A partir de determinado momento, alguns indivíduos estão fadados à não ter destino e até mesmo a condição de não se ter destino é obra do mesmo. A liberdade é a ilusão de quem a sente e o mártir de quem a desconhece.
- "Eu não sou ninguém!" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - "Sou um qualquer!" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.
O motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.
- "Isso foi incrível!" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.
O ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.
O homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:
- "Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - "E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.
Os dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.
"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.
Sentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.
Por um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.
As arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.
Eram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.
Rodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.
Continua
Anterior
-Lágrimas de Gasolina
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 1 de setembro de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #8 - Projeções
Por que as coisas devem se limitar ao que são?
Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho
A realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.
Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Fútil Realidade #5
Hoje eu acordei sem um beijo de bom dia.
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.
Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?
Fim
- Dedos Azuis
O quarto estava abafado demais, a luz que entrava pelos estreitos feixes da janela estava forte demais. O silêncio era onipresente demais.
Não que a casa fosse barulhenta por rotina. Certamente não era, já que meus pais quase não mais conversavam. Mas hoje nem mesmo da rua propagavam-se sons, só um fraco ronco eletrônico.
Desci da cama quente para sentir o gélido piso agredir a sola de meus pés desprotegidos. Com passos aveludados, caminhei até a porta do quarto e a abri. O rangido grave lembrava-me dos raros gritos que meus pais trocavam entre eles; ríspidos, monossilábicos, agressivos. Sem traços de amor.
Caminhei pelo curto corredor até a cozinha, mas tenho que confessar; hoje ele parecia infinitamente mais comprido. Quando atravessei o batente, a luz do sol que entrava pela janela tornou-se tênue e opaca, deixando os eletrodomésticos e móveis criarem sombras agourentas e assustadoras.
A temperatura caiu absurdamente, e uma enorme adaga imaginária atravessou a boca de meu estômago. Não sei por que dizem borboletas. Não lembro de borboletas parecerem com um tornado catastrófico, varrendo tudo e todos pelo caminho.
E lá no centro da cozinha, tornando o branco piso de mármore em um carmesim aveludado, estava o corpo de minha mãe. Flácido, derretido no chão, como se seu corpo tentasse abraçar um sentimento que já não mais existia há muito tempo. Sua boca estava posicionada em um formato agonizante, enquanto uma segunda boca sorria em sua garganta.
Na cômoda da cozinha, um bilhete abandonado escrito pela metade:
“ Lucas, meu amor,
Você foi o melhor presente que Deus me deu, você me deu forças e me mostrou um maravilhoso mundo. Mas, infelizmente, mundos maravilhosos são efêmeros. Eu e seu pai não nos amamos mais há algum tempo, e tentamos nos manter unidos para sua felicidade. Infelizmente, eu não sou forte o suficiente, não sou forte como acreditei que era, e por isso vou m... ”
Gritei por meu pai.
Corri desesperado até seu quarto, poucos metros da cozinha, muitos metros do quarto de minha mãe.
O barulho frágil de um ventilador velho indicava que o aparelho estava ligado. Era um som estranho, fraco e forte, vivo e morto. Era um ronco despretensioso e conquistador, era o extremo do antagônico.
Quando entrei no quarto, gritei horrorizado ao ver seu corpo balançando junto com o ventilador. A gravata enrolada na haste de ferro do aparelho. Sem nada no estômago para vomitar, cuspi bile em fracos esguichos.
Deixei meu corpo cair, ajoelhando em cima do vomito e gritando em desespero. O som do ventilador conseguia ser ainda mais forte.
Em um surto de irritação, agitação, desespero, medo e agonia, corri até o meu quarto e comecei a arrumar minha mochila. Coloquei roupas, brinquedos, meu smartphone. Precisava sair dali o quanto antes.
Mas, para onde ir? O que fazer? Quem procurar? Eu não tenho avós e nem tios próximos, e se ficar aqui, o melhor que pode acontecer-me é ir para um orfanato. Gritei e soquei a parede, deixando o catarro arranhar minha garganta e esguichar na madeira velha.
Eu iria para a escola, eu precisava ir, eu preciso sair daqui. Não tem nada para mim aqui. Preciso sair daqui. Preciso de algo, alguma razão. Meu pai matou minha mãe e se matou em sequência. Mas que droga! Preciso sair daqui. Preciso de alguém, de alguma Brígida em minha vida. Troquei o pijama, joguei a mochila nas costas e sai correndo. Antes de sair de casa, entretanto, fui até a geladeira e peguei um pote de açaí com banana.
Afinal, quem pode realmente prever quando uma família começa ou acaba?
Fim
- Dedos Azuis
O Ônibus 3.85 #6 - Início
Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?
Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O Ônibus 3.85 #5 - Infinitos Vazios
As faces contorceram-se. Os que não estavam encarando as ações de Dante, agora estavam.
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
segunda-feira, 27 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #4 - A Graciosa e a Cheia de Graça
O sinal para o intervalo soou, ouviram-se alguns gritares e assovios. As crianças levantaram-se das cadeiras, deixando o professor que implorava por atenção.
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.
Continua
Anterior
-Lágrimas de Gasolina
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.
Continua
Anterior
-Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 22 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #3 - O Duradouro
- "Por quê?"
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 21 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro
Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.
Continua
Anterior
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 2 de julho de 2015
Tuberculose
Era o refrão.
- I'm lost without you, can't help myself, how does it feel, to know that I love you baby!
E o 3.85 passou, como um falcão, enquanto abstraia-me em meio ao vocal de Robin Thicke.
Frio, noite, sozinho. E agora sem transporte. As moedas avulsas tilintavam em meu bolso, enfatizando o fato de que, tirando os R$ 3,50, eu não tinha mais nenhum centavo.
Sem dinheiro para um taxi, sem amigos para uma carona. Neste horário, o próximo 3.85 passaria só daqui há duas horas. Meu celular apitou, sussurrando o fim, e ao som de clarinetes minha bateria despediu-se. Sem comunicação.
Em uma hora e meia eu estaria em casa, se decidisse caminhar. Xingando o sádico destino, o frio insuportável, a bateria efêmera, o dinheiro escasso e a solidão de morar em uma cidade em que você não conhece praticamente ninguém, levantei e comecei minha jornada.
A cada passo, repreendia-me mais intensamente, pela falta de atenção. Odiava-me ao ponto de começar a traçar em minha mente soluções incrivelmente ruins para o meu problema. Eu poderia voltar para o ponto de ônibus, e esperar. Talvez tirar um cochilo... e provavelmente ser assaltado. Talvez pegar um taxi, e quando estiver chegando perto pular do carro em movimento... correndo risco de quebrar grande parte dos ossos de meu corpo, além de uma bela surra do taxista. Talvez roubar um carro...
Neste segundo, um suspiro metálico soprou de forma deprimente ao meu lado. Torcendo o pescoço, deparei-me com a lataria verde e branca coberta por ferrugem, os faróis ridiculamente luminosos e as portas escancaradas. O 3.85 estava estacionado ao meu lado, em uma rua que fugia drasticamente do seu destino, em um horário que ele não deveria estar lá, apenas esperando.
Sorri e subi no ônibus.
O motorista entrou em uma tosse frenética, escondendo o rosto no canto esquerdo de seu corpo. Sinalizou com o polegar para que eu me dirigisse para o fundo. Não tinha cobrador, então não fiz nenhum movimento para pegar os R$ 3,50 em meu bolso. Nunca se sabe o dia de amanhã.
Caminhei até o último banco e sentei, com um suspiro de satisfação. Logo estaria em casa.
Porém, como se lendo meu pensamento e resolvendo contrariar-me, o motorista simplesmente levantou e saiu pela porta de embarque, deixando o motor ligado.
O cinto apertou-se contra meu peito com uma intensidade anormal (eu não lembrava de ter afivelado os cintos), tirando todo ar de meu pulmão. Tentei gritar, mas nenhuma voz saiu de minha garganta. As janelas estavam completamente embaçadas e opacas, o motor rugia com voracidade.
O tecido do banco projetou-se, penetrando em minha pele, enquanto eu me debatia enfaticamente. Aos poucos, começou a entrelaçar-se com meus músculos, e senti uma dor aguda, como se minha alma estivesse sendo arrancada de mim. Circulou minha cabeça e entrou em meus orifícios faciais, furando meu tímpano, destruindo meus olhos e adentrando por minha boca e nariz. Desmaiei com a dor.
Acordei com um pulo assustado.
Olhei para ambos os lados, assimilando o local. Ainda estava no ponto de ônibus. Maldição, havia sido a porra de um pesadelo.
Tentava regularizar meu coração acelerado quando o 3.85 virou a esquina. Sinalizei com o indicador.
Antes de subir a escada, notei a pintura descascando e a ferrugem exagerada. Maldita EMDEC e sua frota velha de ônibus.
Paguei os R$ 3,50 para o motorista e caminhei para os bancos do fundo. Logo que sentei, ouvi uma tosse doentia apoderar-se do motorista.
Era impressão minha ou ele estava vestido de palhaço?
- Dedos Azuis
quarta-feira, 1 de julho de 2015
O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha
Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"
Continua
- Lágrimas de Gasolina
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"
Continua
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 21 de maio de 2015
Fútil Realidade #4
A vida é irônica.
Até um certo aspecto, engraçada, mas esta ironia assume uma atmosfera bem sombria quando se presume a efemeridade do tempo.
Vidas eternas de pessoas eternas, que entre 365 possibilidades, encontraram seu fim em um cruzamento extremamente familiar e singular.
Há doze anos, eu e Brígida dirigimos até o cemitério nos dias 06 de Janeiro, para prestigiar nossa Mãe. Esta é a primeira vez que estamos vindo, no mesmo dia, para visitar ambos os pais.
O médico não soube explicar o motivo de Pai ter falecido, há um ano, mas acredito fortemente que o motivo de sua partida foi exatamente a falta de motivos para ficar. A garota de sua vida já não estava mais aqui, e seus filhos estavam casados e aninhados em um laço de amor absoluto.
Ele cuidou de muitos, e cuidou bem. Deixe que os céus cuidem dele agora.
Brígida entendeu, eu entendi. Foi menos doloroso que a morte de Mãe. Eles estavam juntos, amando-se sem censuras terrenas, sem podas, sem idade. Apenas um amor infinito e inabalável, o mesmo que há muitos anos gravaram em nossos ânimos.
Os túmulos estão lado a lado, e isso preenche meu coração com uma felicidade que não é possível transcrever em frágeis linhas. Brígida também está feliz. Muito feliz na verdade.
Voltamos para nossa casa. para nosso ninho. Perder alguém é doloroso, mas mais doloroso é afastar amantes eternos.
Vendemos nossa antiga casa e compramos uma nova, um pouco menor.
Recheamos com nossos gostos, nossos valores. Pintamos as paredes com tintas que representavam muito mais do que números em catálogos.
Éramos muito novos, nem tinhamos terminado nossas faculdades, mas foda-se os padrões que a sociedade impõe. Casamos novos, começamos a morar juntos novos e a vida não podia ser mais feliz.
Quando terminamos nossas faculdades, agarramos fortemente a ideia de nos tornarmos pais. Sempre fomos adepto, mas agora o tempo livre abriu espaço para este sonho.
Fizemos uma imensa lista de nomes, para meninos e para meninas, no mesmo dia em que Brígida parou de tomar seu anticoncepcional. Apesar da vergonha, preciso confessar: foram bem prazeirosas as tentativas.
No começo.
Com o tempo, começamos a ficar preocupados. Quatro meses, quatro menstruações. Brígida insistia em afirmar que era normal, que isso acontece, que em breve Lucas estaria a caminho. Mas eu sabia que tinha algo errado.
"Endometriose", foi a palavra mais forte que já ouvi. Pior do que "morte", é a anulação da vida, a proibição natural de conceber. Sentamos no chão frio do consultório. Enquanto ela chorava desolada, tentava selar meus braços ao seu redor. Minha camisa empapava-se em suas lágrimas, mas não compartilhei as minhas.
Não podia ser. Não com a gente. Era um amor tão puro, tão ridiculamente puro. Endometriose.
Quando ouvi essa palavra, tive medo de perder minha garota. Tive medo de perder a Brígida que eu conhecia, medo de que esta restrição fosse um baque mais forte do que ela poderia aguentar.
Estava enganado.
Ficamos sentados no chão por quase duas horas. Quando ela terminou de chorar, levantou-se, limpou seu rosto e me abraçou muito forte. Foi o abraço mais forte que já trocamos.
A sala do consultório estava bem amarelada por causa da luz artificial, mas os olhos de Brígida continuavam escuros como a lua.
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e encostou sua testa na minha.
- Você me ama, mesmo sabendo que não poderei engravidar?
- Você me ama, mesmo sabendo que eu preferi a trilogia do Hobbit ao invés de O Senhor dos Anéis?
Ela riu. Uma risada sincera. Fraca, porém sincera.
- Vamos enfrentar isto - eu disse.
- Te amo pra sempre.
Um ano depois, no dia 29 de abril, recebemos a ligação. Lucas estava a caminho. Havíamos conseguido a guarda de um maravilhoso menino de três anos.
Continua
sexta-feira, 15 de maio de 2015
Um passo à frente
Houdini era uma assassina, e disto eu já sabia desde o primeiro instante em que a vi.
Demasiadamente simpática, demasiadamente solicita. Sorriso demasiadamente branco e olhos demasiadamente verdes.
A calça jeans preta e a camisa slim de botões vinho surpreenderam-me, pois o prático vestido escuro com fenda lateral até a cintura fora substituido. Parecia confortável naquele traje. Parecia mais humana, menos divina.
E, apesar de todos meus instintos, provavelmente foi nesta humanidade em que apaixonei-me.
Como um ex assassino (não por contrato e nem por psicopatia, e sim pela simples beleza na arte de matar) reconhecer outros assassinos era tão simples como limpar uma faca.
Os ligeiros movimentos nos pequenos músculos faciais normalmente é o que entrega um assassino, e com Houdini fora basicamente da mesma forma. Mas ela era a composição tão perfeita entre divindade e humanidade, que precisei aborda-la naquela festa.
Ela achou que havia capturado sua presa, mas na verdade capturara um novo namorado.
Houdini era boa, mas não tão discreta, e sempre que voltava para casa após um assassinato, era claro como uma noite de verão que havia matado alguém. Mas como nunca conversamos disso, ela alegrava-se ao pensar que eu acreditava que era apenas uma administradora de empresa que chegava em casa tarde.
Entretanto, criei um fascínio tão grande nela com a obscuridade de meu passado nunca contado, que Houdini despertou em seu íntimo a insaciável vontade de me matar. Bom, insaciável e inalcançável, pois eu estava sempre a um passo à frente.
No jantar em que ela colocou cianeto de potássio em minha comida, tristemente deixou rastros do pó embaixo da unha, e com um simples "estou enjoado, vou deitar", escapei de forma gloriosa. Isto instigou-a ainda mais, e com o passar dos dias ela começou a tornar-se ansiosa, desesperada e de certa forma um pouco frenética. Certamente pensava em seu próximo passo, mas, apesar de tudo, eu sempre estaria um à frente.
Houdini comprou uma .9mm, e planejava pressionar o travesseiro contra o meu rosto e apertar o gatilho na noite seguinte, quando comprasse o cartucho necessário. Porém, fora traída quando sem querer disse, enquanto cochilava no sofá, "na gaveta do banheiro de hóspedes". Curioso, procurei e encontrei a pequena pistola lá.
No dia seguinte, quando minha namorada não encontrou a arma, teve um pequeno surto, mas não contou-me o motivo do stress. Chorou, gritou, mas em dez minutos tudo estava bem novamente.
Houdini teve outros movimentos, outras ideias, mas eu sempre estava um passo a frente. Tentou com faca pelas costas, linha de nylon em meu pescoço, uma martelada em minha nuca, e, até sendo menos original, tentou colocar um saco plástico na minha cabeça.
Mas, sério, gloriosamente estive sempre um passo à frente.
Até aquela sexta, obviamente.
Preparava dois deliciosos bifes Angus, enquanto Houdini assava batatas. Estávamos comemorando um ano de namoro. Ela estava tão feliz, tão radiante. Seu sorriso brilhava mais do que no dia em que a conheci.
As velas, o vinho, a janta. A perfeição reinou. Saiu por um instante para pegar algo para brindarmos.
Quando voltou, revelou em sua mão esquerda a prateada garrafa de espumante. Com um sorriso sarcástico, revelou a mão direita. Na ponta do dedo, uma fina calcinha preta balançava promiscuamente.
O sexo nunca fora tão bom. Dois corpos que tornaram-se um, pelo momento, pelo suor, pelo clímax.
Quando terminamos, a sensação de deleite permaneceu. Sua mão acariciando meu peito arrepiava cada milímetro de meu corpo. Minha respiração pesada estava voltando ao normal.
Delicadamente, Houdini levou sua mão ao centro de suas pernas, e após um instante, trouxe o dedo estendido aos meus lábios.
Percorreu toda periferia de meu lábio inferior, depois superior. Inseriu o dedo entre meus dentes semi-serrados e, antes que eu me desse conta, esfarelou uma pequena quantidade de pó em minha boca.
Assustado e perplexo, sentei, cuspindo violentamente o conteúdo. Houdini riu, uma gargalhada maravilhosa.
- É apenas Eno, seu bobo - olhou em meus olhos com aqueles maldito verde celestial - Não vai ser hoje, amor.
Mexendo a língua, assimilei o gosto; Eno. Olhei para ela, com um sorriso desconfiado.
Transamos mais três vezes naquela noite.
- Dedos Azuis
Até aquela sexta, obviamente.
Preparava dois deliciosos bifes Angus, enquanto Houdini assava batatas. Estávamos comemorando um ano de namoro. Ela estava tão feliz, tão radiante. Seu sorriso brilhava mais do que no dia em que a conheci.
As velas, o vinho, a janta. A perfeição reinou. Saiu por um instante para pegar algo para brindarmos.
Quando voltou, revelou em sua mão esquerda a prateada garrafa de espumante. Com um sorriso sarcástico, revelou a mão direita. Na ponta do dedo, uma fina calcinha preta balançava promiscuamente.
O sexo nunca fora tão bom. Dois corpos que tornaram-se um, pelo momento, pelo suor, pelo clímax.
Quando terminamos, a sensação de deleite permaneceu. Sua mão acariciando meu peito arrepiava cada milímetro de meu corpo. Minha respiração pesada estava voltando ao normal.
Delicadamente, Houdini levou sua mão ao centro de suas pernas, e após um instante, trouxe o dedo estendido aos meus lábios.
Percorreu toda periferia de meu lábio inferior, depois superior. Inseriu o dedo entre meus dentes semi-serrados e, antes que eu me desse conta, esfarelou uma pequena quantidade de pó em minha boca.
Assustado e perplexo, sentei, cuspindo violentamente o conteúdo. Houdini riu, uma gargalhada maravilhosa.
- É apenas Eno, seu bobo - olhou em meus olhos com aqueles maldito verde celestial - Não vai ser hoje, amor.
Mexendo a língua, assimilei o gosto; Eno. Olhei para ela, com um sorriso desconfiado.
Transamos mais três vezes naquela noite.
- Dedos Azuis
terça-feira, 12 de maio de 2015
Moscas
Largou a faca ensanguentada.
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".
- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso. A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" - cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.
- Lágrimas de Gasolina
- "Olha esse apanhado de moscas que eu recolhi no jardim" - narrou para si mesmo - "estavam sobrevoando a estátua de mármore do meu pai." - Parou por um momento - "Algumas ainda estavam no corpo sem vida de minha mãe".
- "Melhor levá-las para dentro, não quero perder parte da herança que me deixaram" - pensou enquanto subia as escadas. Se trancou em seu quarto e as soltou enquanto trancava as janelas.
Por um momento, um aroma familiar se misturou com o cheiro de sangue e podridão que adentrava pelas frestas da janela.
-"É o cheiro da torta que mamãe deixou no forno" - falei para as moscas - "Está quase pronta" - completou assistindo-as dançar pelos ares.
- "Adoro o som que as moscas fazem quando estão prestes a morrer de velhice." - pensou - "Sua asas ficam pesadas e quando batem, quebram qualquer silêncio ou tentativa de paz. Poderia observá-las pelo resto da minha vida."
Uma das moscas voou em direção à porta, zumbindo pelo caminho tortuoso que fazia, atingiu uma das quatro paredes e aterrissou no chão, estava morta. Se aproximou da pequena criatura e estendeu o dedo indicador na direção daquela casca sem vida, tocou suas perninhas e as balançou um pouco, imaginou o que aconteceria se esmagasse seu cadáver, o som que faria e o sabor que teria. A pressionou com uma pequena quantidade de força e as periferias de seu dedo se preencheram com o muco amarronzado da criatura.
Observou a face manchada de seu dedo indicador e o correu até os lábios, o raspando contra seus dentes como um fazendeiro que raspa o estrume seco das botas contra uma pedra encravada no solo. No primeiro movimento da mandíbula, sentiu um pequeno estalido, no segundo, a deliciosa amargura da morte que dominava seus sentidos, e no terceiro, um terrível som ecoou pelos corredores, um ruido ensurdecido pelas paredes de madeira, semelhante à uma chaleira.
Quando destrancou a porta, as moscas voaram por cima de seus ombros, se deu conta da semelhança entre o som agudo que ouvia e o grito de alguma criança ranhosa.
- "Adoraria descer e afundar uma lâmina no peito de quem fosse que estivesse atrapalhando minha observação" - gritou para os corredores, no intuito de atingir os cômodos abaixo.
"Melhor não" - disseram as moscas.
"Isto pode ser interessante" - respondeu.
Correu pelo corredor enquanto sentia a presença do dia de verão e do sol do lado de fora, a maldita casa nunca esteve tão quente. Novamente, ecoou pelos cômodos, aquele grito infantilizado, desta vez não lhe restava dúvidas, era um pequeno resto de ser humano e estava do lado de fora, no térreo.
As moscas o seguiam como conseguiam, voando por entre seus membros apressados, focados em apanhar o objeto cortante que havia deixado do lado de fora e afundá-lo no peito daquela pobre e infeliz invasora.
"Isto é loucura, garoto!" - disse uma das moscas.
Por um instante, as moscas pousaram sobre os ombros do garoto quando este exitou para dar o próximo passo, parou e encarou a gigantesca porta que descansava imponente no fim do corredor.
Caminhou em sua direção, ignorando as nuvens embaçadas que passavam pelas frestas, o cheiro de torta estragada e a maçaneta incandescente.
Esticou os dedos, esquecendo-se completamente dos sequenciais gritos que o atraíram até ali e acariciou a maçaneta. Estava sedento para saber o que se escondia por detrás daquela tabua de madeira maciça. - "Poderia ser o próprio demonio respirando do outro lado?" - pensou, esboçando um sorriso. A maçaneta estava fervendo, mas sua curiosidade infantil jamais seria silenciada pelos sinais de perigo que seus instintos gritavam.
- "Abra-a, afinal, você não quer ver o que há do outro lado?" - cochichou uma das moscas.
- "É loucura, garoto! Saia daqui." - disse outra.
Girou o punho e a porta se abriu como se estivesse dominada, não pela força de seu punho, mas pela possessão de uma entidade catastrófica, uma entidade alimentada pela curiosidade.
Uma luz estrondosa adentrou suas retinas, sentiu as carícias de uma meretriz incandescente, que deslizava as mãos por seu rosto e ouviu pela ultima vez aquele grito agudo.
Sentou-se sobre uma cadeira de praia, sentiu o sol sobre seus ombros e as queimaduras subsequentes.
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 14 de abril de 2015
O Show
Ele não
tinha nada, exceto medo.
Não medo de
morrer ou qualquer outra forma de flagelo físico. Ele tinha medo do anonimato.
Anos
atrás, foi um famoso orador de circo. Multidões atravessavam estados apenas
para vê-lo abrir os números e espetáculos, e a satisfação do público era tão
grande que muitos voltavam uma segunda e até mesmo uma terceira vez.
Hoje em
dia seu braço era tão fino que não aguentava mais carregar o comprido
microfone. A cartola que pousava em sua cabeça abandonara o preto e tornou-se
cinza, com mais bocas do que era possível contar. Ao redor dos olhos, a sombra
preta escorria em rios por sua bochecha, acusando trajetos cursados por
lágrimas. Seu terno vinho estava engomado, e de acordo com a incidência da luz
solar era possível identificar manchas de sangue. Mas nada disso importava,
pois no topo daquele prédio, detalhes tão pequenos eram invisíveis.
Uma
mulher gritou, alguém implorou para que ele não pulasse, outros ignoraram e
continuaram andando. Com o decorrer das horas, podia-se dizer que uma bela
multidão havia se formado.
Que
comece o show.
Botando-se
em pé, urrou que iria pular. Um coro negativo veio em resposta, dando-lhe ainda
mais ânimo. Articulou violentamente com as mãos, encenando que a vida não mais
lhe era prazerosa, e de que o sol não brilhava como antes. Uma criança desatou
a chorar.
A
multidão aumentava, assim como sua encenação.
Arremessou
a cartola aos ventos, chorando falsamente enquanto observava-a rodopiar pelo
céu. E em quanto as horas passavam, mais seu show fazia sucesso.
No final
do dia, mais de trezentas pessoas concentravam-se ao redor do prédio, maior do
que qualquer público que já o visitara no circo. Carros da polícia iluminavam
seu palco com sirenes, enquanto os bombeiros cuidavam da parte acústica. Um
helicóptero sobrevoava o local, e se estivesse com sorte, já estaria nos
jornais locais.
Pois bem, era hora de encerrar. Agradeceu a
Deus pelo rejuvenescimento de sua alma. Virou-se para descer do parapeito e
Escorregou.
Um passo
falso apenas, em um parapeito ridiculamente estreito.
Enquanto
caia, a surpresa apoderou-se de seu corpo. Mesclado com a felicidade que
sentia, o gozo foi absoluto.
Antes de
tocar o chão, jurou ter ouvido palmas. Aquele espetáculo foi seu maior sucesso.
- Dedos
Azuis
sábado, 21 de março de 2015
quarta-feira, 4 de março de 2015
Onze
Hoje faz onze anos.
Nesses aniversários esperamos uma lembrança, uma flor que seja.
Hoje faz onze anos
E creio que ela nem mesmo reparou em mim
O quarto é escuro, a poltrona fica no canto
Hoje faz onze anos e ela não sabe que observo-a
Ela entrou de mãos dadas com outro homem
E deitou ao seu lado na cama
Gostaria de ter um cigarro, cara
Hoje faz onze anos
É a vadia está transando com outro
Onze, que maldito número
Tão romântico e tão pútrido
Onze anos
Onze traições
Onze mulheres
Onze assassinatos
E uma, não onze, mas apenas uma mísera fração digitada de onze
Uma amaldiçoou-me
Onze vezes puta
E estou aqui
Comemorando meu aniversário de falecimento há onze anos
Hoje faz onze anos
E o sexo durou pouco mais de onze segundos
- Dedos Azuis
Nesses aniversários esperamos uma lembrança, uma flor que seja.
Hoje faz onze anos
E creio que ela nem mesmo reparou em mim
O quarto é escuro, a poltrona fica no canto
Hoje faz onze anos e ela não sabe que observo-a
Ela entrou de mãos dadas com outro homem
E deitou ao seu lado na cama
Gostaria de ter um cigarro, cara
Hoje faz onze anos
É a vadia está transando com outro
Onze, que maldito número
Tão romântico e tão pútrido
Onze anos
Onze traições
Onze mulheres
Onze assassinatos
E uma, não onze, mas apenas uma mísera fração digitada de onze
Uma amaldiçoou-me
Onze vezes puta
E estou aqui
Comemorando meu aniversário de falecimento há onze anos
Hoje faz onze anos
E o sexo durou pouco mais de onze segundos
- Dedos Azuis
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
O Dia que Contaram a História da Criança que tinha Braços de Porco
O tão esperado dia 16 de fevereiro finalmente havia chegado. Era uma segunda feira chuvosa, e não trazia sinais aparentes de mudanças climáticas.
Ao soar do primeiro sinal, às 7h30 pontualmente, todas as crianças correram agitadas para o grande ônibus estacionado do outro lado da rua. Pouco ligando para a chuva, pouco ligando para os avisos de "cuidado", a manada de pequenas criaturinhas apostavam a corrida decisiva pelo lugar ao fundo.
Após a contagem da turma, o professor deu o sinal para o motorista. Com um som intergalático a porta se fechou, e o estudo do meio iniciava-se.
O destino era Brotas, no interior de São Paulo. O percurso pode ser facilmente percorrido em 1h45, se o trajeto for feito de carro. Agora, em um ônibus lotado de crianças, em pleno feriado de carnaval, e com uma chuva que cada vez tornava-se mais aterrorizante, seis horas de viagem era um pensamento otimista.
No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.
Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.
Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.
Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.
As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.
O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".
No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.
A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.
Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.
- Dedos Azuis
No começo todos cantavam, e a felicidade era algo contagiante. Com o tempo alguns foram parando, ao passo que todos estavam em silêncio absoluto antes da primeira hora. O professor emendou algumas atividades, que perduravam por não mais de vinte minutos. Tentou cantar novamente, e até jogos foi uma de suas artimanhas.
Na terceira hora, muitos alunos reclamavam da demora. Alguns gritavam insultos e o ânimo do ambiente estava negativo. O professor precisava tentar novamente fazer desta viagem algo prazeroso. Então, persistindo, tentou novamente uma seleção de piadas, músicas, jogos. Tudo em vão. Mandaram-no calar a boca e, sem conseguir saber de onde veio o insulto, o professor explodiu.
Como cartada final, decidiu contar uma história de terror. Encheu os pulmões de ar e soltou um berro gigantesco, antecipando o que estava por vir. Todos pararam, mudos, imóveis, olhando atentamente para o mestre que com dificuldade tentava ficar em pé.
Quando notou ter conseguido a atenção de todos, começou a conta a história da "Criança que tinha braços de porco". Conforme contava, começou a envolver-se com a trama, e animar-se em conseguir prender a atenção de todos. Subiu em um dos bancos, e elevou sua voz em um tom.
As crianças começaram a chorar, a suplicar que parasse com a tenebrosa história. Muitos gritaram e entraram em pânico, urrando para que aquilo parasse. Mas não parou.
O professor ficou vidrado, em estado de transe hipnótico e, quando chegou ao fim, recomeçou a contar. Seguidamente, de novo e de novo, em um ciclo infinito, o professor contou e recontou a história horrível da "Criança que tinha braços de porco".
No final, quando deu por si, o ônibus estava parado no meio da pista, com vários carros cortando-o e buzinando enfaticamente. O motorista não encontrava-se em lugar algum, e as portas e janelas estavam todas lacradas. As crianças, por sua vez, estavam em convulsão coletiva com todos os pequenos corpinhos tremendo, enquanto espuma escorria de suas bocas e sangue de suas orelhas.
A policia chegou junto com o resgate. O professor estava em estado catatônico quando foi levado para a delegacia. Enforcou-se no banheiro ao lado da sala do interrogatório antes que descobrissem qual era o conteúdo da história.
Os jovens tiveram surtos de frio ao longo de alguns dias. Em uma semana todos estavam mortos.
- Dedos Azuis
Assinar:
Postagens (Atom)
