Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.
Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse desligá-lo, ouvi uma enorme explosão do lado de fora da janela.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou...
Acordei com o som de meu despertador, dando um grito agoniado. Estava empapado em meu próprio suor, e tremia como o celular que vibrava.
Antes que pudesse...
Acordei com a insana gritaria.
No começo achei que era chuva, mas quando ouvi os distantes barulhos deduzi ser granizo.
Os barulhos aumentavam, abafando o som dos gritos. Eram sons inconstantes com uma frequência absurdamente alta. Os antes pequenos barulhos agora parecia séries de explosões desordenadas.
Corri pelo quarto escuro, usando ambas palmas das mãos para arremeter contra as janelas fechadas.
Na antes tranqüila cidade, agora incêndios coloridos preenchiam toda minha visão, e constantemente formavam se outros, conforme as estrelas continuavam caindo.
Não, não estou louco.
TODAS estavam caindo, derretendo do céu, vindo para a Terra com a velocidade de cometas.
Era o fim aproximando.
Esperei pelo despertador tocar, para acordar deste maravilhoso espetáculo apocalíptico. Ao mesmo tempo que era belo, era fatal, aterrorizante.
Era questões de segundo até... Até o despertador tocar...
Em breve...
As explosões aproximavam-se, as estrelas caiam cada vez mais próximas.
Colocando a cabeça para fora, olhei para cima em direção vertical, observando o grande astro que aproximava-se.
O despertador nunca chegou a tocar.
- Dedos Azuis
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
.9mm
Popin Jack tragou seu narguilé, aspirando aos dezoito céus que compõe nosso universo uma fumaça tênue, com aroma de menta.
Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que Popin nunca havia chegado.
Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.
Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.
Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.
Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
Matheus foi preso.
Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.
Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.
Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.
Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:
" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"
Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.
- Dedos Azuis
Sentado no parapeito de um gigantesco arranha-céu, desfrutava de mais um por do sol. Mesclando-se com sua sombra, as cordas que prendiam seu pulso alongavam-se, terminando em algum infinito que Popin nunca havia chegado.
Hoje ele tem 35, mas descobriu que era uma marionete aos seis. Não foi difícil, na verdade. Sem pais, invisível às outras pessoas, com cordas em cada extremidade de seu corpo e, fundamentalmente, sem livre-arbítrio.
Popin Jack não podia escolher se ia ou vinha, ou até mesmo se dormia ou acordava. Nem mesmo o trago do narguilé era sua escolha, e sim uma esticada de corda de algum Ser que estava acima.
Ele era uma marionete, pois bem, sem escolha alguma de sua vida. Apenas ia vivendo conforme lhe era designado.
Ontem, dia 14 de Janeiro, enquanto os últimos raios de sol se despediam para deixar suas enteadas nuvens trazerem a chuva, Popin observou um acidente no centro da cidade. Dotado de onisciência e onipresença, conseguiu acompanhar todo o destrinchamento do horrível drama.
Maria chegou em casa, encontrou seu marido Roberto traindo-a com outra, Ana, em sua própria cama.
Maria furiosa sai de casa e vai para um boteco qualquer, afogar seu sofrimento enquanto observa o mundo por trás de um fundo de copo.
Enquanto isso Roberto perde o controle, motivado pelo nível de estresse da situação e mata Ana com uma .9mm que guardava na gaveta da cozinha.
Maria sai do bar dirigindo, perde o controle do carro, atropela duas garotinhas, Nicky e Lara, e destrói a loja do Arthur, revendedor de eletrodomésticos.
Horas depois, o pai de Nicky e Lara, Matheus, entra na delegacia com uma .9mm recém adquirida e mata Maria com três tiros.
Arthur colocou sua casa como fiadora de sua nova loja, que estava aberta a apenas uma semana, e todo o investimento feito foi fruto do montante de sua aposentadoria. Desejou ter uma arma, seria menos doloroso. Todo seu dinheiro, toda sua esperança, tudo destruído por uma garota mimada que decidiu beber apenas por fazer farra, sem motivo algum. Como não tinha uma arma, Arthur jogou-se do vigésimo segundo andar de seu prédio.
Matheus foi preso.
Roberto usou a última bala de sua .9mm quando viu o noticiário.
O dinheiro que Matheus pagou por sua .9mm ilegal foi o mesmo dinheiro que Cláudio, traficante de armas, injetou em suas veias e morreu de overdose na madrugada do dia 15 de Janeiro.
Popin Jack tragou mais uma vez seu narguilé, e, não por vontade própria, pegou um pequeno caderno que jazia ao seu lado, no topo do prédio.
Os caminhos que as pessoas trilham, as decisões que tomam, é tudo um grande efeito borboleta. As vezes uma decisão sábia se mostra estúpida. As vezes o seu investimento te deixa na miséria. As vezes o seu amor parte seu coração em mais pedaços do que sua alma é capaz de juntar. As vezes, ou melhor, sempre, as escolhas erradas estarão presentes. E é nelas que encontraremos as maiores frustrações, os maiores sofrimentos e, muitas vezes, o nosso ponto final.
Com uma caneta esferográfica azul que falhava em 20% de seu uso, escreveu nas páginas amareladas:
" Será que nosso livre-arbítrio é a razão de nossos sofrimentos?"
Sem mais, tirou uma .9mm que estava atado à seu cinto e disparou contra sua têmpora, deixando as cordas frouxas caírem junto com seu corpo sobre uma cidade preta e branca.
- Dedos Azuis
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
Presença
"Engraçado..."
"O que é engraçado, filho?"
"Ah, nada. É que simplesmente esse era o lugar que ele passava a maior parte do tempo, sabe?"
"É, é verdade."
"Ele ficava aqui conversando com as flores, regando-as o dia todo. Parecia que ele gostava mais delas do que de mim. Sei lá."
"Ah, filho, isso não é verdade, seu pai te amava e ele ficaria orgulhoso do homem que você se tornou."
"Não é isso, mãe. É que tá passando tanta coisa comigo, a escola, os amigos e tem essa garota, agora."
"Ah, tem uma garota? E ela é bonita?"
"Ela é linda, engraçada, inteligente e tal, mas é que não sei."
"Você pode contar qualquer coisa para a sua mãe, querido."
"Ah..."
"Vamos, pode falar."
"É que eu não sei se ela aceitaria o nosso estilo de vida."
"Se ela gosta de você com certeza vai te aceitar do jeito que você é."
"As pessoas me olham engraçado na escola. Ontem, o nosso mascote de sala, Billy, morreu e ninguém compreendeu nada do que tinha acontecido, só eu. A professora até chamou a psicologa para conversar comigo e disse que queria conversar com meus pais."
"E você?"
"Eu disse que vocês estavam viajando."
"Fez bem, meu querido. Desculpe não ser a mãe mais presente do mundo."
"Desculpas aceitas. Acho que ouvi a campainha, mãe. Quando o papai acordar você me avisa, ok?"
"Aviso sim, meu lindo."
"Descanse um pouco. Tchau, te amo."
"Tambem te amo e Ah! Não esqueça o hamster."
"Ah, sim. Vamos, Billy."
- Lágrimas de Gasolina
"O que é engraçado, filho?"
"Ah, nada. É que simplesmente esse era o lugar que ele passava a maior parte do tempo, sabe?"
"É, é verdade."
"Ele ficava aqui conversando com as flores, regando-as o dia todo. Parecia que ele gostava mais delas do que de mim. Sei lá."
"Ah, filho, isso não é verdade, seu pai te amava e ele ficaria orgulhoso do homem que você se tornou."
"Não é isso, mãe. É que tá passando tanta coisa comigo, a escola, os amigos e tem essa garota, agora."
"Ah, tem uma garota? E ela é bonita?"
"Ela é linda, engraçada, inteligente e tal, mas é que não sei."
"Você pode contar qualquer coisa para a sua mãe, querido."
"Ah..."
"Vamos, pode falar."
"É que eu não sei se ela aceitaria o nosso estilo de vida."
"Se ela gosta de você com certeza vai te aceitar do jeito que você é."
"As pessoas me olham engraçado na escola. Ontem, o nosso mascote de sala, Billy, morreu e ninguém compreendeu nada do que tinha acontecido, só eu. A professora até chamou a psicologa para conversar comigo e disse que queria conversar com meus pais."
"E você?"
"Eu disse que vocês estavam viajando."
"Fez bem, meu querido. Desculpe não ser a mãe mais presente do mundo."
"Desculpas aceitas. Acho que ouvi a campainha, mãe. Quando o papai acordar você me avisa, ok?"
"Aviso sim, meu lindo."
"Descanse um pouco. Tchau, te amo."
"Tambem te amo e Ah! Não esqueça o hamster."
"Ah, sim. Vamos, Billy."
- Lágrimas de Gasolina
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Pré-Natal
"Agora você aparece de novo! Como vou explicar para os meus pais?"
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."
"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."
- Lágrimas de Gasolina
"Idiota! Idiota!"
"Como isso foi acontecer? "
"As vezes as coisas não são como esperamos e é isso, só isso."
"Como assim? Do que você tá falando?"
"É, você sabe. De tudo isso que tá acontecendo. Seu esposo morto na banheira, sua gravidez inesperada, esse tipo de coisa."
"As coisas fugiram do controle. Agora, eu não sei o que eu faço."
"Você devia começar pelo corpo."
"Do Pedro? Não, eu não posso!"
"Não, sua boba! O outro corpo, esse dai que você carrega contigo já fazem alguns meses, afinal, não é por isso que Pedro está morto?"
"N-Não, na verdade, sim. É por isso mesmo."
"Então, muito bem, vá ao banheiro e tire isso de dentro de você. Já começaria bem."
"Eu não posso, ele é meu filho, minha criança. Eu não posso simplesmente retira-lo. Ele não é uma sujeira que esfrego dos meus pés e em alguns minutos está fora."
"Eu sei, use a arma."
"Usar a arma? Você está louca? Como eu vou abortar uma criança usando um revolver?"
"Eu não estou falando com.você, eu estou falando com a criança."
"Dois disparos. Uma cabeça suja. Um chão sujo de sangue. Passos, pequenos passos. Uma banheira. Dois cadáveres"
"Não há ninguém por aqui. Quem é essa? Parece que essa pobre infeliz atirou no esposo e depois se matou."
"Pouco provável, olhe para a pernas dela. Estão mutiladas."
"Nessa cidade, só acontecem coisas loucas, cara. Na verdade, eu já to de saco cheio disso tudo."
"Como assim?"
"Ah, você sabe, todas esses crimes sem solução aparente. Mulheres mutiladas, mortos nas banheiras. Tô cansado. Sei lá, minha vida anda uma merda também, a Mari disse que está gravida. Já fez o pré-natal e tudo, sem eu saber."
"Poxa, cara. Que bacana."
"É, é, seria bacana se eu não fosse um fodido. E pra piorar ela disse que talvez sejam gêmeos."
"Chega disso, vamos comer alguma coisa. Porra, fique feliz pela gravidez de sua mulher, é o minimo que ela espera de você."
"É, pode ser."
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Um dia de Mãe
André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.
Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível.
A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:
"Vou comprar leite", ela disse.
"Volto logo", ela disse.
Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo.
Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,
onde detalhes não importavam nada e importavam muito.
Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser.
Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.
Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe.
Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções.
Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe?
"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.
Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo.
Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente.
Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente.
André teve uma vida boa, só não teve uma mãe.
Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu.
Mas hoje ela está ali.
Não, ela não está morta.
Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos.
Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas.
Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível.
Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava.
E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.
Disse que fora convocada, fora escolhida
Para tornar-se uma super-heroína
Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,
Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.
Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,
ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão.
André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe.
- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.
- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.
- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis.
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas.
São professoras e amigas, são apoio e incentivo.
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe.
E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo,
Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos.
- Dedos Azuis
sexta-feira, 13 de junho de 2014
O Príncipe do Nada
Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício.
Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.
Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.
Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui
Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado.
Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso.
Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.
Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco.
Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados.
Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz.
Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.
Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês?
Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes.
Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio.
Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro.
Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso.
E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se
E Deus desceu.
Desceu e disse
Nada.
E o parapeito tornou-se canja
E o Nada tornou-se meu reino.
- Dedos Azuis
Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.
Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.
Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui
Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado.
Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso.
Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.
Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco.
Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados.
Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz.
Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.
Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês?
Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes.
Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio.
Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro.
Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso.
E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se
E Deus desceu.
Desceu e disse
Nada.
E o parapeito tornou-se canja
E o Nada tornou-se meu reino.
- Dedos Azuis
domingo, 1 de junho de 2014
Rede Social
O clique do mouse tornou-se tão repetitivo que passei a processá-lo de forma mecânica.
Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.
- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora!
Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social.
Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:
- Saia disso agora!
Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.
Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.
- Não, não, não...
Era inútil. Minha vida tinha acabado.
Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.
Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão.
Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook.
O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.
Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.
E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.
- Dedos Azuis
Enquanto as janelas iam abrindo e fechando, iluminando meu rosto, meus olhos acompanhavam cada movimento com um frenesi doentio.
- Allan, não vou te chamar de novo! Desça agora!
Ignorei o chamado de minha mãe completamente, e continuei imerso em minha rede social.
Meu pai então abriu a porta com uma força brutal, precipitou-se sobre meu macbook e socou seu teclado, berrando:
- Saia disso agora!
Saindo de meu quarto com a mesma velocidade que entrou, meu pai deixou-me sozinho.
Gritei ao ver a tela de meu computador oscilando de forma penosa. Cliquei diversas vezes e tentei digitar, mas nada. O note estava quebrado.
- Não, não, não...
Era inútil. Minha vida tinha acabado.
Com o coração apertado e uma náusea monstruosa, precipitei-me para descer e jantar, mas algo estranho aconteceu.
Não conseguia soltar a mão do mouse. Não, não era por vontade. A minha mão realmente não se soltava, como se uma força maior a puxasse. Como um vetor, de mesma força e intensidade porém de direção oposta, o teclado quebrado sugou minha outra mão.
Estraçalhando todas as peças, senti a eletricidade percorrer meu punho quando toquei na placa mãe do notebook.
O mouse rachou também, dando abertura para minha outra mão preencher seu interior.
Antes que eu pudesse gritar, a tela sugou meu rosto, e todo o meu corpo foi parar dentro do espaço virtual.
E então, finalmente senti paz. Estava ali, em baixo da foto que escolhi para minha capa, em um pequeno quadrado com a borda branca na superfície esquerda da tela, sorrindo para todos aqueles que clicassem em Allan de' Lucca. Agora eu não era só um operador, e sim meu próprio perfil.
- Dedos Azuis
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Ponto
Sabe, existe apenas uma coisa que eu dou mais valor do que a minha própria vida.
Não vou dizer exatamente o que é, porque isso é coisa minha e é problema meu.
Mas naquele dia, foi o dia em que colocaram-me em xeque.
Me lembro bem, malditos manipuladores, aqueles que escarram o pútrido sabor das palavras em meus tímpanos. Os dissimulados, que empurram bons sorrisos goela abaixo.
Lembro-me de estender a mão para um destes e vi todo o resto se desfazer.
Malditos sejam.
"Hei, espera um pouco, afinal de contas isso tudo tem um sentido? Por que você tá me contando isso? Qual é o ponto, cara?"
Afinal das contas, por que as coisas devem ter um ponto? Sempre pensei nisso. Será que qualquer tipo de ponto é válido? Pontos de partida e pontos de chegada? Com qual destes as pessoas mais se importam?
Ultimamente tenho pensado, creio que os pontos de chegada sempre foram os de maior interesse!
"Porra, cara, mas é lógico. Ninguém nunca quer saber como as coisas começaram. Essa parada de contexto e o 'por que' das coisas sempre foi papo furado."
Mas será que os fins justificam os meios? Como viemos parar aqui, afinal?
"Não sei, cara. Eu tenho uma teoria muito louca, as vezes penso que viemos de um meteorito ou coisa parecida."
Não, cara. Você não me entendeu. Como chegamos na droga deste assunto!
"Putz, cara, você tava falando algo sobre amor á própria vida e coisa e tal."
Ah, é verdade. Então, como estava dizendo, existem apenas duas coisas que eu dou mais valor do que a minha própria vida (...)
- Lágrimas de Gasolina
Não vou dizer exatamente o que é, porque isso é coisa minha e é problema meu.
Mas naquele dia, foi o dia em que colocaram-me em xeque.
Me lembro bem, malditos manipuladores, aqueles que escarram o pútrido sabor das palavras em meus tímpanos. Os dissimulados, que empurram bons sorrisos goela abaixo.
Lembro-me de estender a mão para um destes e vi todo o resto se desfazer.
Malditos sejam.
"Hei, espera um pouco, afinal de contas isso tudo tem um sentido? Por que você tá me contando isso? Qual é o ponto, cara?"
Afinal das contas, por que as coisas devem ter um ponto? Sempre pensei nisso. Será que qualquer tipo de ponto é válido? Pontos de partida e pontos de chegada? Com qual destes as pessoas mais se importam?
Ultimamente tenho pensado, creio que os pontos de chegada sempre foram os de maior interesse!
"Porra, cara, mas é lógico. Ninguém nunca quer saber como as coisas começaram. Essa parada de contexto e o 'por que' das coisas sempre foi papo furado."
Mas será que os fins justificam os meios? Como viemos parar aqui, afinal?
"Não sei, cara. Eu tenho uma teoria muito louca, as vezes penso que viemos de um meteorito ou coisa parecida."
Não, cara. Você não me entendeu. Como chegamos na droga deste assunto!
"Putz, cara, você tava falando algo sobre amor á própria vida e coisa e tal."
Ah, é verdade. Então, como estava dizendo, existem apenas duas coisas que eu dou mais valor do que a minha própria vida (...)
- Lágrimas de Gasolina
terça-feira, 29 de abril de 2014
Oi, tudo bem?
Sabe, hoje de manha me perguntaram como eu estava.
Eu respondi que estava bem, mas agora eu parei para pensar nisso.
Será que eu estava bem mesmo?
Eu nunca paro para pensar quando alguém me faz uma pergunta dessas, eu simplesmente respondo e vou embora. Não preciso ficar me estendendo. As pessoas normalmente nem esperam eu responder, parece que elas realmente sabem que eu estou bem e que vou responder que estou bem.
Sera que toda conversa que eu ter daqui pra frente com as pessoas vai se resumir a isso? Uma pergunta retorica e uma resposta retorica? Será que é isso que eles querem dizer com papo furado? Não sei responder, sei lá. Simplesmente, nunca me importei. Mas... Por que agora?
Será que o Joe sabia que eu ficaria sentado nessa poltrona pensando sobre isso a noite toda? Será que o Joe fez isso com a intenção de que eu ficasse em casa? Não, como Joe faria tal coisa? Ele é um imbecil. Jamais arquitetaria um plano desses. Ele deve estar dormindo agora.
Nossas palavras não passam de cascas, no fim das contas. Sim, é isso. Cascas. Palavras são tipo... Tipo o sabor de hortelã de um daqueles cigarros de sabor. Um Câncer saboroso.
E se eu fosse um câncer o tempo todo? Ou será que as pessoas gostam de cascas e de hortelã?
Maldito Joe e suas perguntas retóricas. Ele deve estar trepando com a minha namorada nesse momento.
Isso seria uma pena se eu tivesse uma namorada. Quais são suas intenções, cara?
Sabe de uma coisa? Amanha eu vou responder que não estou bem. É, é isso que eu vou fazer.
Mas será que amanha eu vou estar bem? E se eu estiver?
De qualquer forma.
Boa noite.
- Lágrimas de Gasolina
Eu respondi que estava bem, mas agora eu parei para pensar nisso.
Será que eu estava bem mesmo?
Eu nunca paro para pensar quando alguém me faz uma pergunta dessas, eu simplesmente respondo e vou embora. Não preciso ficar me estendendo. As pessoas normalmente nem esperam eu responder, parece que elas realmente sabem que eu estou bem e que vou responder que estou bem.
Sera que toda conversa que eu ter daqui pra frente com as pessoas vai se resumir a isso? Uma pergunta retorica e uma resposta retorica? Será que é isso que eles querem dizer com papo furado? Não sei responder, sei lá. Simplesmente, nunca me importei. Mas... Por que agora?
Será que o Joe sabia que eu ficaria sentado nessa poltrona pensando sobre isso a noite toda? Será que o Joe fez isso com a intenção de que eu ficasse em casa? Não, como Joe faria tal coisa? Ele é um imbecil. Jamais arquitetaria um plano desses. Ele deve estar dormindo agora.
Nossas palavras não passam de cascas, no fim das contas. Sim, é isso. Cascas. Palavras são tipo... Tipo o sabor de hortelã de um daqueles cigarros de sabor. Um Câncer saboroso.
E se eu fosse um câncer o tempo todo? Ou será que as pessoas gostam de cascas e de hortelã?
Maldito Joe e suas perguntas retóricas. Ele deve estar trepando com a minha namorada nesse momento.
Isso seria uma pena se eu tivesse uma namorada. Quais são suas intenções, cara?
Sabe de uma coisa? Amanha eu vou responder que não estou bem. É, é isso que eu vou fazer.
Mas será que amanha eu vou estar bem? E se eu estiver?
De qualquer forma.
Boa noite.
- Lágrimas de Gasolina
domingo, 19 de janeiro de 2014
Fútil Realidade #3
Apertei forte sua mão e entrelacei meus dedos aos seus. Nenhuma força no mundo poderia me separar dela.
A chuva desistiu de participar do dia, e os guarda-chuvas mostraram-se obsoletos. Com a mão livre, baixei o cogumelo negro que segurava e fechei-o com um singelo clique.
Mesmo depois de dez anos, os olhos de Brígida ainda borravam neste dia, turvejando-se como o céu nublado, que durante uma década manteve-se fiel em chover todos os dias 06 de Janeiro.
Pai não pode vir hoje. Um resfriado forte o deixou de cama, mas não era nada sério. Sentindo a angústia de Brígida em não poder homenagear a mãe, arrisquei-me dirigindo até o cemitério. Minhas aulas práticas começam apenas na próxima semana, mas Brígida merece.
Beijei uma rosa branca e depositei ao lado da foto de Mãe. Caminhamos a passos lentos até a entrada do cemitério, e, após passar o arco, Brígida rodou seu corpo e beijou meus lábios.
- Obrigado por me trazer, você é único!
Passei a mão suavemente por suas costas e sorri. Um sorriso fraco, mas ainda sim um sorriso.
- Você merece muito mais.
- Podemos tomar um sorvete, então? - Sorriu Brígida, com os olhos negros como a lua sorrindo em conjunto.
- Estava bom, anjo?
- Sim, o melhor! Obrigada, de coração.
Sorri.
Depois da morte de mãe, as coisas foram meio estranhas. Risadas e sorrisos não haviam mais. Tudo ficou triste, preto e branco. Pai perdeu sua jovialidade, Brígida perdeu todo seu ânimo e eu perdi, pela segunda vez, minha mãe.
Foram meses até a dor afunilar-se e iniciar um processo de contração. Pai não era o suporte que Brígida precisava, pois também tinha sua enorme dor. Ofereci meu ombro aos dois; tornei-me o melhor filho e o melhor irmão.
Mas, com Brígida, as coisas repercutiram de maneira diferente. Esperava uma explosão de Pai quando contamos que estávamos namorando, mas, ao contrário de minha expectativa, vi seu olho brilhar novamente, e seu sorriso caloroso acender como uma fogueira, coisa que não acontecia há quase oito anos.
Eu e Brígida, Brígida e eu, e Pai também quando não estamos envoltos em nosso casulo de amor. Aos poucos vencemos a dor, aprendemos novamente a ser feliz, pois era isso que Mãe iria querer. Nunca nos esqueceremos dela, mas aprendemos a tocar nossas vidas.
Olhei para cima, e percebi que pela primeira vez em 10 anos, no dia 06 de Janeiro havia um imenso céu azul acima de minha cabeça.
Ajoelhei em frente a Brígida, na calçada que cruzava com a sorveteria, e, antes que o momento passasse, disse:
- Brígida, você aceita se casar comigo?
Continua Aqui
A chuva desistiu de participar do dia, e os guarda-chuvas mostraram-se obsoletos. Com a mão livre, baixei o cogumelo negro que segurava e fechei-o com um singelo clique.
Mesmo depois de dez anos, os olhos de Brígida ainda borravam neste dia, turvejando-se como o céu nublado, que durante uma década manteve-se fiel em chover todos os dias 06 de Janeiro.
Pai não pode vir hoje. Um resfriado forte o deixou de cama, mas não era nada sério. Sentindo a angústia de Brígida em não poder homenagear a mãe, arrisquei-me dirigindo até o cemitério. Minhas aulas práticas começam apenas na próxima semana, mas Brígida merece.
Beijei uma rosa branca e depositei ao lado da foto de Mãe. Caminhamos a passos lentos até a entrada do cemitério, e, após passar o arco, Brígida rodou seu corpo e beijou meus lábios.
- Obrigado por me trazer, você é único!
Passei a mão suavemente por suas costas e sorri. Um sorriso fraco, mas ainda sim um sorriso.
- Você merece muito mais.
- Podemos tomar um sorvete, então? - Sorriu Brígida, com os olhos negros como a lua sorrindo em conjunto.
- Estava bom, anjo?
- Sim, o melhor! Obrigada, de coração.
Sorri.
Depois da morte de mãe, as coisas foram meio estranhas. Risadas e sorrisos não haviam mais. Tudo ficou triste, preto e branco. Pai perdeu sua jovialidade, Brígida perdeu todo seu ânimo e eu perdi, pela segunda vez, minha mãe.
Foram meses até a dor afunilar-se e iniciar um processo de contração. Pai não era o suporte que Brígida precisava, pois também tinha sua enorme dor. Ofereci meu ombro aos dois; tornei-me o melhor filho e o melhor irmão.
Mas, com Brígida, as coisas repercutiram de maneira diferente. Esperava uma explosão de Pai quando contamos que estávamos namorando, mas, ao contrário de minha expectativa, vi seu olho brilhar novamente, e seu sorriso caloroso acender como uma fogueira, coisa que não acontecia há quase oito anos.
Eu e Brígida, Brígida e eu, e Pai também quando não estamos envoltos em nosso casulo de amor. Aos poucos vencemos a dor, aprendemos novamente a ser feliz, pois era isso que Mãe iria querer. Nunca nos esqueceremos dela, mas aprendemos a tocar nossas vidas.
Olhei para cima, e percebi que pela primeira vez em 10 anos, no dia 06 de Janeiro havia um imenso céu azul acima de minha cabeça.
Ajoelhei em frente a Brígida, na calçada que cruzava com a sorveteria, e, antes que o momento passasse, disse:
- Brígida, você aceita se casar comigo?
Continua Aqui
domingo, 12 de janeiro de 2014
Noite de Pesadelos
O celular vibrou, e depois reproduziu um som; Um assobio familiar denunciou a música "Three Little Birds", que se estendia vagarosamente, enquanto Sandman corria para alcançar o aparelho.
- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.
- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!
- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
- Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.
Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.
Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.
- Dedos Azuis
- Alô? Alô?!
- Sandman...?
- Sim, sim. Quem fala?
- Amaân, meu velho. Não se lembra mais de mim?
- Amaân, quanto tempo! Desculpe a falta de atenção... Esta tudo tão corrido ultimamente...
- Podemos nos ver hoje? Quem sabe tomar uma cerveja ou apenas uma porção de batata frita.
- Claro, podemos. Vou apenas chamar um taxi.
- Estou no Fritz. Até logo.
- SANDMAN, quanto tempo! - Disse Amaân, andando até o amigo com os braços abertos.
Após um apertado comprimento, os dois trocaram olhares e sorrisos, e entre um tudo bem tudo bom confuso sentaram-se na mesa do canto.
- Amaân, Amaân... Quem diria que voltaríamos a nos ver ainda este século? Sei que durante a Idade das Trevas nos víamos todo mês, mas, ual! Quem diria...
- Ah, Sandman! Você continua todo meloso e sentimental! - Disse, dando um grosso gole em seu chopp - Mas conte-me, como vai Martha?
- Martha, aquela vadia? - Sandman soltou uma forte gargalhada - Foi embora com Roberto, meu vizinho, assim que descobriu que eu estava pegando sua prima!
Amaân se contorceu de rir, e após arfar algumas vezes, completou:
- Don Sand, você é um imprestável! Garçom, por favor, mais dois chopps!
- Hm... Amaân... você tem certeza que consegue voltar para sua casa sozinho? - Perguntou Sandman, coçando a nuca enquanto o companheiro subia de forma atrapalhada nos degraus do ônibus.
- Para de mi mi mi, Sand. São só alguns quarteirões. O trato de hoje ainda está de pé?
- Sim, claro! - Ficou feliz pelo amigo ter tocado no assunto - Por esta noite, nada de sonhos!
- Sim, sim! Nada de sonhos bons, nada de pesadelos! Você descansa, eu descanso, a humanidade descansa.
- Eles merecem uma noite, após tanto tempo, certo? Faz mais de dois mil anos que lutamos pelo sono deles todas as noites...
- Sim... - Murmurou Amaân - Hoje eles não sentirão medo, não sentirão esperança, apenas dormirão. A gente se vê, velho amigo!
Sandman balançou a mão, enquanto o ônibus 3.85 levava seu amigo para casa.
Esticou o braço alguns metros a frente, para chamar o taxi que passava. Iria para casa, depois de dois mil anos, e poderia tomar um banho quente e assistir um pouco de futebol. Hoje não faria ninguém sonhar. Hoje a noite era dos humanos.
Mal sabia Sandman que Amaân não cumpriria sua promessa. Esta noite, a humanidade iria sangrar.
- Dedos Azuis
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Fútil Realidade #2
Quem pode prever o início de uma verdadeira amizade?
Quem pode prever quando uma família começa ou acaba?
A minha havia acabado de recomeçar.
Alex era seu nome, e ela era Marta. Os pais de Brígida, quando ouviram minha história, interviram pela minha guarda na justiça. Como eu nunca tive avós ou tios próximos, ninguém questionou. Na verdade, o serviço social ficou feliz por livrar-se de mais uma boca para ser alimentada em um orfanato triste em qualquer canto triste da cidade.
A noticia foi como um choque para mim, mas admito que no fundo uma sensação de segurança aqueceu meu coração, como uma manta cobrindo os pés de uma velha senhora, sentada em sua poltrona em um dia frio de inverno.
Tudo se desenrolou tão rápido; as primeiras noites no quarto de hóspedes, o processo de adoção, o carinho e o amor que cresciam dentro dos corações e lacrava-nos uns aos outros.
Em um mês, não era mais um quarto de hóspedes; era meu quarto. Não era mais Alex e Marta, e sim pai e mãe. Não era só Brígida; era melhor amiga incondicionalmente e uma irmã como ninguém jamais sonhara.
Aos poucos, o terror daquele dia começou a desgrudar de minha jovem lembrança, e o riso de minha nova família obscureceu os pesadelos frequentes.
Sorri, pela primeira vez depois da morte de meus pais, quando Brígida entrou em meu quarto e me ofereceu uma tigela de açaí com banana. Rimos por horas, gargalhamos, e terminamos apoiados, um no outro, para recuperar o ar. Nossos olhares se cruzaram pela primeira vez.
Tudo estava perfeito. Tudo era lindo. Um sonho que eu jamais tivera a audácia de sonhar. Rezei pelos meus falecidos pais, e agradeci a Deus por esta nova família.
No meu aniversário de oito anos, Marta, mãe, anjo da guarda, guardiã, protetora, morreu em um acidente de carro enquanto comprava meu presente de aniversário.
E de repente o céu azul acinzentou enquanto minha vida perdia novamente o sentido.
domingo, 5 de janeiro de 2014
Novela
Por que estes putos sorriem o tempo todo?
O que aquele palhaço ta olhando? Tá rindo de que?
"Sai da frente, velhote."
Qual é o problema destas pessoas? Sera que elas não veem o quanto o mundo está doente?
"Será que elas ignoram isso?"
"O que, Dan?"
"Sera que essas pessoas ignoram todos os problemas do mundo: a fome, a miséria a corrupção e todas as outras coisas?"
"Não, amigo." - Disse Miguel, sorrindo como um babaca. - "Ha ha, elas não ignoram, elas simplesmente, não sabem."
"Não sabem?!?" - indignei-me - "Você é estupido?"
"Não, nós não somos estúpidos, Danilo." - Miguel desferiu um riso. - "O único estupido é você. Olhe à sua volta, todos estão felizes. Só você que está aí sentado com essa cara de bosta. Daqui algum tempo você perceberá e sorrirá como nós, andará como nós e pensará como nós.” e voltou a rir.
"É, Miguel. A ignorância é uma benção.”
"Falando em benção, você viu a novela ontem?"
"Vi sim."
"Eu não te disse?"
E ambos começamos a rir.
- Lágrimas de Gasolina
O que aquele palhaço ta olhando? Tá rindo de que?
"Sai da frente, velhote."
Qual é o problema destas pessoas? Sera que elas não veem o quanto o mundo está doente?
"Será que elas ignoram isso?"
"O que, Dan?"
"Sera que essas pessoas ignoram todos os problemas do mundo: a fome, a miséria a corrupção e todas as outras coisas?"
"Não, amigo." - Disse Miguel, sorrindo como um babaca. - "Ha ha, elas não ignoram, elas simplesmente, não sabem."
"Não sabem?!?" - indignei-me - "Você é estupido?"
"Não, nós não somos estúpidos, Danilo." - Miguel desferiu um riso. - "O único estupido é você. Olhe à sua volta, todos estão felizes. Só você que está aí sentado com essa cara de bosta. Daqui algum tempo você perceberá e sorrirá como nós, andará como nós e pensará como nós.” e voltou a rir.
"É, Miguel. A ignorância é uma benção.”
"Falando em benção, você viu a novela ontem?"
"Vi sim."
"Eu não te disse?"
E ambos começamos a rir.
- Lágrimas de Gasolina
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
A Lenda dos Três Irmãos
Ahla-Khamed pairava sobre as vidraças celestiais, observando todos os acontecimentos que ocorriam debaixo das solas de seus pés. Observava os acontecimentos terrenos, enquanto com uma fina pena regada à tinta, os escrevia em um pedaço de pergaminho. Este era seu trabalho, observar e anotar toda a atividade humana. Era o mais novo de três irmãos, que desempenhavam distintas funções, nunca se soube como ou quem os havia criado.
As titânicas janelas douradas das vidraças se abriram e delas voaram pedaços de pergaminho. Ohla-Augus estava com as mãos estendidas, enquanto assoprava as últimas anotações que restava em sua palma de volta para o mundo dos homens. Recolheu algumas outras anotações, que flutuavam ao redor de seus membros, leu uma delas e com um pincel sujo de tinta riscou as palavras: matou, mutilou, estuprou e diversas outras que não deveriam fazer parte da realidade dos mortais, deixando intactas as palavras de cunho bondoso, harmônico e fraternal. Abriu as janelas novamente e esticando as mãos, assoprou as anotações de volta para o mundo dos homens.
As palavras que cruzavam as janelas celestiais e adentravam o mundo dos vivos eram responsáveis por manter a ordem de forma cíclica. Toda ação realizada por cada humano, se vista, seria anotada pelo irmão caçula, passaria pelos olhos avaliativos de Ohla e, depois de filtrados, devolvidos aos solos terrenos, compondo a realidade humana. Aos poucos restaria apenas a bondade e a ordem em sua forma mais pura.
- “Você esqueceu-se de fechar a janela mais uma vez, Ohla!” – Esbravejou o irmão mais velho, sentado sobre um enorme trono dourado abrigado de forma imponente na parte mais alta. Mox se levantou ao ver que o irmão acatava a sua ordem.
- “Espero que não se repita!” – Acrescentou.
Este era Mox-Okhus, o autointitulado gestor de operações celestiais e o maior dos três irmãos. Responsável por garantir que executassem suas tarefas sem nenhum tipo de omissão.
Nenhum deles compreendia a intensa satisfação que sentiam por fazerem parte de um mecanismo tão puro quanto este e em suas consciências pairava o constante pensamento - “Enquanto trabalharmos, toda a realidade presente abaixo das vidraças caminhará na direção da harmonia e benevolência suprema e nós somos os responsáveis.” – Porém o tempo passou de forma mais lenta para um dos irmãos.
As anotações não atingiam a mesma quantidade e qualidade de antes, deixando o irmão do meio frustrado. Mox gritou para Ahla:
- “Irmão, o que está acontecendo? O que você está fazendo? Onde estão as anotações?” – Balançando as mãos furiosamente.
O irmão mais novo estava deitado sobre os pergaminhos, pois estava cansado de observar os homens e decidiu tirar um cochilo, dominado por uma sensação nunca antes sentida, algo que disputava com a única vontade que conhecia. Nenhum deles tinha a capacidade de dormir, mas depois de tanto tempo observando cada movimento humano, cada ação, cada gesto, uma pequena centelha corruptível tomou forma na parte mais fraca de sua divindade.
Ahla-Khamed ficou preguiçoso.
Mox apontou para o irmão que dormia sobre os infinitos rolos de pergaminhos e ordenou furiosamente:
- “Ohla, tire esta vil criatura da minha frente! Levante um dos teus infinitos braços e expurgue as vidraças celestiais, atirando este infeliz para fora delas!”.
A divindade levantou um dos infinitos membros e recolheu o irmão do meio das anotações incompletas.
- “Irmão, o que está fazendo?” – Disse o irmão de olhos sonolentos, enquanto o gigantesco braço o levava em direção à colossal janela dourada.
Ohla não disse nada.
Uma das janelas se abriu e junto ao seu sopro, o corpo do irmão mais novo despencou do alto das vidraças e atingiu o solo terreno. A jovem divindade fora expulsa das vidraças celestiais e na manhã seguinte, Ahla acordaria como um homem.
Mox tomou o posto do irmão expulso e avaliava os diversos pergaminhos com anotações incompletas. Olhou para o irmão, furioso:
- “Está tudo incompleto! Todas estas anotações de nada irão servir.” – Jogou no chão o pergaminho – “Quanto tempo perdido!” – Lamentou.
A divindade viu que teria muito trabalho pela frente e em um ataque de fúria destruiu todas as anotações feitas até aquele momento.
- “Se para nada estas servem, que para o nada estas voltem” – Soltou uma gargalhada na frente de Ohla, que observava das proximidades da janela seu irmão louco destruindo aquele emaranhado de papel e anotações, não dizendo uma palavra se quer.
O mais velho tentou durante muito tempo competir com a antiga determinação e eloquência com que seu irmão caçula exercia sua atividade, porém não era competente o suficiente e os constantes acessos de raiva causados pelas visões do dia da expulsão não permitiam que desempenhasse a melhor das performances.
Sua função sempre foi observar os outros dois irmãos e garantir resultados, não observar os vermes humanos e anotar suas fúteis ações, esta função pertencia a Ahla. Não fazia sentido fugir da sua função natural no universo. Começou a vacilar, deixando alguns acontecimentos ocorrerem despercebidos.
Ahla estava agindo.
Observando os humanos desde sua origem, o irmão mais novo entendia perfeitamente a mente humana, garantindo-lhe poderes persuasivos excepcionais e conseguindo convencer até mesmo o mais cético de todos os humanos existentes na idade média. A longevidade sobrenatural somada a sua inominável habilidade persuasiva garantiu notoriedade perante os mais altos graus hierárquicos e não demorou muito para que Ahla atingisse influencia suficiente para coordenar um ataque às grandes vidraças celestiais, até então desconhecidas pelos homens.
Com a incompetência de Mox e o divino poderio alcançado em solos terrenos, Ahla pôde incitar a construção de um gigantesco projeto capaz de alcançar as grandes vidraças douradas, prometendo aos homens que quando as atingissem poderiam usufruir de todo o ouro que quisessem. O ouro que seria extraído das próprias vidraças.
Mox se sentia um hipócrita, expulsou o irmão mais novo pelo seu desempenho que, embora fosse falho, nem ele, o irmão mais velho, conseguia executar com a mesma precisão.
Ohla olhava as anotações, furioso. Seu irmão mais velho era um inútil, a única coisa que sabia fazer com perfeição era sentar-se. Nem para olhar para baixo e anotar o que via, o cretino servia. Ohla começava a ter certeza que daria conta de tudo aquilo sozinho, não precisando da ajuda do irmão.
- “Esse idiota prepotente” – Pensou enquanto destrancava uma das janelas – “Sempre mandando e mandando” – Acrescentou mentalmente, estendendo os punhos pela janela e preparando-se para assoprar.
Encheu os pulmões de divinos ares e assoprou, mas ouviu um estranho som que cortava o ar a sua frente, um ruído diferente de qualquer sopro que já tenha dado. Sentiu uma pontada em um dos dedos de uma das mãos.
– “Mas o que é isso?” – Gritou, olhando para os dedos.
Pôde ver uma flecha. Uma pequena e humana flecha. Ohla deu um passo para trás, encarando a janela aberta, como quem assiste a um assassinato. Voltou para perto da janela, esticou os punhos para fechá-la, mas era tarde. Uma chuva de flechas voou do mundo dos homens para dentro da morada dos irmãos. As flechas cobriram seus membros e toda a parte superior do grande corpo da divindade foi perfurada por todos os tipos e tamanhos de flechas. Todos os humanos reunidos por Ahla, que alcançaram as vidraças através da orientação dada por um Deus banido, estavam se aglomerando nas janelas celestiais. O irmão mais novo levantou um dos braços, trajando finas roupas de Imperador da humanidade.
- “Irmão, não faça isso! Lembre-se do nosso propósito!” – Suplicou Ohla.
Ahla, ainda de braços levantados, disse calmamente e sem pausas:
- “Seu propósito!” – E abaixou as mãos, ordenando o ataque massivo daquelas distintas e incontáveis faces humanas. Todos os povos de todas as nações unidos pelo poder e pela parte do ouro que receberiam somados à ambição de explorar e conquistar o desconhecido.
Mox e Ohla foram vencidos, pois nem sequer lutaram. A divindade de infinitos braços não disse uma palavra sequer enquanto sentia seus membros adormecerem e morrerem, sua razão de existir havia morrido já fazia tempo. O irmão mais velho foi morto enquanto dormia sobre os pergaminhos, não pôde sentir nada, as milhares de flechas o cobriram como uma gigantesca manta de aço.
Ahla se aproximou do gigantesco trono de Mox e se sentou, encarando seu antigo posto de trabalho, os cadáveres de seus irmãos e as vidraças. Esqueceu-se por alguns segundos dos infinitos humanóides que adentravam pelas janelas abertas e saqueavam sua antiga morada e se lembrou dos dias de trabalho. Fechou os olhos e dormiu. Agora teria tempo para descansar.
-Lágrimas de Gasolina
sábado, 23 de novembro de 2013
Voar
Aquele bando de pré adultos uniformizados
Desgraçados
Andei pelos corredores e vi todos eles amontoados.
Filhos da puta
Gostaria de criar asas metálicas, giléticas.
Passar e cortar todos aqueles pescoços.
Desgraçados, saiam do meu caminho
Morram
Sangrem pelos corredores e deslizem em vossos sangues.
Corri
Se assustaram
Mais um louco atrasado para alguma aula
Gritei
Morram
Tais asas apareceram em minha costas
Cortei tuas têmporas e vossos braços
Corri por todo o corredor
Fiz que o sangue deles jorrassem pelas paredes
Sangrem filhos das putas
Fodam-se tuas famílias e os teus velórios
Sangro-os e não dou a minima
Filhos de papai e patrícias.
Vão tomar no cu, desgraçadas.
Agora morram
O sinal bate, o sangue escorre
Bato nas paredes, as asas somem
O sangue desaparece
A porra das asas estão dentro de mim
E eu estou dentro delas
Que sangrem como os desgraçados ingratos que são
Fodam-se vossas famílias
Estou atrasado para a porcaria da aula de Ética.
- Lágrimas de Gasolina
Desgraçados
Andei pelos corredores e vi todos eles amontoados.
Filhos da puta
Gostaria de criar asas metálicas, giléticas.
Passar e cortar todos aqueles pescoços.
Desgraçados, saiam do meu caminho
Morram
Sangrem pelos corredores e deslizem em vossos sangues.
Corri
Se assustaram
Mais um louco atrasado para alguma aula
Gritei
Morram
Tais asas apareceram em minha costas
Cortei tuas têmporas e vossos braços
Corri por todo o corredor
Fiz que o sangue deles jorrassem pelas paredes
Sangrem filhos das putas
Fodam-se tuas famílias e os teus velórios
Sangro-os e não dou a minima
Filhos de papai e patrícias.
Vão tomar no cu, desgraçadas.
Agora morram
O sinal bate, o sangue escorre
Bato nas paredes, as asas somem
O sangue desaparece
A porra das asas estão dentro de mim
E eu estou dentro delas
Que sangrem como os desgraçados ingratos que são
Fodam-se vossas famílias
Estou atrasado para a porcaria da aula de Ética.
- Lágrimas de Gasolina
domingo, 20 de outubro de 2013
Amor Piscopata
Ah, o nosso amor, você me disse que estava escrito nas estrelas.
Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?
Como pôde, depois de tudo?
Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?
Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.
Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.
Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.
Cruel. Malévola. Vaca.
Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.
Vaca.
Vaca.
E agora, está mais feliz?
Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?
Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.
Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.
Eu tinha planos para você, sabia?
Sim, eu tinha.
Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.
Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.
Mas você, simplesmente, morre.
Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!
Como pôde, eventualmente, morrer?
Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!
À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?
Óh, Deus!
Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.
Você simplesmente partiu.
Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.
Espero te ver em breve.
Vaca.
- Dedos Azuis
Mas e me deixar, estava escrito nas mesmas estrelas ou em outras galáxias?
Como pôde, depois de tudo?
Com essa cara rubro escarlate, simplesmente partir?
Falava que me amava, conversávamos sobre o futuro.
Mas enquanto eu estava sentado na cama, olhando você dormir, ouvia dizer coisas que nunca me disse.
Ouvia seus planos. Você planejava partir a muito tempo.
Cruel. Malévola. Vaca.
Simplesmente criou uma faca emocional, e cravou-a em meu coração, deixando-me afogar em meio ao sangue que transbordava da ferida recentemente aberta.
Vaca.
Vaca.
E agora, está mais feliz?
Independente de onde estiver, longe daqui, está simplesmente satisfeita? Era o que você esperava?
Espero que não. Espero que esteja sofrendo horrores.
Se for um décimo do que sofri, será insuportavelmente doloroso. O suficiente para fazer-me voltar a sorrir.
Eu tinha planos para você, sabia?
Sim, eu tinha.
Sempre que você passava, olhava sua nuca, sua espessura. Enquanto dormia, passava horas te observando, vacilando o olhar do travesseiro ao lado para sua boca semi aberta. Olhava para o topo da escada sempre que a via descendo.
Ó, minha querida, de tantas diferentes maneiras pensei em te matar.
Mas você, simplesmente, morre.
Óh, merda! Que vaca absurda que você foi! Maldita! Maldita! Vaca!
Como pôde, eventualmente, morrer?
Uma porra de acidente de carro, pelo amor de Deus!
À anos, culmino em meu interior o melhor jeito, o mais prazeroso de te matar, e você morre casualmente?
Óh, Deus!
Como suportar isso? Insensível você para deixar de lado todo e qualquer sentimento que jamais tive.
Você simplesmente partiu.
Partiu, deixando em meu coração uma facada emocional, que só será curada se preenchida por uma faca do mesmo tamanho, com o mesmo peso, com a mesma lâmina, só que real.
Espero te ver em breve.
Vaca.
- Dedos Azuis
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Espelhos
Acendi um cigarro empoeirado e apoiei a cabeça no encosto do banco do carro. Com a janela aberta, soprei a fumaça para a negritude da noite. Malditos. Malditos.
Com um braço apoiado na porta, e o outro segurando o Hollywood, aguardava dentro do veículo, olhando fixamente para a janela iluminada. Malditos, puta que pariu, como estes filhos da merda eram malditos.
Há dois dias, quando abri a porta do apartamento, deparei-me com o corpo de minha mulher estirado no chão, com o rosto inteiramente coberto em sangue, disforme. Agachei ao seu lado, segurei seu frágil corpo, e urrei em desespero. Foram infinitos momentos de sofrimento. Não conseguia dormir, apenas gritar.
Com uma gélida faca, rasguei minha mão, deixando sangue cair no carpete. Em pouco, uma criatura apareceu, e me saudou. Cumprimentei o espírito sombrio de volta, e lhe fiz minha proposta. Minha alma em troca de uma volta no tempo, para matar o assassino que fez aquilo com minha amada. O trato estava feito. E aqui estou eu.
Traguei novamente o cigarro empoeirado, quando vi as silhuetas na janela. Ela em um vai e vem inabalável, e atrás, uma outra silhueta, irreconhecível, que acompanhava seu ritmo, mexendo os braços enfaticamente. Em um ato sexual inescrupuloso, apoiados na janela, minha esposa e um outro homem continuavam imersos em seus prazeres. Até que ele olhou assutado em direção do carro. Mas que malditos!
Abri mão de minha alma, por esta filha da puta, para encontrá-la me traindo?
Em estase, desci do carro, e corri a passos firmes até o prédio. Subi as escadas correndo, bufando. Com um violento chute, arrombei a porta do apartamento e corri para a sala.
E lá estava ela. Sentada, no sofá, lendo um jornal, apenas de roupão, como se nada tivesse acontecido.
- Meu amor - ela sussurrou, tirando o óculos e caminhando em minha direção - já voltou?
- Sua puta! - Gritei, e joguei-me violentamente para cima dela, socando-a inúmeras vezes.
Quando o seu corpo caiu no parapeito da janela, eu não parei. Sentei apoiei-me em sua cintura e continuei socando-a, socando-a. Até seu corpo sem vida cair aos meus pés.
Olhei para fora, para a janela.
Ali, parado no carro do outro lado da rua, estava eu mesmo, com um olhar de puro ódio nos olhos.
Olhei desesperado, para o corpo morto de minha esposa, para minha versão de mim mesmo que corria pela rua como um louco. Olhei para o lado.
E lá estava ele, o espírito sombrio, apenas rindo, com o braço em riste, a palma aberta, cobrando aquilo que eu estava lhe devendo.
- Dedos Azuis
sábado, 21 de setembro de 2013
Horror
Certa vez folhando pelos velhos livros de meu falecido pai, li em algum texto doentio sobre uma gigantesca criatura que vivia nas colinas nos arredores da cidade. Ela caminhava, ou melhor, rastejava sobre grandes tentáculos terminados em bocas. Seu cheiro era horrível, algo assim.
No inicio fui cético, tantas anotações, tantos recortes de papel. Meu pai era um velho babão que quando não estava trabalhando na biblioteca, estava trancado no quarto. Não me impressiona o quanto Kin, minha mãe, o odiava.
As montanhas das reportagens faziam contato com a parte mais periférica da minha cidade. Os recortes, sempre de jornais locais, mostravam sempre as consequências dos avistamentos, os desaparecimentos, mas nunca se quer tinham falado da forma física da suposta criatura. Adoraria saber como meu pai a havia visto e descrito suas dimensões e formas.
Certa noite, peguei no sono em meio os dizeres de meu pai.
"Vá até o topo da colina."
"Venha me encontrar."
As vozes dominavam minha mente, tão altas quanto um trovão e tão inumanas quanto possível.
Meu corpo estava leve e podia vê-lo, mas não conseguia senti-lo. Era como se eu não estivesse ali, mas estava. O chão estremeceu e dele saiu uma gigantesca nuvem prateada de inomináveis dimensões.
Um cheiro horrível e um estalar repugnante de órgãos faziam parte do coro que caracterizava os sons vindos do interior da criatura.
"Vá até o topo da montanha e lá você me encontrará. Teu pai me serviu bem, agora é você quem o deve fazer."
Me levantei e vesti meu sobretudo como se uma força maior estivesse a me controlar. O cheiro pairava no ar, forte, porem aceitável. Como se meu corpo estivesse adaptado aquilo. Uma pessoa comum com certeza teria náuseas.
Abri a portas e corri para o pé da montanha. As arvores estremeceram e um som trovoento percorreu o alto da montanha central.
Uma massa disforme se arrastava em meio a escuridão, não pude vê-la mas ela pôde a mim. Só podia ver a areia, a terra e as pedras sendo empurradas e as arvores sendo derrubadas. Ela era imensa, assustadoramente imensa. Senti uma pontada na minha insanidade e comecei a chorar. E depois rir.
Meu pai não estava louco, eu estava. Uma pedra tocou meu sapato. Pude ver a terra se mexendo, e o cheiro nauseante.
Senti uma pontada no estomago e senti meu peito dilacerar-se. Um trovão.
"Os outros o aguardam. Eles querem um pedaço de ti também"
Que outros?
"Os outros como eu. Aqueles que vivem alem do espaço, aqueles que caminham pelo tempo. Aqueles que estão aqui antes de vocês."
"Todos querem um pedaço da raça humana e você, por ora vai servir como consolo."
Fui arrastado para o nada, rodeado por nuvens metálicas e sons orgânicos, não eram vozes. Um som digestivo. E um trovão.
"Sorria, humano. Hoje você salvou a humanidade."
- Lágrimas de Gasolina
No inicio fui cético, tantas anotações, tantos recortes de papel. Meu pai era um velho babão que quando não estava trabalhando na biblioteca, estava trancado no quarto. Não me impressiona o quanto Kin, minha mãe, o odiava.
As montanhas das reportagens faziam contato com a parte mais periférica da minha cidade. Os recortes, sempre de jornais locais, mostravam sempre as consequências dos avistamentos, os desaparecimentos, mas nunca se quer tinham falado da forma física da suposta criatura. Adoraria saber como meu pai a havia visto e descrito suas dimensões e formas.
Certa noite, peguei no sono em meio os dizeres de meu pai.
"Vá até o topo da colina."
"Venha me encontrar."
As vozes dominavam minha mente, tão altas quanto um trovão e tão inumanas quanto possível.
Meu corpo estava leve e podia vê-lo, mas não conseguia senti-lo. Era como se eu não estivesse ali, mas estava. O chão estremeceu e dele saiu uma gigantesca nuvem prateada de inomináveis dimensões.
Um cheiro horrível e um estalar repugnante de órgãos faziam parte do coro que caracterizava os sons vindos do interior da criatura.
"Vá até o topo da montanha e lá você me encontrará. Teu pai me serviu bem, agora é você quem o deve fazer."
Me levantei e vesti meu sobretudo como se uma força maior estivesse a me controlar. O cheiro pairava no ar, forte, porem aceitável. Como se meu corpo estivesse adaptado aquilo. Uma pessoa comum com certeza teria náuseas.
Abri a portas e corri para o pé da montanha. As arvores estremeceram e um som trovoento percorreu o alto da montanha central.
Uma massa disforme se arrastava em meio a escuridão, não pude vê-la mas ela pôde a mim. Só podia ver a areia, a terra e as pedras sendo empurradas e as arvores sendo derrubadas. Ela era imensa, assustadoramente imensa. Senti uma pontada na minha insanidade e comecei a chorar. E depois rir.
Meu pai não estava louco, eu estava. Uma pedra tocou meu sapato. Pude ver a terra se mexendo, e o cheiro nauseante.
Senti uma pontada no estomago e senti meu peito dilacerar-se. Um trovão.
"Os outros o aguardam. Eles querem um pedaço de ti também"
Que outros?
"Os outros como eu. Aqueles que vivem alem do espaço, aqueles que caminham pelo tempo. Aqueles que estão aqui antes de vocês."
"Todos querem um pedaço da raça humana e você, por ora vai servir como consolo."
Fui arrastado para o nada, rodeado por nuvens metálicas e sons orgânicos, não eram vozes. Um som digestivo. E um trovão.
"Sorria, humano. Hoje você salvou a humanidade."
- Lágrimas de Gasolina
Nota do Autor:
Este conto faz referencia ao Horror de Dunwich de H.P. Lovecraft
Este conto faz referencia ao Horror de Dunwich de H.P. Lovecraft
terça-feira, 10 de setembro de 2013
4, 8, 15, 16, 23, 42
Abri os olhos, desbravando um novo mundo.
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.
Gritei.
Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.
Foi quando eu ouvi.
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
Procurei o som, arfando.
Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
- Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.
Foi quando eu ouvi:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.
Meu sangue e meu vomito ressecados.
Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.
- Dedos Azuis
Porém, mais torturante do que a sádica luz que rasgava minhas retinas, era o toque do gélido metal em minha pele.
Olhei para meus pulsos magros, machucados, rasgados. Pendendo como uma coleira, algemas enferrujadas me imobilizavam. Segui sua extensão metálica até o fim, para deparar-me com uma tubulação de pia horrivelmente suja.
O chão ao redor estava repleto de sangue, lama e banha. No centro da cozinha abandonada, uma mesa de mogno jazia com um gigantesco porco estripado em cima. Moscas banqueteavam-se enquanto grossas camadas de vermes caiam no chão, em uma disputa sangrenta pelo cadáver em putrefação.
Gritei.
Desesperado, tentei soltar as algemas, urrando enquanto o metal esfolava minha pele.
O sangue, agora encrustado, começava a endurecer, mas novas levas escorriam por entre meus dedos. Em súbito desespero, forcei minha mão em um ângulo descomunal. Uma dor errônea preencheu minha garganta, somada ao desespero do membro recém-fraturado.
Vomitei em meu colo. Continuei urrando em desespero, coberto de fluídos e com os braços em carne viva.
Foi quando eu ouvi.
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
Procurei o som, arfando.
Meus olhos casou com a luz refletida na esbranquiçada pele de uma pequena garota. 8, talvez 9 anos. Parada, na soleira da porta da cozinha. Cabelos louros tão brancos que mesclavam-se uniformemente com sua pele sedosa. Olhos grandes, brilhantes, e apavorados.
Sua pequena boca curvado em um ângulo de súplica, sempre repetindo:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
E de repente, a sequência parou. Tudo ficou quieto, como se todo o som do mundo acabara de ser sugado por um gigantesco ar condicionado. Ela levantou o pequeno dedo em riste à frente da boca, e sibilou, pedindo não verbalmente para que eu ficasse calado. Caminhou a passos curtos e rápidos a minha direção, ajoelhou-se ao meu lado e destrancou as algemas em minha mão, com uma pequena chave que trazia ao pescoço. Levantou-me desajeitadamente, e forçou-me a correr, apoiando as pequenas mãos em minhas costas.
As dores e os cheiros nostálgicos deram espaços para a euforia da oportunidade. Corri por entre a porta, saindo em um gigantesco corredor. Inúmeras portas preenchiam ambos os lados da passagem.
Olhei confuso para a garota, que estava atrás de mim, e ela apontou para qual deveria ser meu destino. Corri para a porta, abri, e me deparei com mais um corredor.
Continuei correndo, indo sempre em direção ao destino cedido pelo pequeno dedo da garota. Inúmeros corredores passaram-se, inúmeras portas.
Um sorriso começou a abrir-se em meu rosto.
- Vou sair daqui, vou sair daqui... - comecei a sussurrar, extasiado.
Mais um corredor. Virei-me e olhei para trás.
A garota apontou para outra porta.
Forcei-me contra a soleira e continuei meu caminho, correndo para a ... Um estrondo metálico preencheu o ambiente, quando meu joelho chocou-se colossalmente com alguma superfície dura. Cai no chão, urrando de dor.
Foi quando eu ouvi:
- 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42... 4, 8, 15, 16, 23, 42...
A garota parada na soleira apenas sorriu, e eu pude ver; um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação. Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.
Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.
As luzes se acenderam. Olhei ao meu redor. Olhei para meu pulso. Algemado no chão de uma velha cozinha imunda com sangue e vomito ressecados.
Meu sangue e meu vomito ressecados.
Mas agora, na mesa, não jazia um porco. Deitado, com a barriga voltada para cima, estava meu corpo, estripado. E eu ali ao lado, assistindo à tudo aquilo como um filme de sessão da tarde.
- Dedos Azuis
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Rotina
Sabe, eu nunca andei de ônibus.
Nunca vi tantas pessoas andando pela rua.
Vejo um mendigo jogado no frio. Vejo uma briga no meio dos carros.
Uma matilha de cães de rua tomam conta do asfalto, ouço uma batida oca sob meus pés.
Olho para trás e vejo um dos cães deitados no chão.
Talvez alguém devesse falar algumas coisa, é talvez alguém devesse.
Por que ninguém diz nada? Parecem tão apáticos perante o caos que chega aos meus olhos pela janela.
Sera que apenas eu assisto de verdade o que acontece lá fora? Será que eles não vêem? Sera que eles não sofrem?
Será que um dia me tornarei um ser humano tão cansado da vida que vou simplesmente ignorar os problemas alheios e apenas remoer os meus?
Será que me tornarei um escravo apático do sistema, que vai olhar para um mendigo de rua e cuspir na tua palma carente?
O ônibus para. Segunda-feira.
Eu tenho a semana toda para descobrir.
"Ou o resto da vida."
Uma voz rouca. Ouço um tiro.
Este é o terceiro suicídio este mês.
- Lágrimas de Gasolina no ônibus 3.85
Nunca vi tantas pessoas andando pela rua.
Vejo um mendigo jogado no frio. Vejo uma briga no meio dos carros.
Uma matilha de cães de rua tomam conta do asfalto, ouço uma batida oca sob meus pés.
Olho para trás e vejo um dos cães deitados no chão.
Talvez alguém devesse falar algumas coisa, é talvez alguém devesse.
Por que ninguém diz nada? Parecem tão apáticos perante o caos que chega aos meus olhos pela janela.
Sera que apenas eu assisto de verdade o que acontece lá fora? Será que eles não vêem? Sera que eles não sofrem?
Será que um dia me tornarei um ser humano tão cansado da vida que vou simplesmente ignorar os problemas alheios e apenas remoer os meus?
Será que me tornarei um escravo apático do sistema, que vai olhar para um mendigo de rua e cuspir na tua palma carente?
O ônibus para. Segunda-feira.
Eu tenho a semana toda para descobrir.
"Ou o resto da vida."
Uma voz rouca. Ouço um tiro.
Este é o terceiro suicídio este mês.
- Lágrimas de Gasolina no ônibus 3.85
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