outro, indo e vindo.
E Carina pendurada na árvore, indo e vindo.
- Largue disso, abra mão! Me beije - ela me disse.
Estalei meus dedos azuis, prensando-os em busca de inspiração.
Olhei para Carina. Eu te amo, quis dizer.
- Corra, e ambos seremos livres! - ela gritou, enforcada no salgueiro.
Meus olhos tremeluziram em pânico e dúvida, e eu corri.
Corri.
Corri para Carina, e ambos fomos livres.
- Dedos Azuis

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Muriel


Olhei para Muriel e sorri.
- Espera eu abrir a porta, aí você aperta o botão, ok?
- Sim! - E assim foi. Escancarei a pesada porta corta-fogo da escada de incêndio enquanto ela fechava o elevador. Uma pequena corrida.
Descia ofegante por aquela incansável espiral de cimento. As paredes amareladas me perseguiam„ rodando, rodando, rindo.
5º Andar, indicava a placa verde. Minha mão escorrendo pelo corre-mão enferrujado, as paredes amarelas atrás de mim.
4º Andar. O ambiente começou a ficar monocromático, os degraus eram menores.
3º Andar. Corria cada vez mais rápido, em uma espiral infinita. Minha visão escureceu. Flashs. Uma parede amarela e um corre-mão enferrujado.
Toc, Toc. Passos atrás de mim. Sorri, devia ser Muriel tentando me alcançar.
2º Andar. Aspirais infinitas preenchiam as amareladas paredes. Minha visão escureceu novamente. Devia ter ido de elevador. Estava ficando zonzo.
Subsolo. Droga! Passei o primeiro andar e nem me dei conta! Parei, ofegante, e subi correndo. Subi um lance. Depois dois, depois três, porém não havia plaquinha alguma. nem de 1º, nem de 2º andar. Nem porta, só aspirais amareladas e paredes enferrujadas.
Desci correndo, procurando insanamente a placa de subsolo, mas não havia nada. Só corre-mãos amarelados e paredes em aspirais.
Continuei descendo, insanamente. Desci, desci, desci. Por fim, a luz de emergência estourou acima de mim, abraçando-me com um colossal escuro sombrio.
- Muriel, é você?
- Não, não é a Muriel.
- Dedos Azuis

13 090 610


Você pode enviar-me um desenho.
Me escondia em meio as crateras. Mas qual a graça de um
esconde-esconde solitário?
No ar, alcançava as mais incríveis façanhas, as mais lindas piruetas.
Mas qual a beleza em não ser observado?
Corria, sorridente, por um solo tão branco quanto o sorriso de Deus, 
rumo ao encontro de meu amor. Mas como continuar quando não
há um amor?
Lembrava-me de uma antiga piada e sorria. Mas não havia ao meu lado
ninguém para sorrir comigo.
Não havia nem um amigo. Nem sete bilhões.
Não havia rosas nem raposas, gordos ou magros, Harrys nem Ronys.
Pode parecer, mas nem sempre é divertido morar na lua,
Se você quiser, você pode enviar-me um desenho
- Dedos Azuis

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Nem Orgulho e Nem Arrogância


O seu superior massacra o resto.

Onde está a felicidade? Em lugar algum.

Onde está a glória? Em lugar algum.

Onde está o apoio, o entusiasmo?

O Orgulho massacra de tal forma o bem que os outros tentam

te fazer, que tudo perde a cor, tudo perde o sentido.

Nem ao menos derrube essas suas falsas lágrimas.

O Orgulho mordisca por todos os lados O Arrogante.

Surge a competição, entre orgulho e arrogância, entre arrogância e orgulho.

Como se livrar de tamanho irracional confronto, se nem mesmo o

Arrogante sabe se diferenciar do Orgulhoso?

O que é orgulho, o que é arrogância?

O que é certo?

Nada é certo. Nada absoluto. Não existe Orgulho, nem Arrogância.

Existem apenas pedidos de desculpas.

- Dedos Arrogantes Azuis

domingo, 19 de maio de 2013

Necrofilía


Nunca havia reparado naquela garota antes; O rosto

virado para o outro lado, as mãos cruzadas no colo. As pernas

a mostra por debaixo da saia. Vi o ônibus 3.85 e estiquei o braço.

No dia seguinte lá estava ela de novo. Sentei ao seu lado.

Dirigia-lhe olhares furtivos, mas não abri a boca. Seu rosto

permaneceu fitando o oposto, e lá veio o 3.85.

No ônibus comecei a refletir. Como passamos horas, dias, anos

próximos a pessoas que nem mesmo dignamos um ‘bom dia’?

Como nos sujeitamos a viver em casulos sociais e rejeitar tudo

aquilo que é novo? Será que isto incube a noção de um tal de

‘Belo Incerto’? Era simples, tão simples. É simples.

Um ‘bom dia’ de vez em quando. Um ‘como você está?’ em uma

preguiçosa manhã. Simples.

No dia seguinte iria conversar com a garota.

Ela estava lá, sentada com o rosto virado para o outro lado.

As mãos cruzadas sobre o colo. Sentei ao seu lado.

- Bom dia!

Esperei, sorrindo. Não houve resposta.

Toquei seu ombro. Sua cabeça pendeu para trás, revelando o

branco que totalizara seus olhos.

Ela estava morta. Morta.

Há dias, apenas parada, esperando o ônibus certo vir buscá-la.

Sorri.

- Como você está?

- Dedos Azuis

Cíclico


Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco, se estendia

em uma gigantesca cobra, ondulando sem parar. Enquanto eu corria,

as criaturas transitavam de um lado para outro. As cabeças de animais

pendendo dos corpos pálidos.

Patos e Porcos. Cães e Cabras. Macacos e Mamões. Cabeças que

terminavam em camisetas e shorts brancos. E corriam para todos os

lados, grunhindo e zumbindo.

Aquele corredor comprido e claro. Tremia como um gigantesco celular

vibrando. Pessoas com feições animalescas caminhavam ao meu lado.

Por cima das camisetas e shorts branco, pessoas com orelhas de

macaco e bocas de pato, com nariz de cachorro e olhos de cobra.

Aquele corredor iluminado. As luzes brancas piscavam. Ao meu lado

caminhava meus colegas internos. Com suas roupas de manicômio,

até pareciam animais.

O enfermeiro trouxe o pequeno copo transparente com as duas

pílulas avermelhadas dentro. Tristemente tomei o seu conteúdo.





Aquele corredor infinito e branco, e infinitamente branco…



- Dedos Azuis

Origamis


A  primeira gota tocou minha testa. Articulei minha boca com voracidade e chinguei.

Mas, ao invés de preocupar-me com os pingos em cima de mim, olhei para frente. Porém, sabemos que quando olhamos para um horizonte chuvoso, vemos uma chuva acumulada de nosso ponto de partida até o objeto focal, e não a real quantidade de chuva.

O pouco, de repente tornou-se excessivo, mesmo sendo pouco. Ao parar de me importar com o momentâneo e viver a longo prazo, toda a chuva do mundo caiu sobre mim.

E o mesmo se aplica aos problemas; acreditamos que estamos sendo sufocados quando temos pequenos empecílios, pois não vivemos os problemas do presente. Vivemos os problemas que já aconteceram, que acontecem, e que vão acontecer. Vemos a chuva pelo horizonte, e simplesmente esquecemos de olhar para cima.

Se bem que… A chuva é um horizonte de problemas quando você é um homem feito de papel…

- Dedos Azuis

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Cold Clown


Ela olhou para mim com a típica sombra de dúvida marcando seu jovem
rosto, e me perguntou o que vivia em minha cabeça.
Perguntou-me porque o suicídio. Perguntou-me porque o terror.
Estiquei meus dedos azuis e toqueis sua testa.
Ela escancarou a boca, atônica. Seus olhos tornaram-se cinzas, e aos 
poucos ela desapareceu.
Sorri, e por cima de meus lábios curvados, uma lágrima escorreu.
Uma lágrima de gasolina.
- Dedos Azuis

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Subindo


Entrei no elevador. O jovem senhor jazia com o braço estendido, segurando a porta aberta.

- Estou esperando um amigo – Explicou-me. Assenti com a cabeça e sorri.

Ele recolheu o braço e me fitou. Abriu um amarelado sorriso.

- Olá, amigo.

Continuou me fitando. Sorri de volta.

- Qual andar, amigo?

-Quarto, por favor.

Ele fez um lento movimento e apertou o botão do vigésimo andar. Voltou o olhar para mim e sorriu com entusiasmo.  Sorri também.

A música do fundo preenchia o ambiente.

- Esta ouvindo este tic-tac? – Perguntou-me.

Foi quando percebi que sua panturrilha esquerda recheava a calça de maneira disforme do convencional. Olhei para ele. Sorri, e acrescentei:

- Está frio, não é mesmo?

- Por enquanto, por enquanto.

Trocamos olhares e sorrisos. Típicas conversas de elevadores.

- Dedos Azuis

Desenhos


Deslizei o lápis 2B lentamente pela folha, fazendo malabarismos

com grafite. O brilho translúcido da lua invadia meu quarto pela

janela que jazia aberta. E em frente a janela, a outra casa.

Aquela casa; escura, velha, triste. Sem vida. Uma casa vazia,

escura, velha, triste. E vazia.

Apoiei o lápis sobre o papel e olhei para a casa.

Na janela, uma criança pálida me encarava. As feições distorcidas,

a boca escancarada em um grito infernal, as órbitas negras, vazias.

Vazia que nem a casa, só que não mais.

No dia seguinte, tentei terminar meu desenho. Mas algo me

assombrava, algo me perseguia. Algo obsessor começou a

apoderar-se de mim.

Olhei para a casa, mas fui surpreendido quando minha visão fora

cortada previamente. A criança pálida agora me observava de minha

janela. Sua boca, suas órbitas, sempre um resumo de uma galáxia

infinitamente negra. E ali estava ela. Parada, na janela.

Ainda continuava o desenho no terceiro dia. O ambiente estava gelado.

Não havia como respirar de tão denso. A criança esperava em pé

logo atrás de minha cadeira, sugando meus resquícios de felicidade.

No quarto dia ela não estava na casa, nem na janela. Não estava

no meu quarto.



Ela estava dentro de mim.



O desenho estava pronto.

- Dedos Azuis

terça-feira, 14 de maio de 2013

Escolher

A luz amarelada ofuscava minha vista. Tão forte, mas tão fraca, a pequena lâmpada balançava de um lado para o outro, no fino fio que a prendia ao teto de madeira.

Tentei acalmar minha respiração. Minhas costelas estavam marcando até mesmo minha suja camiseta. Resultado de quatro dias sem comer. Minha boca sangrava, minha pele estava ressecada. Resultado de quatro dias sem água. Minhas roupas estavam amassadas, rasgadas, suadas. Resultado de quatro dias sem tomar banho, sem trocar de roupa.

As tábuas de madeira do piso, as tábuas de madeira do teto; todas apontando e rindo de minha situação, de minha angústia.

Há quatro dias meu poder aflorou. Foi a primeira vez. 

Me tranquei no sotão desde então. Não sairía, não sairía. Não por enquanto

“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, disse uma vez o tio de um colega meu.

Como, então, sair do sotão sem saber se voltarei meus poderes para o bem ou para o mal? Como sair sem saber? Onde esta, então, a responsabilidade de meus poderes? Preciso decidir, preciso decidir. Bem ou Mal?

Eu não sou totalmente Mau. Não, não sou. Mas estou longe de ser Bom.

Por um lado tem o bem. Proativo, bondoso, acolhedor. Viver de maneira simples para dar o conforto ao próximo. Por outro existe o mal. Egoísta, egocêntrico, conquistador. Viver de maneira esbanjadora, infinitas riquezas, infinitos falsos amigos.

Existe céu, inferno. Anjos, demônios. Bem, mal. Agora só me resta escolher o que ser.

Escolhi ser um pato.

- Dedos Azuis