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sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Exílio

Minhas mãos tentam me livrar,
Pregos e cruzes causam tanta dor,
Em meus olhos lágrimas de sangue.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.
Meus pés não pisam o chão,
Minha mente alada.
Sou o que voa sem rumo, sou o que voa sem rumo.
Minhas asas incendeiam.
ícaro não foi um anjo, tampouco foi um homem.
Minha morada - o exílio.
O pecado doce mel.
Quando estou ao alto, vejo a vergonha dos homens.
Quando estou a baixo, vejo a vergonha de Deus.

- Luís Fernando Lançoni

Icaro despencando dos céus
Fallen Icarus by phamngocthang

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Lágrimas da Noite

Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Enquanto a noite cura as feridas.
Antes do sol nascer, todas as dores terão partido.
Não se esqueça que os anjos visitam os teus sonhos
E que teus pesares serão leves como pluma
O abismo do medo não irá se alimentar
De suas leves esperanças.
Os anjos estarão aqui nesta noite
Lágrimas caem enquanto a noite
Espalha o teu encanto,
Alegra-te pois não estará sozinho
Os anjos estarão ao seu lado
Teus ombros serão cobertos
Por manto divino,
Terá os teus olhos o brilho da esperança
Teu sorriso será belo
E andará pelas montanhas das dores
Pelos vales sombrios.

- Luís Fernando Lançoni

Homem sozinho em floresta escura
Imagem Ilustrativa

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Eternas Lembranças

Ensine algo aos teus filhos
Diga a eles que Davi venceu Golias,
Não trajava armaduras de ouro,
Não usava espadas de duro metal,
Davi venceu Golias,
Vestia trapos e tinha em punho uma pedra.
Pedra de tiro certeiro.
Não deixe o ouro guiar os teus passos,
Pois teu peso é severo,
Teus braços não irão suportar.
Segue leve como os flamingos
Voando rumo ao sol.
Ensine algo aos teus filhos
Os dias passam
Cada vez mais caminhamos
Para o último de nossos dias.
Não espere ser o último à partir
Permita que chorem por você,
E que as tuas histórias vivam  para sempre
Que teu sorriso não morra
Porque para alguns
Serão boas e eternas lembranças.

- Luís Fernando Lançoni

Davi levantando a cabeça decepada de Golias
David and Goliath by Trevone David

quinta-feira, 17 de março de 2016

Sem Reis ou Deuses #1

Quando criança, lembro-me de caminhar a mando de uma voz autoritária que dizia para onde deveria ir ou quais caminhos não seguir.
Naquela época, nunca me ocorreu a possibilidade de sair das garras destas vozes, porém uma janela sempre ficou aberta e a espera de alguma coisa que pudesse esclarecer minha mente nebulosa. Dado que grande parte das alternativas ou esclarecimentos apresentados ao meu pequeno cérebro de criança não passavam de meras ilusões ou projeções da mesma realidade de submissão.
- Se você for tomar banho agora, poderá assistir televisão até mais tarde.
- Se comer toda a sua comida, poderá comer a sobremesa.
Sei que a maioria dos pais não tem a mínima intenção de prejudicar seus filhos, mas estas barganhas familiares contribuíram enormemente para a prosperidade da realidade em que autoridades são necessárias, fizeram com que nos acostumássemos com a presença deste falso tipo de negociação, onde não existe uma troca de fato, mas uma força possuidora de todos os meios, formas e produtos dessa negociação, resultando em obediência do comandado e soberania do comandante. - A mesma força que lhe tira uma liberdade é a mesma que a lhe oferece de volta em troca de outra.
Passei a tomar banho para assistir televisão e comer toda a comida para comer a sobremesa, mas não para me manter limpo ou bem alimentado. Não me perguntava o "por quê?", mas o "para que?" - sem nunca cogitar a possibilidade de compreender os reais motivos para se fazer o que fazia. Sem dúvida, a compreensão seria muitíssimo mais eficaz que qualquer tipo de barganha feita.
Para minha felicidade, meus pais se preocupavam avidamente com o meu bem-estar, por isso - e por ser fruto dessa obediência incompreensível - nunca ousei questionar suas reais intenções - e nem ouso.
Posteriormente, descobri que os dois me preparavam para uma realidade iminente em que a submissão é inescapável, ao mesmo tempo em que diversas famílias faziam o mesmo com suas crianças. O apelo à autoridade era explicita em algumas ocasiões, o que mostrava o quanto éramos dependentes de doutrinas para que alguns argumentos surtissem efeito.
Certa vez, meu pai girou os olhos furiosamente e gritou alguma exigência - raramente me batia - e imediatamente perguntei:
- Por quê?
E meu saudoso pai respondeu:
- Porque eu estou mandando, eu sou seu pai! - E funcionou.

Como dito anteriormente, para minha sorte, meus pais garantiriam o meu bem-estar incondicionalmente, sabido disso, tornava-se desnecessária a compreensão das decisões tomadas por eles em relação a mim. Afinal, as crianças têm a necessidade de serem comandadas pelos adultos até atingirem a próxima etapa do crescimento, pois se sabe que na hora de tomar atitudes racionais ou que preservem a própria integridade física, não é difícil perceber suas incapacidades perante o mundo e a soberania cognitiva dos mais velhos.
Quando cheguei ao ensino fundamental, algumas crianças já haviam aprendido a ler e escrever, a contar até dez e a ver as horas, tudo feito sob a tutela de uma voz maior. Não nos fora ensinado a reconhecer o valor do aprendiz ou da capacidade individual, este fardo era carregado exclusivamente por uma única pessoal da classe - a voz maior.
Quando avancei para os próximos estágios, fui apresentado ao sistema educacional que conhecemos, já não havia exceções, eu e as outras crianças nos tornamos números, a inércia deixou de ser uma opção, o estudo forçado para garantir uma vaga no próximo nível se tornara realidade, estudar e memorizar o que fosse necessário para progredir num sistema criado por eles, do qual não existia possibilidade de fuga - sempre sob a tutela de uma voz maior que nos dizia o que estudar como estudar, como se comportar, como sentar e como utilizar nosso tempo livre.
Desde cedo, nos ensinaram que a melhor parte de um diálogo é aquela em que ouvimos o outro, deram-nos a falsa sensação de que a verdade não pode estar em nós mesmos, sendo uma qualidade inerente a todas as outras pessoas; ensinaram-nos a não desobedecer as autoridades, pois estas exprimiam o melhor que há de nós e que estes são os guardiões do interesse comum - ou, caso queira, nossos eternos pais; passaram a nos ameaçar com a diretoria, criaram um sistema de punições e disseram:
- Caso vocês se comportem, vocês serão beneficiados!
Mas se esqueciam de dizer que a ausência de punição não é um beneficio, mas um estado natural do homem.
Embora não concordasse com os métodos utilizados ou com o sistema de ensino empregado, não me dei o trabalho de recorrer através de qualquer espécie de boicote ou reclamações dirigidas aos meus pais, pois isto nunca fora um grande empecilho no meu trajeto e me apaziguava a idéia de poder mudar para outra escola em qualquer momento, além de nunca ter me feito a seguinte pergunta:
- Por que devo me submeter à um sistema que não concordo para aprender coisas pelas quais não tenho interesse?

Na escola, mesmo que o individualismo e a exclusividade fossem massacrados pelas regras e sistema de educação da instituição, onde toda espécie de coletivismo era incentivado e a submissão um fator onipresente, os clientes - isto é, os pais dos alunos - ao sentir que seus filhos não estavam satisfeitos com o serviço, os mudariam de escola.
Comigo, por se tratar de uma escola particular, caso o dono da empresa se deparasse com um número relevante de reclamações, muito provavelmente algumas regras e métodos mudariam, caso contrário, os alunos seriam obrigados a mudar de escola e o dono perderia dinheiro.
No ensino médio, descobri que o sistema de educação não poderia ser alterado, pois o mesmo era regulado pelo Estado e aquelas escolas que não seguissem o modelo imposto, não seriam reconhecidas pelo órgão fiscalizador e não poderiam ter o título de Instituição de Ensino, o que impossibilitaria satisfazer qualquer um que buscasse outro sistema de educação em outra escola.
Por fim, estávamos satisfeitos - mesmo não concordando - com o sistema de educação imposto e com as regras e os métodos da instituição. Além de estarmos plenamente conscientes da oportunidade de poder mudar para outra instituição quando bem entendêssemos. Esta satisfação provinha indiretamente do medo de aborrecer os clientes que o dono da empresa carregava, seu âmago sabia que desagradar os alunos seria o mesmo que implorar para que as portas de sua escola se fechassem, logo, minha liberdade de escolha garantia o meu bem-estar, mesmo que este não fosse o real objetivo da instituição.
No final do ensino médio, uma pergunta assolava minhas entranhas:
- Se eu não podia tomar algo de algum colega e mais tarde presenteá-lo com aquilo sem parecer antiético, então por que eu permitia que as autoridades o fizessem?
E começou.

Continua

- Lágrimas de Gasolina


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Adulto Infeliz

Tirou uma folha amassada do bolso e a desdobrou com cuidado, alisando suas partes violadas pela violência do caminhar e da pressão exercida por suas roupas, levantou os olhos e disse:
- "Sabe, eu cresci com uma cabeça cheia de opiniões de pessoas vazias".
Um homem estava em pé em frente ao banco em que um pequeno adolescente de cabelos escuros estava sentado, uma garoa fina caia sobre os ombros das duas figuras e algumas gotas escorriam pelo nariz choroso daquela criança crescida e desolada.
- "Ora essa" - pensou o homem - "mas você não passa de uma criança".
Olhou para aquelas pequenas mãos que dobravam um papel e o protegiam do vento e da chuva. Respondeu:
- "Como assim, cresceu? Você ainda é muito jovem para se lamentar por sua infância" - o garoto não o olhava - "você está vivendo a droga da sua infância" - o garoto olhou para cima, encarava os botões da camisa social branca em sua frente - "quantos anos você tem? Dez? Nove?" - Completou.
- "Onze." - Cochichou o garoto - "você não entenderia" - abaixou os olhos - "e nem precisa" - disse para si.
Eram quase seis horas da tarde, a garoa tornara-se tão fina quanto uma tênue neblina serrana, os pássaros haviam parado de cantar e não havia pessoas no parque, apenas algumas cadeiras vazias e lixeiras cheias de lixo.
- "Está ficando tarde, garoto." - Comentou após alguns segundos de silêncio - "os seus pais virão te buscar ou você esta pensando em ficar por aqui esta noite?" - Arriscou, não aguentou e sorriu.
Era indiferente, não importasse a pergunta que fosse feita, nada o atingia, sua cabeça estava em outro lugar.
- "Eu não tenho pais" - disse, indiferente - "bom, na realidade eu tenho, mas quase não os vejo, eles trabalham demais." - Complementou.
- "O problema não era esse" - pensou o homem - "afinal todos temos problemas com nossos pais durante a adolescência, alguns adolescentes gritam e se revoltam contra tudo e todos enquanto outros preferem sobrecarregar o departamento de tristezas incubadas do cérebro, porém os dois crescem e se tornam adultos tristes" - sua mente prosseguiu - "Assim como eu" - e sua boca concluiu.
O garoto o encarava sentado com as mãos no bolso sobre um banco de madeira envelhecido.
"Assim como você, o que?" - Perguntou calmamente.
Não havia percebido que teria proferido quaisquer palavras audíveis, correu uma das mãos até o queixo, mas não conseguiu evitar que as palavras que já havia dito chegassem aos ouvidos do garoto.
- "Disse que trabalho demais, garoto." - Lembrou-se das crianças em casa - "temo que meus filhos se sintam assim" - fez um movimento com o rosto -  "como você" - esperou - "não consigo suportar a ideia de que algumas crianças estão largadas pelas ruas ou sozinhas por ai" - suspirou, olhava para o garoto sentado a sua frente - "foi por isso que me tornei o que sou hoje." - Concluiu levantando as mãos num gesto indefeso.
O garoto o olhava, podia ver uns pequenos fios saindo das narinas e do queixo do homem em sua frente, jurou para si que não mencionaria este fato, percebeu que a chuva cessara e perguntou:
- "E o que você é hoje?”
Um sorriso triunfal serpenteou pelos lábios do homem, fez a expressão que os adultos fazem quando conseguem encaixar as falas de uma vítima numa piada de mau gosto, como se houvesse previsto a pergunta e tivesse uma resposta preparada desde a noite do dia anterior. Respondeu de olhos cerrados e de sobrancelhas levantadas:
- "Um adulto infeliz" - disse recitando uma música embutida numa fala de criança.
O garoto o encarou por um ou dois segundos.
- "O senhor não me parece infeliz" - disse - "até acho que você foi uma criança bem alegre." - Concluiu.
O homem tinha afundado o rosto na blusa para evitar o vento.
- "Sabe, garoto" - emergiu o rosto - "o que faz os adultos serem chamados de adultos infelizes não tem nada a ver com ser ou não ser feliz, mas com o fato de você conseguir fazer os outros serem felizes." - Falou como se desse uma lição de moral em um de seus filhos. - "E sim, eu fui uma criança alegre." - Respondeu ao se lembrar da afirmação.
O garoto abaixou a cabeça e pensou por alguns segundos, pegou o papel do bolso e deu uma risadinha, o guardou de volta.
- "Então isso quer dizer que eu vou ser um adulto feliz?" - Perguntou, olhando para o rosto mal-humorado em sua frente. Riu, insolente.
- "Como assim?" - Perguntou o homem ao perceber que sua lição de moral nem sequer atingiu os ouvidos do garoto.
- "Veja bem, se você era uma criança alegre e se tornou um adulto infeliz, eu que sou uma criança infeliz serei um adulto alegre, certo?" - O homem o encarava rindo.
- "Não necessariamente" - respondeu irônico.
O sorriso do rosto do menino desapareceu.
- "Como assim?" - Gaguejou.
Queria ter piedade, mas sempre fora um realista incurável.
- "Garoto, não é assim que funciona" - começou - "não é só porque eu fui de um jeito e terminei de outro exatamente contrario, que vai acontecer o mesmo com você. Nem todas as crianças ou adultos são iguais" - esperou, o garoto o olhava atento - "você vai conhecer crianças tristes que se tornarão adultos tristes, conhecerá crianças felizes que se tornarão adultos felizes e conhecerá pessoas como eu, que nascem de um jeito e terminam de outro" - continuou - "você vai pra escola, vai crescer e vai pra faculdade, vai fazer escolhas, vai arranjar um emprego, vai comprar um carro, vai encontrar uma garota que te aceite infeliz ou feliz, vai ter filhos, vai fazer mais escolhas, vai comprar uma casa, vai escolher um bichinho e todas essas coisas vão dizer se você vai ser um adulto feliz ou infeliz." - Concluiu.
Estava de cabeça baixa, tinha um papel na mão. Levantou e perguntou:
- "Se é a gente que escolhe tudo isso, por que existem pessoas tristes?" - O garoto triste estava mais triste. - "É por causa do que os outros adultos dizem, não é?" - Sua cabeça estava abaixada.
O homem reconheceu.
- "Sim, é por causa do que os outros adultos dizem." - Abaixou a cabeça.
O garoto levantou a cabeça.
- "E as crianças?" - Perguntou.
O homem abaixou, dobrando os joelhos na altura do banco.
- "O que tem as crianças?”
O garoto puxou o braço do homem e colocou um pedaço de papel em sua mão.
- "Elas podem fazer crianças felizes serem infelizes?" - Perguntou, ainda segurava o braço do homem.
Ele se aproximou um pouco, ainda de joelhos e viu os olhos lacrimosos do menino.
- "Não sei, acho que sim." - Disse.
No mesmo instante, o garoto pulou no peito dele, eram dois estranhos, nunca haviam se visto e o garoto o abraçava e soluçava. O homem ainda estava de joelhos enquanto o garoto molhava a camisa úmida pela chuva com suas lágrimas, ele passou os braços ao redor do garoto e o levantou no colo. Lembrou-se do papel em sua mão e o desdobrou, o leu em voz baixa, o garoto não o ouviu.
- "Feioso" - deu uma risadinha ao ler, mas parou, pois se lembrou de todas as vezes que ouvira palavras de mesmo efeito.
- "Você não deveria se preocupar com o que os outros pensam." - Suspirou o homem.
O garoto soluçou.
- "Eu sei".
O homem respondeu.
- "Não, não é pra você. Estou falando isso para me lembrar mais tarde".
 
- Lágrimas de Gasolina 




domingo, 1 de novembro de 2015

Arrependimento

Uma das vozes veio do alto, deslizando sobre meus ouvidos e ombros como uma garoa fina.
- "Mas, por que tens esta paixão horrenda pela tristeza e pela morte?”.
Recostei-me sobre o epitáfio áspero de letras gastas e em relevo, onde apenas passagens vagas, escritas pela própria propriedade sem sentimento, repousavam. Tirei a rolha da garrafa de vinho e afastei algumas flores mortas que descansavam sobre o concreto velho, experimentando a dor de não ver nenhuma alma viva rondando por entre aqueles blocos que serviam para materializar a lembrança do que um dia fora vida.
- "É o que me resta." - respondi enquanto direcionava o bico da garrafa para meus lábios sem vida.
A voz tornou-se tempestade.
- "Você sabe que eu não estou falando de agora!" - esbravejou.
As coisas sempre foram assim, sempre pensando no fim. Uma afobação implacável para concluir as coisas. Em qualquer viagem ou plano que fazia, acabava por não concluir porcaria nenhuma, porque sempre pensava no que fazer quando atingisse o resultado, sem mesmo antes atingi-lo de fato. Morria aos poucos a cada projeto ou aspiração, não se preocupara com relacionamentos por temer pelos seus devidos fins, nunca visitara os pais por medo de qualquer dia ter de assistir suas devidas partidas, nunca disse - "Olá, como vai?" - por receio de dizer - "Adeus, se cuida".
Fez em vida o que não aprendera com a morte, sentado sobre a cova de algum estranho, presenciando o fim absoluto de qualquer coisa - a morte. Até pensara, enquanto sentava-se sobre o concreto e apoiava a garrafa de vinho lacrada sobre um dos joelhos - "Como irei voltar para casa quando ficar bêbado?" - fez todos os planos antes mesmo das consequências o afligi-lo de fato, mas não confunda com preparo a afobação pela conclusão, que descarta cada passo de uma caminhada até a padaria que for. Preparo é não sair de casa sem dinheiro, armado para não ser assaltado e de pés calçados para não serem feridos. Afobação é pensar no pão em seu estomago e se sentir saciado com isso.
- "Eu não sei do que você está falando!" - gritei para os céus neblinados pela chuva que se revelava através das luzes dos postes. - "Não sei, não sei!" - mas sabia.
A voz se tornou áspera e camuflou-se por entre meu ombro direito, materializando-se numa mão negra repousada sobre meu ombro e um cochicho no ouvido esquerdo.
- "Estou falando da viagem nunca feita por medo da chuva no ultimo dia que não aconteceu, falo da ligação que não fizera, falo dos planos que descartara quando jovem.”
Abaixei a cabeça enquanto o peso de dedos imateriais se dissipava, coloquei a garrafa intocada de lado e a tampei - "Algum arrependimento?" - me perguntei.
- "Vários, centenas!" - a voz respondeu em seguida.
Nunca pensei nos arrependimentos.

No restante daquela noite,  apenas uma garrafa cheia fizera companhia ao epitáfio, provavelmente algum funcionário do cemitério faria bom uso na manhã que surgia.

- Lágrimas de Gasolina


Imagem por Sandro Fortunato
Imagem por @Sandro Fortunato

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Monólogo

Você já teve a sensação de não fazer parte de algo?
Sentar na cadeira do ônibus, olhar à sua volta e não encontrar nada?
Não encontrar uma aspiração de crescimento, não encontrar alguém que você possa simplesmente conversar sobre o futuro?
Em todo lugar há pessoas implorando por ajuda, mas que nada fazem para merecê-la, já viu alguma delas?
Pessoas que preferem continuar sentadas na mesma cadeira de secretária que se sentaram desde a época do ensino médio; conhece? Sim, as mesmas que perguntam o que fazer, mas não como e muito menos por que fazer o que se faz.
Já parou para notar quantas pessoas estagnaram conscientemente no patamar em que se encontram?
O que você aprendeu no dia de hoje? Você utilizou o que aprendeu? Pelos menos ensinou alguém? Passou adiante?
Pelo amor que você tem pela praticidade que este aparato eletrônico na sua frente te proporciona, pelo amor que você tem pelo conforto da sua cama, pelo amor que você tem à toda projeção intelectual existente, me diga que você está ai! Em algum lugar. Por favor.
- "Mais um dia se passou e foi mais um dia em que não utilizei a Fórmula de Bhaskara!" - E caem na risada.
Eu simplesmente não compreendo. Não compreendo o fato de não desejarem algo mais.
Sempre vomitam o mesmo tipo de desculpa e, peço perdão aos que se desculpam com honestidade por eu generalizar todos vocês, mas não me aguento mais.
As pessoas estacionaram, amoleceram e esqueceram que o mundo é dos grandes e não dos pequenos estagnados.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado ganhem alguma bolada em dinheiro.
Imploram e oram aos céus para que um aumento apareça no holerite do inicio do próximo mês.
Imploram e oram aos céus para que em algum dia abençoado a sorte grande bata a porta e diga:
- "Ei, camarada! Seu grande dia chegou! Isso mesmo, a partir de hoje você poderá fazer o que sempre sonhou e deixar de lado todo esse esforço que você faz apenas para garantir o teu básico. Agora sente-se ai, vamos iniciar seu grande sonho, a partir de hoje você não precisará fazer mais nada!"
Os corruptos, os ignorantes, o compassivos, os estacionários, os apáticos, os desonestos, os oportunistas, os oprimidos.
- "Ei, você ai no fundo, que acabou de se levantar. Sim! Você mesmo! Gostaria de dizer algo? Não? Ah, você só estava indo ao banheiro. Tudo bem, me desculpe. Achei que ia dizer algo... Não? Tudo bem. Não sabe se vai voltar? Mas acabamos de começar. Ah, tudo bem. Não tem problema."

Alguém me diga que estou errado, que não são todos assim.
- "Oi, você! É, você! Gostaria de dizer algo? Ah, você só quer um carregador para o seu celular? Ah, tudo bem." - Não está nada bem.

Por favor, alguém me diga que estou errado!
- "Posso ir ao banheiro?"

- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Sem Título

Depois do silêncio fica o eco das palavras perdidas.
Ali, quando tudo o que não foi dito finalmente pede passagem, bem ali há o ponto que impede a continuação. No exato local em que é possível sentir a mão invisível que te prende. Onde o arfar não é mais ouvido e o esfregar de mãos vazias é inevitável. Há uma silhueta que não sai da vista e lágrimas nos olhos. Tanta vida não vivida em plenitude.
Note, as pessoas na rua sempre tem algo a esconder. Seus crimes hediondos foram passionais e juvenis, das cartas rasgadas às chamadas não atendidas. Piores são aquelas que sequer fizeram a ligação. Não é problematização suficiente que explique todas as fugas, a maioria sequer recorda o motivo, apenas sabem que um elo foi quebrado e não há mais conserto.
Eu vejo pessoas partidas sendo inteiras com tudo que tem, e é bonito como um soldado ferido que continua a lutar. Eu me vejo moída no escuro do quarto e completa no espelho. Há um silêncio que me permite sentir em plenitude que nada jamais será total, o recuso como quem finge que jamais teve sequer uma noite insone por pensar demais. Mantenho-me na multidão para ter certeza de que todos vivem bem entre bandagens e cicatrizes, parece altruísmo, mas é egoísmo barato, não quero ser só no ato de ser só.
Sinto que sou inteiramente metade ou menos do que isso. Minha contradição me mantém sã, uma desculpa para ser o que me resta, seja lá o que for. Ainda não sou capaz de me ver por completo. Que assim seja por mil anos, me compreender seria desistir. Que seja assim até amanhã, esperança é bonita, mas dói tanto quanto a tristeza que a acompanha.
Não espere o tempo acabar para mudar uma vida.

- Maia

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Voltas do Mundo

Se minha biografia amorosa fosse escrita, o autor seria Hitchcock.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

Amores, aqueles, que vêm e duram até a eternidade, eterno por uma semana ou dois anos.

A minha certeza de ter o controle sobre tudo era quase arrogante.

Uma tentativa de independência.

Mas não existem razões para coisas feitas pelo coração.

É Renato... Seu subversivo, seu maluco "seu" sábio.

Aquela troca de olhares, o convite para o café .

Aqueles olhos azuis, aqueles olhos...

Um beijo e de novo me vi naquela situação que pensei ser eterna.

Pasmem! Eu não estava no controle.

Uma marionete seduzida por aqueles olhos azuis, uma feição angelical com um gênio demoníaco.

Meses se passaram, promessas que nunca havia feito e atitudes que nunca havia tomado.

Sacrifiquei meu orgulho, paguei meus pecados, fui substituído.

Falava sozinho, arquitetava conversas de reencontro, imaginava nossa viagem de lua de mel.

Mesmo sabendo que nunca mais seria minha, qualquer assunto uma esperança me arrancava gestos humilhantes.

Era sádico, era gostoso.

Meus conflitos ou meus demônios?

Talvez apenas meu ser...

Aquele desejo de suicídio após cada frustração.

Estava sendo castigado?

Por sorte ou azar o meu inverno chegou.

Agora é pra valer.

Frio e entediado.

Viciado em ironia, quase como um remédio diário usado para combater a frustração.

[...]

Aqueles olhos castanhos, aqueles olhos...

- J.A 

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Ensaio para um Mundo Melhor

Fizeram algumas marcas no chão, como se estivessem se preparando para algo.
Um dos participantes tropeçou, atingindo o solo e foi assim que tudo começou.
A platéia soltou um grito de dor, cantarolando com a sonoridade do baque feito pela colisão entre o palco e o rapaz.
Um dos participantes saiu de posição e se pôs a ajudar o companheiro. Parou ao seu lado e estendeu uma das mãos.
Ouviu-se alguém gritar ao fundo:
-Meu deus! Que lindo!
O ator caído levantou uma das mãos e agarrou o braço do companheiro de palco, que o ajudou a levantar, contraindo os ombros.
A platéia estava eufórica. Alguns gritavam, enquanto outros estavam em pé, batendo palmas.
Os dois amigos, de mãos dadas e levantadas para que todos pudessem ver, estavam no centro do palco e completamente iluminados pelo show de luzes que o palco proporcionava.
Todos lutavam para ver o que acontecia, não queriam perder um segundo daquele sentimento que absorviam dos atores.
Por fim, o rapaz dirigiu uma das mãos ao bolso e dele tirou uma flor, entregando ao companheiro, que aceitou de bom grado, expressando a completa e fugaz sensação de ajudar alguém.
A platéia delirou por alguns segundos, bateram palmas, assoviaram, bateram nas cadeiras e assoviaram mais um pouco.
As cortinas se fecharam.
Apagaram as luzes.
Os rapazes soltaram as mãos.
Um deles amassou a flor e jogou no chão escuro.
Removeram as marcas do chão.
Era apenas um ensaio.

- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 29 de junho de 2015

A Curiosidade Matou o Gato

O que?
Então quer dizer que não posso mais pensar?
Novamente?
Vamos fazer assim: Você fica com os teus pecados e eu fico com os meus!
Você guarda os teus defeitos e eu enfrento os meus!
Que tal eu pegar meus demônios e leva-los comigo para a igreja?
Eles iriam me apedrejar em praça publica!
Chamem as mulheres do passado e diga-as para que não lutem pelo que querem.
Diga aos negros que não deveriam ter atingido o patamar de seres humanos.
Vai lá, volta! Regresse!
"Mas cara, isso esta errado, todos o dizem. Algo de errado deve haver!"
Cale a sua boca seu pedaço de rocha imutável.
Atire em todas as direções. Existem alvos que não conseguimos ver.
Eles estão disfarçados de tabus e crimes.
Traga Satan, traga os Homens-bomba, traga o Egoísmo, o Preconceito, a Autodefesa.
Eu digo para os meus filhos serem livres!
Venham comigo crianças, carreguem teus fuzis e apontem para o inalvejavel. Atirem!
Acertem alvos jamais imaginados.
Prever é o mesmo que deixar de prever.
Se prender a previsões é o pior de todos os pecados!
A curiosidade não matou o gato! A curiosidade é a verdadeira vitima e ela não foi simplesmente morta!
Ela foi espancada e estuprada, esquartejada e posta dentro de um moedor de carne.
Seu autor? A comodidade de acreditar cegamente naquilo que te contaram.
Então, você leu em um livro que o que eu ando fazendo deve ser rotulado como errado?
Bom, eu li em vários livros, inclusive no teu, vivenciei e experimentei. Minhas experiências gritam que estou certo!
O chão sob meus pés diz que não devo sossegar!
A curiosidade deve agir como uma força da natureza, indomável e destruidora. Destruidora de filosofias.
Quer saber o que eu sou para a tua filosofia?
Eu sou um maço de cigarros! Sim, isso mesmo!
Estou explicitamente gritando o quão tóxico posso ser para ela, mas no fim das contas, quando você me tragar, sentirá um êxtase e uma calma tão profunda que quando menos perceber, estará viciado!
E no final, assassinarei tua vã filosofia!

-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Garantia

Eu só queria uma garantia.
"Por que esse apelo por segurança, por que agora?"
"Você tenta fazê-la segura o tempo todo, afinal, não é você quem realmente está implorando por segurança? Por que está se desculpando de novo?"
"Para com isso. Erga esse rosto inchado pelo choro e lute. Faça a droga dos teus planos, desgraçado. É de você de quem eles dependem e serão eles quem irão te acolher pro resto da tua vida. Aqueles que te amam que te acompanhem, porra!"
Não é tão simples. Nunca é. As coisas poderiam ser mais simples.
"Não, não poderiam, seu idiota. Se fossem simples você não teria se apaixonado. O que aconteceu com a aquele teu ódio pela simploriedade? Para onde foi? Por que agora o abraça como se fosse a unica salvação? Por que você não vai lá e diz que a ama? Vá e leve algumas flores, pois vai precisar."
Não é tão simples e não deve ser.
"Por que você não volta pro teu banho e abaixa a cabeça, como sempre fez?"
Não é tão simples.
Você não me entende. Eu quero pular na frente de tudo e lutar, construir uma barricada e um império atrás daquilo, mas isso não faz sentido, pois são essas coisas que a distancia de mim.
"Como assim, você está se desculpando de novo? Vá e o faça, porra!"
"Você quer tudo, mas quer que ela esteja lá, junto contigo. Então vá e faça. Faça dar certo! Qual é a porra do problema? Está se sentindo sobrecarregado, é? Pare de achar que as coisas precisam de explicação. O que falta pra você?"
Nada. Não falta nada.
"Então, por que não começa?"
Garantia.

- Lágrimas de Gasolina

sábado, 23 de maio de 2015

Souvenires

Então, no fim das contas devo ser influente.
Disseram que a tomada do sucesso profissional caminha pelo vale da influencia.
Influenciar os outros a acreditar nas minhas mentiras, é isso?
Será que o sucesso pessoal dá as mãos à realização profissional?
Eu não acredito nisso e desacredito, ainda mais, nas pessoas que acreditam nisso.
Não anseio por poder, embora me apeteça a ideia de comandar e dominar. Isso deve ser alguma falha da minha humanidade. Este anseio pelo controle.
Todos somos controladores, por isso prezamos tanto pelo autocontrole.
Acredito que haja algo mais.
É claro que eu adoraria ter imensuráveis posses ou quaisquer outros bens materiais, não sou nenhum hipócrita para negar tal coisa.
O sucesso pessoal é mais abrangente, mais profundo, por assim dizer. Acredito que a influencia possa até ser importante ferramenta em determinados casos, mas somente a compreensão é o que realmente deve ser levado em conta.
Compreender, ser empático, se por no lugar de outrem, ou melhor, no meu próprio lugar num determinado contexto.
Compreender o que fora feito e o por que de tê-lo feito.
Relevar a inexperiência, ou melhor, compreende-la.
Lidar com os erros como a bagagem de uma longa viagem, que começa com malas vazias e que se enchem com o decorrer. Caminhar sem arrependimentos.
Enfrentaremos rios ou, quem sabe, mares de impasses ao decorrer desta caminhada.
Pararemos em cada barraquinha de souvenires desta viagem e compraremos os chamados erros, compreenderemos o por que de ter lhes pagado tais preços e os carregaremos com orgulho.
Os mostraremos aos nossos filhos e diremos que existem souvenires mais em conta, mas nunca os pagaremos para eles, pois não podemos. Podemos apenas dizer.
E no final das contas, poderemos olhar pelos espelhos do passado durante as noites mal dormidas, olhar com satisfação e orgulho e, assim, voltar a dormir.
E voltei a dormir.

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Como o Vento

Existe um espirito?
Se existe ei de escrever sobre!
Por que escrever a respeito de algo que não posso tocar?
Se posso senti-lo, posso traduzi-lo em letras? Ou quem sabe... Pelo menos tentar.
Hoje foi uma das vezes em que senti a chamada paz de espirito.
Uma arvore retorcida logo ali.
Um caminho que acabasse em um sinal fechado.
A falta de pressa, ou melhor, vontade de andar. Caminhar, apenas.
Ir logo ali e voltar.
Ficar em silencio.
Ficar quieto. Não me expressar.
Dizer o que sinto, mas não como.
Dizer o que fiz, mas não o porque.
Não dever satisfações, apenas estar satisfeito.
Os problemas vieram, ah, e como vieram. Vieram como a brisa, pois eu reagi como a brisa.
Não esbravejei e nem bati de frente. Não peguei um resfriado ou nada do tipo.
Simplesmente, dancei conforme a musica.
Duas massas de ar, vulneráveis, se tocando e girando, valseando pelo espaço da existencia.
Pregando por aquilo que faz mais sentido, pelo menos para a mim, para minha vida.
Fazendo a diferença sem impor nada. Sem dizer uma simples palavra.
Eles vieram, foram vistos, sem analise, e resolvidos. Os chamados problemas, os chamados impasses.
Passaram.
Esperei o sinal abrir. Não superei expectativas, pois não as criei. Fui contemplado por uma satisfação absoluta.
Como satisfazer aquilo que se não buscou sanar?
Isso é o espirito e é para isso que vivemos.
Eu não posso dizer qual é o sentido da vida, mas posso dizer qual é o meu sentido de existir.
Fazer a diferença pelo simples fato de existir.
Satisfazer o que não se busca sanar.
Não criar pretensões ou dilemas.
O vento contorna os muros, mas para que precisamos de muros, afinal?

- Lágrimas de Gasolina

sábado, 21 de março de 2015


terça-feira, 17 de março de 2015

Liberália, a cidade dos Perplexos e Apáticos

As observo de longe.
Um sonho estranho, diferente.
Elas estão se matando, gritando alguma bobagem.
O chão está diferente, uma escuridão amortecida sob os pés das mais variadas faces.
Faces alongadas, faces quadradas e faces redondas. Juntas, gritando como crianças famintas.
Uma voz me pergunta:
"Onde está você?"
Estou aqui em cima, sentado. Apático, imóvel.
Como pude deixar tudo isso acontecer? A culpa é mesmo minha?
A voz responde:
"Como pôde? Como pôde?"
Levanto-me e sinto como se um tijolo atingisse o meu abdome. Não estou preparado.
Alguns deles estão tentando escalar a montanha, vejo-os escalando o abismo sob meus pés.
Estão querendo me pegar novamente, querem me levar para baixo, porém não o farão, pois não o permitirei.
Um deles agarra meu pé esquerdo. Forçando-me a sentar novamente.
Penso em chuta-lo, mas não o farei
Já os chutei certa vez e quando menos percebi estava gritando alguma bobagem adentrado ao abismo.
Uma segunda face agarra meu pé direito. Não cederei.
Não os balanço para que se soltem, apenas firmo os pés no chão.
Um deles grunhe:
"Você é um humano!"
O outro concorda e grunhe em resposta:
"Ele tem razão, seu humano!"
Um humano faria isso? Deixaria o mundo ruir? Ser humano é ser humano? O que é ser humano, afinal?
Estendo uma das mãos para uma das faces.
Venha aqui e sente-se ao meu lado.
Veja as coisas como são.
Ela estapeia a minha mão, recuo. Controlo a vontade de chuta-la e apanho teu punho à força.
Sento-a ao meu lado e assistindo a toda a existência, sua feição se transforma em perplexidade, em seguida começa apresentar indícios de apatia.
Agarro o punho da outra, ela se contorce, gritando:
"Não, não! Eu não quero!"
Sento-a e sua atitude é a mesma da outra. Perplexidade. Apatia.
Estão escalando!
Continuam escalando!
Será uma longa pescaria, senhores!
O melhor será que, no final, não restará nenhuma face no abismo, apenas uma montanha superpopulosa, cheia de observadores apáticos e perplexos.
E não haverá mais nada para se observar, exceto o horizonte.

-Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 10 de março de 2015

Discurso de ódio

Querem saber de uma coisa?
Pra mim chega.
Eu não sou mais aquela criança que concordava com tudo, que acenava para um corpo morto no meio fio, que sorria para um filho da puta que não sabe a menor ideia do que está dizendo.
Quer saber de outra coisa?
Eu estou com raiva. Estou angustiadamente com raiva, nesse momento eu gostaria de ter presas de aço para devorar a carne desses desgraçados e depois cuspi-las nos pais incompetentes que criaram estes babacas.
E digo mais.
Estou perdendo a minha flexibilidade, e digo isso a plenos pulmões pra quem quiser ouvir!
ESTOU PERDENDO A CAPACIDADE DE ACEITAR!
Não vou sorrir perante a injustiça.
Não vou bater palmas perante os corruptos, nem aceitar esta instalação que pretendem realizar.
Não, não sou nada disso do que você está pensando!
Minha mãe é uma santa e me deu a capacidade de discernir o que é certo do que é errado.
E corrupção, controle, dor e morte não são sinônimos de liberdade.
Eu vos convido a se libertarem!
Não para abusarem de uma libertinagem desmedida. Estou falando de uma opinião formada! Sem religiões, sem discursos, sem reis, nem deuses. Apenas homens! Homens no sentido integral antes que tentem me taxar.
Vos convido a experimentar da dor e do prazer que é ter o chão sob os teus pés. Ter em mente que as pessoas é quem podem mudar as coisas, ter em carne que possamos fazer algo a respeito!
Batam tuas panelas, façam tuas passeatas, fumem tuas maconhas nas calçadas, baforem na face das crianças, façam o que têm de fazer. Façam o que vocês acham correto!
Não abusem da liberdade! Não da liberdade que lhe foi dada, mas da liberdade pessoal. Do fardo de ser um ser pensante, capaz de discernir e modificar a realidade.
Matem, estuprem, ergam suas bandeiras, o mundo esta em guerra e a guerra os levará a autodestruição.
E quando vocês todos, sem exceção, estiverem a mercê de mim, Eu não juro pelo deus, no qual eu não acredito, mas eu juro por aqueles que me amam e me compreendem, que se eu tiver a oportunidade e vocês à mercê, eu ei de destruir cada fagulha da tua hipocrisia, como tentaram fazer comigo.
Isso é um discurso de ódio, sem duvida.
Adoraria poder amar a todos vocês, adoraria ter este dom messiânico, mas enquanto homem, com falhas e ambições, eu sinto ódio.

-Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Resposta

Não há resposta.
Não adianta vir até aqui na tentativa de preencher essa tua ambição humana.
Chega! Vai viver a tua vida, vai fazer as tuas coisas e me deixa em paz.
"Aqui, pegue esta moeda."
Eu sei que pra você esse vazio é doloroso. Faz parte da tua natureza.
E se eu te dissesse que a partir daqui não tem mais nada?
Você deixaria de amar teus pais? Ou de beijar teus filhos?
"Pegue um pedaço da minha torta."
Deixaria de ajudar um mendigo? Uma velha a atravessar a rua?
Então quer dizer que você era bom porque deveria ser?
Hipócrita.
"Você pode se sentar no meu lugar."
A fé move muitas coisas e montanhas não é uma delas.
A fé move você. Você sabe disso.
Por que tem de haver algo?
"Me dê uma sacola, eu ajudo a senhora."
As coisas não podem sustentar-se por si só?
Por que não ser bom pela bondade?
Por que deveria existir um céu? Ou um inferno?
"Meus parabéns, é uma linda garotinha."
Você quer ser julgado? Ou quer um feedback?
Reconhecimento? Pra mim, você não passa de uma massa grotesca de ambição e falso altruísmo.
Você não precisa de uma justificativa para ser bom, mas de uma justificativa para não ser mau.
"Eu te amo."
Naturalmente podre. Naturalmente mau.

- Lágrimas de Gasolina





quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Lxbxrdxdx

As vezes eu acho que nasci na época errada.
Olho para os lados e vejo um amontoado das mais diversas faces da classe A, reclamando e reclamando.
Reclamam daquilo que não têm.
Reclamam daquilo que têm.
Reclamam daquilo que poderiam ter.
Uma criança correndo.
Agora, ela chora. Foi pega.
Olho para o outro lado. Vejo a minha educação, meus ideais e meus princípios. Todos eles de punhos atados, não podendo se mover.
"Queremos sair! Queremos conquistar!", gritam.
"Fique ai! Não corra! Não chore! Não quero ouvir nem um pio!", respondem.
Antes, como crianças dispersas, as palavras podiam correr por ai, sem policiamento algum.
"Você é um idiota! Liberdade nada tem a ver com isso.", respondem, mais uma vez.
Se a minha liberdade não é ditada por mim. Por quem será?

"Você está errado!"
"Você é homofóbico!"
"Você é racista!"
"Você misógino!"
"Você é desumano!"
Não é verdade. Ser negro, não te faz mais humano do que eu. Ser mulher, não te faz mais humano do que eu. Ser homossexual, não te faz mais humano do que eu.
Por que teus rótulos me fazem menos humano?
Quem oprime quem? E os valores, onde ficam? Atados?
"Pare com isso, você se vitimiza demais."
Então, esse é o sentimento?

- Lágrimas de Gasolina






segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Liberdade de Expressão

Não posso mais olhar para os lados sem ter alguém pra apontar-me um dos dedos.
Não posso mais caminhar sem que alguém me diga o quão torto é o meu andar.
Não posso mais dizer o que penso.
Não posso mais pensar que estou certo.
Se sou seguro, sou inflexível.
Se sou transparente, sou inconveniente.
Se sou introspectivo, sou antipático.
Se sou extrovertido, sou exibido.
Se sou flexível, sou manipulável.
O tempo todo as pessoas tentam rotular.
Parece que sempre temos poucas opções para tantos rótulos.
Tenho que andar de cabeça baixa. Tenho medo de ofender alguém. Tenho medo do que as pessoas podem pensar quando digo algo.
Elas vão tentar me rotular e em seguida me foder.
Elas estão me rotulando neste momento. Querem me foder!
É melhor que eu me censure antes que o façam por mim.
Melhor não dizer o que penso.
As pessoas estão prestes a destruir a maior ferramenta social já criada.
Em pouco tempo, destruirão a liberdade de se expressar e em breve, a expressão em si. Em seguida, a interação humana.
Todos terão medo de serem ouvidos. Todos serão oprimidos e opressores.
Criaremos uma casta de criaturas que não conseguem ser contrariadas, do mesmo tipo que se ofende com ideias aversivas.
Eu só quero estar morto quando estes opressores oprimíveis estiverem no comando e com a razão.
Não suportaria a ideia de um vilão inconsciente no poder.
Eu só espero que, pelo menos até lá, vocês deixem eu me expressar como eu bem entender.
Seja certo ou errado, de cara ou chapado.
Deixa eu falar, filho da pxtx!

- Lágrimas de Gasolina