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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Contos de Matusalém #1

Aconteceu em uma época onde as coisas não eram deixadas para trás nem esquecidas em gavetas. Não precisávamos nos preocupar com portas trancadas nem com ferros de passar ligados.
Era uma tarde de segunda-feira.
Matusalém era um pequeno raminho saudável e morava com seus pais no fim do vale, estava brincando no infinito quintal de sua morada, desenhando em um pequeno espaço de terra que acabara de limpar, havia colhido e amontoado todas as folhas que conseguira, formando uma enorme pilha de sujeira. Com uma de suas pequenas extremidades, traçava finas e precisas linhas no solo, concentrado nos curtos pensamentos de seu pequeno cérebro e nos movimentos que fazia, não errou um traço sequer. Sua atenção era tão limitada quanto deveria ser para uma plantinha juvenil, por isso não percebera a aproximação quase inaudível de sua mãe. A gigantesca árvore ficou parada acima dos tímidos galhos mais altos do raminho desenhista.
- Nossa, que desenho bonito! O que é? - Uma doce voz cortou sua concentração. - É uma arvore? - Indagou a gigante baobá.
O raminho ficou olhando sobre seus galhos baixos para as raízes de sua mãe, nunca vira seu rosto, mas isto nunca fez a menor diferença, nenhum dos raminhos do vale já o havia feito. Respondeu:
- É sim, sou eu! - Disse enquanto riscava um grande sorriso que preenchia toda a extensão do desenho - e olha como estou feliz! - Completou.
A baobá riu serenamente perante a imaginação de sua cria. Ela era professora no vale e sabia como era raro um raminho que se preocupasse com o futuro. Virou-se para as copas de Pelagus e vislumbrou o último pôr do sol do dia. As árvores maiores preenchiam toda aquela vastidão e escalavam até mesmo as gigantescas montanhas Gaia Retrorsum.
O vale lembrava um enorme prato de sopa de espinafre, suas extremidades eram formações rochosas milenares e maravilhosas, havia árvores e pássaros dos mais variados tipos que preenchiam completamente o centro côncavo da gigantesca tigela, alguns deles se dispersavam à medida que se aproximavam das beiradas. A densa parte central era composta pelas árvores mais antigas do planeta, as primeiras formas de vida vegetal a emergirem sobre aquele jardim gigantesco e eram conhecidas como os líderes daquela sociedade vegetal, os anciões - como eram chamados - estavam envoltos por árvores mais jovens e estas por sua vez, envoltas por árvores ainda mais jovens. Ao contrário dos líderes humanos que conhecemos, as plantas têm uma intensa satisfação por estarem completamente rodeadas por sua espécie.
O planeta das árvores não tinha nome próprio, pois seus habitantes jamais poderiam dizer com firmeza o que era aquele imenso jardim onde moravam, tão pouco sabiam da existência dos outros milhares de planetas ou do vasto universo que os rodeava. Á princípio, as pequenas e poucas criaturas que cuidavam das planícies, antes do nascimento de algum dos ramos que originariam as primeiras árvores, desenvolveram asas, porém algumas delas eram desajeitadas ou pesadas demais para voar. Os primeiros seres a saírem do chão e voarem pelos ares do jardim foram os pequenos animais posteriormente apelidados de Liberums, nesta época as plantas já dominavam cerca de quarenta hectares do que um dia se chamaria Pelagus, assim puderam presenciar aquelas pequenas criaturas peludas e dentuças voando por aí com suas asas coloridas. A partir daquele momento, os anciões perceberam o quão importante aquelas criaturinhas poderiam ser para o estudo do planeta.
Sabiam que existiam extensões incompreensíveis de água fora da concha, nos arredores das planícies inexploradas, porém as asas em evolução dos peludinhos jamais permitiriam que voassem além delas numa viagem tão extensa, o que causou certa frustração à expectativa de sanar as curiosidades dos anciões.
Nada podendo fazer, assim seria o longo processo de exploração do planeta, toda descoberta feita seria passada para as árvores periféricas, que contariam às vizinhas que por sua vez contariam às vizinhas, repetindo-se até atingir os ouvidos das árvores centrais. Esse processo se repetiu até o nascimento da primeira baobá, plantas incrivelmente gigantescas e majestosas e que muitas vezes passavam da estatura da mãe em poucas dezenas de anos.

A primeira baobá nasceu nas periferias, como de costume, porém um fato pouco costumeiro ocorreu, o tempo se passou e aquela pré-adolescente ultrapassara a altura da mãe em um metro. As vozes ecoaram pelo vale que saudava precocemente a mais nova espécie do planeta, o gigante baobá. As palavras atingiram os ouvidos das grandes árvores centrais e um deles choramingou:
- Eu daria todas as minhas folhas para poder ver o tal gigante!
Mais uma vez as vozes ecoaram pelos galhos e em poucos dias as preces dos anciões atingiram os tímpanos da gigante.
Foi numa terça-feira e o primeiro sol já havia se posto.
As antigas árvores estavam aglomeradas como de costume, recebendo as notícias de todos os cantos do vale, quando toda a atenção foi direcionada para Greg, o quinquagésimo quarto. A árvore gritava de horror, eram palavras estridentes e ininteligíveis, balançava-se tentando remover algo de dentro de si enquanto roçava os próprios galhos contra o tronco. Gritou:
- Algo está dentro de mim! Agora, desceu e está embaixo! Algo está puxando minhas raízes!
As outras plantas o olhavam, desconcertadas, Greg nunca apresentara comportamento tão maluco, embora fosse uma das árvores mais engraçadas conhecidas. Athos, o quinquagésimo, disse:
- Ei, Greg. Fique calmo, com certeza são algumas cigarras, vá - mas foi interrompido pela horrível cena que se projetava à sua frente, algo que nunca havia testemunhado ou sequer imaginado ser possível.
A árvore deslizava como se estivesse sendo tragada pela terra através de uma areia movediça sobrenatural. Já haviam passado cerca de dois metros, depois mais quatro e mais dez, Greg agonizava afogado pela terra enquanto suas últimas folhas passavam pelo vórtice arenoso.
- Me ajudem! Me aju - suas palavras foram tragadas junto com seus últimos membros.
As múltiplas formas de vida que tinham plena consciência de que realmente haviam testemunhado o absurdo, estavam paralisadas com o terror que percorria internamente suas seivas, aguardando estaticamente pelo que veriam em seguida, as mais próximas tentavam inutilmente fugir para longe da marca que a suposta abdução de Greg deixara para trás. Os Receptores impediam quaisquer outras informações de chegarem e logo cuspiam descrições do que havia acontecido nas dependências dos anciões e com a quinquagésima quarta árvore mais antiga do vale.

As árvores receptoras tinham acabado de concluir a décima remessa de mensagens quando algumas plantas começaram a reclamar incessantemente do barulho provindo da marca no chão. Fazia apenas dez minutos desde o ocorrido e cerca de dois hectares já sabiam das notícias, do acontecimento e das palavras alarmantes dos anciões, até mesmo os Liberums foram chamados para iniciar uma busca sem esperança por Greg.

O quinto ancião havia começado sua narração, as Receptoras anotavam artisticamente as palavras que formariam a décima primeira mensagem do dia, porém uma delas parou ao perceber que uma pequena pedra rolara arbitrariamente sobre os dizeres que desenhava na terra, algo estava assustadoramente errado. Outra também parou quando notou que o chão se movia sob suas raízes e apagava os dizeres incrustados na terra. E mais outra parara, quando ouvira os gritos de terror produzidos pelas árvores dos arredores. A marca abdutiva se movia numa vibração sobrenatural, alguns até chegaram a pensar esperançosamente que Greg havia encontrado uma forma de voltar, outros pensaram desastrosamente que o mal que tragara Greg para as profundezas desconhecidas da terra estava prestes a emergir para preencher o estômago que uma única árvore não fora capaz de saciar. Todos sentiam tanto medo quanto curiosidade, mas poucos ousaram dizer alguma coisa, exceto as receptoras que narravam todos os detalhes que seus olhos permitiam descobrir.
- A marca está vibrando loucamente - dizia uma delas - posso sentir minhas raízes balançarem, é como se uma minhoca gigantesca estivesse prestes a saltar pelo buraco a uma velocidade absurda, a sensação é de completo terror, as árvores estão assustadas, as receptoras estão fazendo o mesmo que eu, os anciões estão impassíveis, cochicham entre si, sabem tanto quanto nós, o que é terrível! - fez uma pausa, olhava fixamente para a marca - a marca está aumentando, deve ser apenas impressão. Não, ela realmente está maior! Ei, espera, eu posso ver alguma coisa! Algo está saindo do buraco e é enorme! São folhas, eu não acredito, são folhas! Greg conseguiu!
As receptoras e subreceptoras gritavam velozmente, as árvores próximas falavam com extrema rapidez e precisão, todos ansiosos por reproduzirem via palavras acontecimentos nunca antes ocorridos.
Algo estranho chocou a receptora que se pôs a continuar:
- Só um momento, pessoal! Estas folhas são límpidas demais e estes galhos são maiores que os de Greg.
Uma das receptoras gritou do outro lado do recanto dos anciões:
- Acabei de receber: uma árvore desapareceu na atual periferia, próxima à Gaia Retrorsum, a desaparecida trata-se da nova espécie, a gigante baobá!
Em alguns segundos, nenhuma delas tinha mais certeza alguma, não sabiam se o que haviam presenciado era obra da imaginação ou se estavam ficando loucas. Algumas árvores descansavam inconscientes e ancoradas sobre as próprias raízes que as impediam de atingir o solo, haviam desmaiado. Os inteligentes olhos dos anciões assistiam a gigantesca extensão de casca, galhos e madeira que crescia através do buraco no chão, passaram-se galhos e folhas seguidos por dois metros de tronco, depois mais cinco e mais dez metros, em questão de segundos uma gigantesca árvore ocupava o lugar da quinquagésima quarta árvore mais velha do vale - a penetra era a árvore desaparecida de Gaia Retrorsum, a nova espécie, a gigante baobá.

- Lágrimas de Gasolina
 
 http://www.deviantart.com/art/Forest-98795458
Forest by Andead



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Azul, Violeta, Vermelho e Verde

Azul, violeta, vermelho e verde.
Cores que colorem tantos amores preenchidos
em doses plenas do sentido da alma.

Azul brilho de azul,
voa livre e solto,
não quer comparação,
simples sentido,
doce sonido.

Quem quer violeta?
Escuta a paz e então beija emoções,
vibra alto na ponta do arco-íris.

Sangue de vermelho,
brota da terra,
cota ou mesmo velha,
símbolo de bravura,
som puríssimo da força.

Cresce verde e deixa a chuva te tocar.
Amanhece com sono,
com o ninar da manhã,
verde como te quero verde.

Desabrocha em caules maduros
de florestas virgens e delgadas,
patamares de lendas descoloridas,
somente reluz alto na dádiva do campo.

Lendas de fontes inesgotáveis,
colorindo tristezas,
traços de vidas,
e de clarões.


- Sergio Eduardo Del Corso



terça-feira, 20 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #3 - Eu Sei Me Cuidar!

Senti-me absurdamente zonzo quando sacudi a cabeça e coloquei uma das mãos sobre a beirada da escada. É um tanto quanto impressionante essa resistência que eu sempre tive, sabe? É até engraçado eu sentir somente tontura e nem estar vomitando sangue como qualquer outra pessoa. Cômico mesmo é ter percebido essa resistência extraordinária só agora, afinal já aconteceram tantas coisas que teoricamente deveriam ter me matado, às vezes penso que a morte já está prescrita e que aqueles não eram os momentos dela vir, sei lá.
Subi as escadas e andei, medindo cada passo dado em direção à cerca para apanhar a toalha da minha prima, ela não se importaria que eu me enxugasse ou limpasse o sangue que escorria da minha cabeça, sou o primo mais velho e ela me adora. Além de que a toalha era rosa e não mancharia de nenhuma cor que não pudesse facilmente passar despercebida – foda-se. O importante mesmo era que ninguém percebesse que eu tinha acabado de fazer besteira, pois isso daria munição para as pessoas falarem qualquer merda e todo mundo sabe como as pessoas adoram falar, dar munição para elas me fuzilarem com suas palavras seria o inferno para mim.
Sentei sobre um degrau de concreto nos arredores de uma churrasqueira escondida da chácara e ali fiquei, tentando estancar o sangue e impelindo o pensamento de que qualquer desgraçado poderia me ver e rir. O ferimento minava sangue como um daqueles frascos de ketchup sem vergonha que quando a gente aperta, sai bem mais do que a gente espera. A toalha estava ficando num tom escroto de vermelho rosado, dando a impressão que o sangue que a preenchia era proveniente de alguma boca manchada de batom.
Não demorou muito para o primeiro arrombado ver e alertar todas as pessoas possíveis da festa, a maldita da minha prima havia gritado para meu tio, que desceu correndo com um saco de gelo na mão. Ele ficou lá por alguns minutos me olhando, achando que eu ia deslizar a qualquer momento e começar a estrebuchar no concreto. Eu até poderia passar mal, sentir minhas pernas formigarem e vomitar, mas não diria nada á ninguém, não queria que a atenção fosse desviada para os meus erros. Afinal as pessoas não estavam lá pelos meus pais? Por que elas não ficaram lá sentadas e assistiram à droga da cerimônia? Eu não chamei ninguém e nem pedi ajuda. – Eu sei me cuidar!
Algumas pessoas são tão obcecadas por desgraças alheias, que muitas vezes preferem desviar do seu destino e assistir mais alguns segundos de algum paramédico praticando algum procedimento em algum corpo frio, do que simplesmente dirigir para a porcaria do trabalho. Para mim, isso só pode ser algum tipo de doença, já me disseram todo tipo de coisa para tentar ofuscar essa natureza delas, mas nada pode justificar esse sadismo. A pior parte é que quando essas mesmas pessoas chegam a suas casas, elas abraçam suas esposas e maridos, beijam seus filhos e filhas, vão para o Facebook e escrevem alguma frase de impacto a respeito da vida e do real valor dela.
Isso é demais para mim, cara! A pessoa gasta a porcaria do tempo de vida dela se masturbando mentalmente para um cadáver no caminho para o trabalho e quando chega em casa, quer dar lição de moral.
Eu nunca fiz algo desse tipo. Tá, tá certo, estou mentindo, aconteceu uma vez, sim. Mas foi só dessa vez e a situação era completamente outra, eu não estava lá para ficar apenas observando e lamentando pela vida do pobre infeliz. E a gente acabou se envolvendo sem perceber e foi tudo tão de repente que parecia que alguma atitude imediata devia ser tomada. Bom, numa manhã de algum dia das férias escolares, dois dos meus primos decidiram que deviam vir passar algum tempo na minha casa, comer minha comida e usar as minhas coisas.

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- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #2 - O Boneco de Pano

Acho engraçado como são as coisas, me lembro que certa vez, eu e um grupo de amigos tivemos a brilhante e trágica ideia de adentrar as dependências de um retiro de aidéticos localizado à algumas centenas de metros de minha vizinhança. Reunimos somente as mais conhecidas e renomadas figuras do bairro para executar uma missão formada pelo mais alto grau de ingenuidade, imprudência e imbecilidade, é claro que eu fui escalado como líder do bando, eles não me elegeram, mas era explicito em seus rostos o quanto minha presença seria importante. A nossa meta era invadir o retiro através das matas compostas por arvores, córregos e bambus apodrecidos que cercavam toda a propriedade. A entrada da trilha de acesso à mata se desbocava em um descampado maldito de fácil acesso, que ao passar por ela e caminhar alguns metros por folhas podres e animais peçonhentos, podia-se ver, ouvir e sentir um sutil amontoado de águas escuras formado pelo mais puro odor de bosta, sobre o córrego havia uma das vigas da extinta cerca de arame descansando de atravessado, essa ponte era por onde - é claro - passávamos como formiguinhas.
O plano era simples, nos reuniríamos na entrada da trilha, caminharíamos até o córrego, cruzaríamos a ponte, nos esconderíamos em meio às arvores e correríamos como soldados em meio a guerra pela grama a céu aberto até a grade que contornava toda a piscina.
Sim, exatamente isso que você está pensando, toda a droga do plano era para simplesmente darmos algumas poucas braçadas em uma porcaria de piscina, correndo o risco de sermos pegos por invasão e receber uma senhora surra quando chegássemos a nossas casas, mesmo assim não tire a razão da gente, embora fosse um ato de extrema ousadia diluída numa dose gigantesca de burrice, estávamos em janeiro e estava calor pra caralho.
Corremos um de cada vez pela grama durante impressionantes cinco segundos - fiz em quatro -, tendo os corpos freados pela grade quando atingíamos individualmente o objetivo. Um dos meninos preparou e abriu a mochila, retirou um pequeno alicate e abriu a cerca depois de alguns cortes, não fomos vistos nem ouvidos.
Quando nos aproximamos da piscina, notamos que as águas se assemelhavam àquelas vistas correndo pelo córrego há alguns minutos atrás, a partir desse momento eu tinha percebido que adentrar a agua fétida da mata seria muito mais saudável e teria poupado muito mais esforço do que mergulhar na lama esverdeada daquela piscina. No fim das contas, éramos crianças e para a maioria de nós o destino não vale de nada, sendo o caminho ou a viagem o aspecto mais importante, por isso chegar até ali, cortar a grade, simplesmente parar e encarar a piscina com aquele ar de sucesso já seria o suficiente. Porém, em todos os grupos de crianças, sempre existe um elemento que é um pouco mais retardado que os demais.
Então, como uma espécie de iluminação divina ou como se um pequeno diabrete houvesse se apossado do corpo daquele garoto magro e de dentição torta, ouvimos uma risada seguida por grito, vimos um vulto rosa-amarronzado voando num mortal sobre a piscina, girando como um boneco de pano jogado ao ar. Lembro-me de seus membros balançando, digo no sentido literal e integral da coisa, pois o rapaz estava nu, e caindo na piscina. Em seguida, todos nós estávamos lá dentro, não dávamos à mínima para o que aconteceria se alguém chegasse ou se houvesse alguma espécie de contaminação naquela água, éramos crianças e ter preocupações é coisa de adulto.
De vez em quando, me pego pensando em coisas que não fazem o menor sentido e quando me lembro daquela molecada, vejo como cada um era e tinha uma personalidade totalmente única e sabe, pensando nisso, acho que em algum lugar exista uma divisão de entidades responsáveis por organizar os círculos sociais das pessoas. É, algo assim - deve ser. - Não sei se me expressei bem, mas você já percebeu que em todo grupo de amigos, nenhum deles são parecidos e quando são, é porque são irmãos? Por isso eu penso que exista esse tal de recursos humanos celestial, justamente para aquele seu amigo gordinho não ficar sozinho. Sei lá, as coisas são engraçadas e é isso, a gente às vezes se pega pensando em como as coisas aconteceram e no dia seguinte acordamos jurando que não repetiremos os mesmos erros, mas às vezes nossa cabeça é meio atemporal, sabe? A gente esquece com muita facilidade das coisas e o aprendizado vai para o vinagre também.
Foi até engraçado eu lembrar esse tipo de coisa no instante seguinte em que bati a cabeça, porque foi depois daquele momento em que saí da piscina que as coisas ficaram estranhas, afinal eu estava com a cabeça toda inchada e sangrando, minha prima gritava - não ria - como uma hiena e meus pais comemoravam os vinte e cinco anos de casados deles na cobertura de fundo com mais outros cem convidados e parentes.

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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Mergulho em Águas Rasas #1 - O Sapo-Deus Monge de Pernas Grossas

Porra, cara! Você não sabe o que me aconteceu nessa ultima semana, para você ter noção, tinha uma caralhada de gente dizendo o quanto eu tinha sorte e como eu deveria ser grato a alguma entidade que não permitiu que nada de pior acontecesse.
Como sempre fui o melhor de todos em tudo que já fiz, pensei que seria uma grande ideia demonstrar o quanto meu salto ornamental seguido pelo meu mergulho Ponta de Girafa - batizado assim por mim mesmo - era imensamente superior a tudo já visto pelos olhos da minha prima de dez anos de idade. Preparei-me como um campeão e saltitei elegantemente até a borda da piscina, parecia um magnata, o Magnata da Piscina, sem dúvida alguma, esse seria o titulo ideal.
Apontei para aquela cara ranhosa de criança e disse em voz alta como deveria ser um verdadeiro mergulho, ela me olhava com aquele olhar de admiração que somente as crianças são capazes e começou a gritar de euforia, parecia uma gargalhada deformada, mas não era, disseram que era, mas é tudo mentira, ela jamais riria do primo mais velho. Isso me irrita muito, todo esse bafafá que as pessoas fazem, estão sempre falando o que dá na cabeça e nunca pesam o quanto isso pode ferir os outros, são um bando de hipócritas essa é a verdade, sempre pregando o quanto você deve ser humilde e o quanto você deve praticar o bem, mas no fim das contas, estão sempre compartilhando imagens de suas conquistas ou alguma porcaria envolvendo estupro, mutilação ou qualquer outra besteira nojenta nas redes sociais. Desgraçados hipócritas!
Arregacei a bermuda para favorecer o ângulo do meu salto, dobrei os joelhos artisticamente enquanto pressionava as palmas uma contra a outra, numa espécie de posição de sapo monge ou um louva-deus de pernas grossas, depende do ponto de vista, acho que estava mais para o louva-deus do que para sapo - sei lá. - Acho um pouco complicado essa comparação entre sapo e louva-deus, embora o sapo seja um animal viscoso e nojento, ele ainda é bem superior ao louva-deus pelo fato de estar acima na cadeia alimentar, eu até diria que sou um sapo-deus monge de pernas grossas. É, esse seria o nome ideal para a posição pré-salto.
Então, na posição sapo-deus monge de pernas grossas, disse mais algumas palavras, apenas para deixar bem claro o quanto aquele salto mudaria toda a percepção de realidade daquela criança e o quanto ela deveria correr na direção dos pais e dizer o quanto o primo dela era embaçado, o rei - o rei, não - o magnata da piscina.
O engraçado é que tudo o que eu disse para minha prima até aquele momento antes do salto, aconteceu de verdade nos minutos que se seguiram, pois realmente abalou toda a minha percepção de realidade e a garota correu - como o vento - para chamar os meus pais. Às vezes eu me surpreendo com o meu poder de adivinhação, alguns diriam ser sorte ou coincidência, mas eu acho que não, deve ser algo maior, alguma espécie de habilidade não compreendida.
Pois é, eu pulei, mas não foi por falta de habilidade que atingi o meu crânio no fundo daquela piscina, na verdade, foi um instante absurdo de azar. Foi até interessante perceber o quanto - até mesmo os mais habilidosos - estão à mercê dos múltiplos fatores do ambiente, como o vento, as ondas sonoras dos pássaros e outras micro-variações incompreensíveis. Acontece que não foi minha culpa, alguma coisa fez com que a minhas pernas deslocassem trinta centímetros para frente e fizessem com que eu ficasse com o corpo perfeitamente reto, realizando um mergulho que só seria considerado seguro se fosse feito numa piscina de três metros de profundidade, que não foi o caso.
Minha cabeça projetava um curta-metragem de uma balada dentro de um trem desgovernado que colidia com uma tela de pintura vazia - não peguei ninguém - quando voltei ao mundo real, percebi que havia se passado pouco menos de dois segundos e eu ainda estava flutuando por entre as águas avermelhadas da piscina, me ergui com minhas próprias pernas e sai da água, suspirando como um guerreiro aquático ferido.
A menina apontava para a minha testa e gritava eufórica - não eram risos, eram gritos -, dizendo que eu estava sangrando e por isso já havia me tornado uma mocinha, eu não entendi muito bem a colocação dela, mas provavelmente era alguma gíria usada na escolinha.

Continua

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Dor, Sofrimento e Outras Coisas Terrorosas

Deitou-se. Tentou erroneamente dormir.
Não conseguiu se quer fechar os olhos, ficou encarando o teto angular de seu quarto, esperando uma cantiga de ninar que desconhecia a letra. Esperou por mais alguns segundos e se levantou, olhou para o primeiro andar através das grades que rodeavam o mezanino, onde jazia sua cama, analisou a noite e as horas que ainda restavam, analisou o dia que ainda viria e caiu de costas na cama, deitando-se novamente.
Uma pontada de consciência ecoava por suas paredes mentais lhe dizendo que deveria dormir, que amanha seria sexta-feira e que somente na noite do dia de amanhã poderia passá-la em claro.
Uma pequena força se rebelou dentro de si e mais uma vez soltou um grito corporal de liberdade, se livrando do adiantamento do dia de amanhã. Todas as noites quando caminhava atrasadamente até a cama, se recusava a aceitar que estava à mercê do cansaço de seus membros, se recusava a acreditar na implacabilidade do tempo e de como nenhum ser vivente poderia escapar de suas garras.
Desceu os degraus o mais rápido que pôde, queria aproveitar cada momento, produzir a cada segundo e adiar o resto dos dias de sua vida. Pensou no que deveria escrever, nos trabalhos que o deixava insone. Abriu a tela do computador, esticou os dedos e os posicionou sobre as teclas clareadas pelas luzes do monitor, iniciaria o que seria o maior de todos os textos já escritos e historias contadas se não houvesse sido interrompido. Escreveu:
"Quando dos espinhos de uma pútrida flor deslizar uma gota de orvalho e esta atingir o fértil solo de"
Parou bruscamente quando ouviu o som emitido através dos corredores de sua casa e encarou a porta fechada, à espera de alguém que pudesse entrar sem emitir um ruído se quer. Até mesmo a porta de madeira maciça não apresentava empecilho para o som que escorria pelas frestas e adentravam o quarto, atingindo-lhe os tímpanos nus e trementes. Empurrou a cadeira para trás num gesto cuidadoso, sem emitir nenhum barulho, nem mesmo as rodinhas do assento que sempre insistiam em estalar se manifestaram, parecia que todo o quarto estava focado em tornar a percepção do estranho som ainda mais nítido. Pôs-se de pé e caminhou sobre uma espécie de campo minado imaginário, onde qualquer estalido pudesse desencadear a maior de todas as explosões e dilacerar os membros daquele que as provocara.
À medida que se aproximava, o som se tornava cada vez mais orgânico, mas somente quando colocou as mãos na maçaneta pudera ouvir todos os detalhes que passaram despercebidos por seus ouvidos. Eram como a espécie de um ruído causado por uma dilaceração realizada por um animal, onde repentinamente estalares de ossos brotavam, sobrepondo sons semelhantes àqueles causados por uma massa de carne sendo devorada por algum ser desdentado, um animal que fizesse questão de remoer o alimento triturado em sua boca escancarada.
Juntou as forças e os resquícios de coragem dos quais tanto fizera menção em seus contos, e girou a maçaneta, revelando um corredor abismático e de dimensões irreconhecíveis quando admiradas através da perspectiva de um observador cego. Esticou os dedos com a mesma precisão que usava para escrever e pressionou o interruptor na parede, preparando-se para atingir um alvo invisível e desconhecido. Porém no lugar de uma criatura desdentada e de dimensões monstruosas, encontrou uma névoa malcheirosa somada à atenuação dos sons que adentravam com ainda mais força e infligiam ainda mais dor aos seus ouvidos. Forçou-se a caminhar pelo corredor, tapando as narinas e desviando das sequenciais ondas de mau cheiro nauseante, que utilizavam de seu nariz como via de transporte para passageiros só de ida para seu cérebro e dominavam suas lembranças, fazendo-o lembrar das queimadas de esterco velho, que seu falecido avô realizava nas periferias de sua fazenda.
Como grande observador que era, notou as luzes que irradiavam através das frestas de uma porta trancada no final daquele corredor mal cheiroso. Caminhou como um peregrino que rasteja contra os ventos hostis e arenosos do deserto, empurrando cada som mal cheiroso e cada nevoa auditiva, lutava contra um inimigo invisível porém presente e como o fim de toda a sua demonstração de força para telespectadores onipresentes, debruçou-se sobre a porta e deixou que as luzes que escorriam pelas frestas dominassem as solas de seus pés desnudos. Como uma torcida composta por torcedores fanáticos, sua mente gritava frases encorajadoras, embora todos os seus sentidos estivessem entorpecidos, uma fagulha mental de coragem e ímpeto o fez com que girasse a maçaneta e adentrasse o desconhecido e o inefável. Uma onda de podridão em forma gasosa destruiu todos os pelos do seu nariz enquanto debruçava-se sobre a porta e admirava a vil criatura, mais conhecida como "Vovó", sentada sobre um trono formado por porcelana e restos humanos. Sua vista se tornou turva e o chão se tornou próximo, os ruídos cessaram por uma fração de segundo e apenas uma frase ecoou por seus ouvidos:
- "Amorzinho, pega o papel higiênico pra vovó, vai querido!”

- Lágrimas de Gasolina.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Steve, o filho da puta - Quadrinho


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fútil Realidade #4

A vida é irônica. 
Até um certo aspecto, engraçada, mas esta ironia assume uma atmosfera bem sombria quando se presume a efemeridade do tempo. 
Vidas eternas de pessoas eternas, que entre 365 possibilidades, encontraram seu fim em um cruzamento extremamente familiar e singular. 
Há doze anos, eu e Brígida dirigimos até o cemitério nos dias 06 de Janeiro, para prestigiar nossa Mãe. Esta é a primeira vez que estamos vindo, no mesmo dia, para visitar ambos os pais. 
O médico não soube explicar o motivo de Pai ter falecido, há um ano, mas acredito fortemente que o motivo de sua partida foi exatamente a falta de motivos para ficar. A garota de sua vida já não estava mais aqui, e seus filhos estavam casados e aninhados em um laço de amor absoluto. 
Ele cuidou de muitos, e cuidou bem. Deixe que os céus cuidem dele agora. 
Brígida entendeu, eu entendi. Foi menos doloroso que a morte de Mãe. Eles estavam juntos, amando-se sem censuras terrenas, sem podas, sem idade. Apenas um amor infinito e inabalável, o mesmo que há muitos anos gravaram em nossos ânimos. 
Os túmulos estão lado a lado, e isso preenche meu coração com uma felicidade que não é possível transcrever em frágeis linhas. Brígida também está feliz. Muito feliz na verdade. 
Voltamos para nossa casa. para nosso ninho. Perder alguém é doloroso, mas mais doloroso é afastar amantes eternos.
Vendemos nossa antiga casa e compramos uma nova, um pouco menor. 
Recheamos com nossos gostos, nossos valores. Pintamos as paredes com tintas que representavam muito mais do que números em catálogos. 
Éramos muito novos, nem tinhamos terminado nossas faculdades, mas foda-se os padrões que a sociedade impõe. Casamos novos, começamos a morar juntos novos e a vida não podia ser mais feliz. 


Quando terminamos nossas faculdades, agarramos fortemente a ideia de nos tornarmos pais. Sempre fomos adepto, mas agora o tempo livre abriu espaço para este sonho. 
Fizemos uma imensa lista de nomes, para meninos e para meninas, no mesmo dia em que Brígida parou de tomar seu anticoncepcional. Apesar da vergonha, preciso confessar: foram bem prazeirosas as tentativas. 

No começo.

Com o tempo, começamos a ficar preocupados. Quatro meses, quatro menstruações. Brígida insistia em afirmar que era normal, que isso acontece, que em breve Lucas estaria a caminho. Mas eu sabia que tinha algo errado. 

"Endometriose", foi a palavra mais forte que já ouvi. Pior do que "morte", é a anulação da vida, a proibição natural de conceber. Sentamos no chão frio do consultório. Enquanto ela chorava desolada, tentava selar meus braços ao seu redor. Minha camisa empapava-se em suas lágrimas, mas não compartilhei as minhas. 
Não podia ser. Não com a gente. Era um amor tão puro, tão ridiculamente puro. Endometriose. 
Quando ouvi essa palavra, tive medo de perder minha garota. Tive medo de perder a Brígida que eu conhecia, medo de que esta restrição fosse um baque mais forte do que ela poderia aguentar. 

Estava enganado. 

Ficamos sentados no chão por quase duas horas. Quando ela terminou de chorar, levantou-se, limpou seu rosto e me abraçou muito forte. Foi o abraço mais forte que já trocamos. 
A sala do consultório estava bem amarelada por causa da luz artificial, mas os olhos de Brígida continuavam escuros como a lua. 
Ela passou os braços ao redor do meu pescoço e encostou sua testa na minha. 

- Você me ama, mesmo sabendo que não poderei engravidar? 
- Você me ama, mesmo sabendo que eu preferi a trilogia do Hobbit ao invés de O Senhor dos Anéis? 

Ela riu. Uma risada sincera. Fraca, porém sincera. 

- Vamos enfrentar isto - eu disse. 
- Te amo pra sempre. 

Um ano depois, no dia 29 de abril, recebemos a ligação. Lucas estava a caminho. Havíamos conseguido a guarda de um maravilhoso menino de três anos.

Continua


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um dia de Mãe

André não lembrava de mais nada daquele dia, daqueles anos. Era muito pequeno.

A única coisa que lembrava com clareza era daquela falsa promessa:

"Vou comprar leite", ela disse.

"Volto logo", ela disse.

Ela não trouxe o leite, muito menos voltou logo. 

Os anos se passaram, acumularam-se, tornaram-se uma grande gaveta de poeira,

onde detalhes não importavam nada e importavam muito. 

Era difícil, foi difícil. Sempre vai ser. 

Seu pai é ótimo, mas é pai. Sua mãe nunca esteve presente.

Seus avós eram ótimos, mas eram avós. Não lembrava do rosto de sua mãe. 

Escola, namoradas, faculdade, carro, emprego, decepções, decepções, decepções. 

Seu pai estava lá, uma verdadeira chapa de aço indestrutível, mas onde estava sua mãe? 

"Volto logo", ela disse. Estas palavras ainda ecoavam em sua mente.

Hoje, com 78 anos, no seu quarto, dentro de um asilo, sentia sua respiração diminuindo. 

Sentia o pó tornando-se mais presente, sentia o ácaro tornando-se mais presente. 

Sentia o cheiro da morte tornando-se mais presente. 

André teve uma vida boa, só não teve uma mãe. 

Ela nunca apareceu, em seus 78 anos ela nunca apareceu. 

Mas hoje ela está ali. 

Não, ela não está morta. 

Ela está divina, com seu corpo de vinte, vinte e cinco anos. 

Seu cabelo louro dourado descia liso como uma cascata em suas costas. 

Trazia no rosto uma máscara que cobria seus olhos, mas claramente reconhecível. 

Amarrada no pescoço, uma longa capa azul lhe adornava. 

E então, agora, com 78 anos, ela contou para André o real motivo de ter partido.

Disse que fora convocada, fora escolhida

Para tornar-se uma super-heroína

Disse que todos os dias da vida de André esteve presente,

Protegendo-o em cada esquina, em cada decisão.

Revelou que não foi mãe, mas fora anjo da guarda e,

ajoelhada aos pés enrugados de André, pediu perdão. 

André sorriu, com os olhos cansados, e abraçou a mãe. 

- Por 28 mil dias, você foi heroína, e por 1 será mãe.

- Mas escolhi desta forma para poder te proteger... - sussurrou a mãe.

- Mal sabes que mães na verdade não só são mães. Não existe dias de mães ou dias de heróis. 
Mães todos os dias sãos mães, são anjos, são super heroínas. 
São professoras e amigas, são apoio e incentivo. 
Mas não me peça perdão, minha mãe.
Não cabe à um filho decidir se perdoa ou não nossa mãe. 

E passando os braços sobre os ombros de sua mãe, ambos saíram do asilo, 

Ela assumindo sua posição de super heroína na Terra, enquanto André ajudaria a defender outros reinos. 

- Dedos Azuis 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Príncipe do Nada

Apoiei a sola de meus pés descalço no parapeito do edifício. 

Se era o mais alto da cidade, eu não sei. O que sei é que precisava remar para longe.

Mas qualquer passo, qualquer direção, eu cairia.  

Garota, você não sabe o quão o céu é pesado, quando você está aqui

Aqui, tão perto, tão próximo. Tão azul e tão pesado. 

Senti a pressão no peito. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

Toda a emoção de uma vida medíocre, preta e branca, branca e preta.

Algo quente na mão, uma gota de sangue. Tampo o nariz, culpado branco. 

Sinto o pensamento longe, a dor de cabeça crônica. Meus olhos pesados estão nublados. 

Meu braço dói. Outra gota de sangue, mas não escorreu do nariz. 

Um vergão roxo, picadas de agulha, picadas de mosquito.

Olho para os seus. Onde está você, onde estão vocês? 

Cada dia, cada mês. Em todos estes anos. Tantas ligações, tantas mortes. 

Tantos amigos. Atropelamentos, assaltos, câncer, infarto. Suicídio. 

Uma vez fui príncipe. Hoje meu reino é pó e ácaro. 

Olho para baixo, para os carros, para a rua. Tristeza, desapontamento, fracasso. 

E então o céu tornou-se mais leve e as nuvens abriram-se

E Deus desceu. 

Desceu e disse

Nada. 

E o parapeito tornou-se canja

E o Nada tornou-se meu reino.

- Dedos Azuis 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Felicidade

Ame todas as pessoas que puder, nem que for por um segundo. O amor move o mundo.

Dance sozinho na rua com seu fone, foda-se os outros, os outros sempre vão julgar você.

 Vá em todas as festas que puder, um dia você só será convidado para velórios.

 Não se arrependa das coisas que fez, se arrependa por não ter feito o que quis.

 Abrace seus amigos sempre que os vir, nada une mais duas pessoas do que um bom abraço.

 Seja feliz com o que te faz feliz, a felicidade é a coisa mais importante do mundo.

- Dama da Noite

terça-feira, 11 de junho de 2013

O Mundo Mágico de Giovanni

O tênue e morno sono foi partido pelo gritante berro do despertador. O som preencheu o ambiente, preencheu o coração de Giovanni. De mãos dadas a agonia, ele despertou.
Derrubou no prato frio sobre a mesa seus ovos mexidos. Quarta não tinha bacon. Esgueirou o alimento garganta abaixo, enquanto o desprezível gosto de sono recheava sua boca.
Escovou seus dentes, enquanto a pastava gerava um novo produto, agora misturada com pequenos pedaços de ovos.
Indo para o escritório, uma curva acentuada o fez cometer um deslize. Quase sofreu um acidente.
Seu computador estava um pouco mais devagar hoje. Acreditava que o responsável era o recente download do novo torrent operacional. O café da cantina estava uma merda.
Sorriu ao jogar seus sapatos em um canto da sala, e se derreteu no sofá. Janta e sono foi uma mistura de miojo e lençóis, mas para Giovanni era o suficiente.
Porém o tênue e morno sono sabia que seu carrasco logo se aproximaria.

E para todos aqueles que esperavam um conto sobre magia, apenas questionem-se:
- O que é mais mágico do que a vida?

- Dedos Azuis

domingo, 9 de junho de 2013

Distinguir

Me perco por um segundo, e minhas pálpebras pesadas se fecham.
Um sono rápido me atinge, implacável e solidário. Na verdade não um sono, mas aquele belíssimo estado da consciência em que você começa a refletir sobre inúmeras coisas, pensar inúmeras outras, e até mesmo desenvolver conclusões sobre fatos nunca pensados antes; um meio termo entre vigia e sonho.
A realidade se confunde com lençóis, e por um momento chego a acreditar que sou feito de tecido. Mas foi apenas um breve momento.
A madeira rangendo me acorda de sobressalto, enquanto a claridade penetra por minha porta em movimento. Olho, eufórico, para a silhueta que ali está, parada, parada. Fitando-me.
Imóvel ela permanece, e meu coração preste a estourar. 
Suavemente, desliza a mão para trás de seu corpo, e volta a puxá-la. Agora, porém, com um brilho lusco-fusco em suas mãos.
Então é assim? Toda uma vida que foi, que deveria ser, indo embora como um suspiro de alma, como um soluço ofegante?
Como será a sensação? Como será a sensação do frio metal deslizando por entre sua pele, sua carne, seus ossos. Estalando em um banho de sangue quente? Como será o gosto de engasgar com seus próprios fluídos? Como deve ser o último segundo, o último instante?
A silhueta dá um passo para frente, e volta a parar.
Por que tão devagar? Por que tão sádico?
Estica o braço lentamente…
Prendo a respiração. Não quero morrer, não assim, não assim. Este foi um mundo que há muito larguei. Agora eu estava com ela, e tudo estava certo, tudo estava certo. Eu só queria tocá-la mais uma vez, dizer que a amava, dizer que sentiria saudades. 
…E acendeu a luz.
E lá estava ela, parada, na soleira de minha porta. Sorrindo com seus olhos caramelos, segurando na mão um par de alianças.
Foi quando percebi que minha vocação não era o terror. Não.
Minha vocação é o amor.

- Dedos Azuis

terça-feira, 4 de junho de 2013

Linhas da Vida

Escrevi até ver meus dedos desgastarem.

Rimei, cantei. Apontei meu lápis e atirei inúmeras folhas ao chão.

Tentei forçar uma inspiração que não existia, e extrair de minha alma um ultimo suspiro verdadeiro.

Rimas não havia, muito menos harmonia.

Foram infinitas linhas de puro sacrilégio.

Infinitas linhas pensando no que te agradaria, mas nada sincero.

Infinitas linhas ignorando o coração.

Infinitas linhas secando lágrimas, ao invés de deixá-las livres.

Infinitas linhas sendo todos, menos eu.

Fora-se todo o meu caderno, não havia mais folhas nem linhas. Nem infinitas linhas.

Do lado do lixo vejo um pequeno pedaço em branco; um minúsculo pedaço de inspiração,

E escrevo meu verdadeiro poema: “eu amo você”

- Dedos Azuis

domingo, 2 de junho de 2013

O Garoto e A Escuridão

Eu estava pronto para me deitar.
Hoje seria o dia em que venceria o meu mais profundo e secreto medo.
Eu sempre tive medo do escuro.
Mas não mais. Um garoto da quinta serie não deveriia ter medo do escuro.
Eu levantei da cama e fechei a porta, delicadamente.
Sentei no centro do quarto, a chuva caia forte. Um raio cortou os céus e tudo se apagou.
Pensativo, levantei a cabeça e perguntei:
“Por que eu tenho medo de você?”
A escuridão tomou forma de um garoto e tocando meu ombro, respondeu serenamente:
“Eu não faço ideia, amigo. Eu não sou nenhum vilão.”
Abaixei a cabeça, duvidoso. Eu cresci aprendendo a temer o desconhecido.
“Você não deve temer.” - Continuou. - “Eu sou aquele que esconde a realidade, que omite o medo. Eu sou aquele que esconde o que a luz insiste em escancarar em vossa face. Você não deveria temer a mim. Você deveria me agradecer, amigo.”
Eu ergui a cabeça e sorri para aquele garoto de rosto negro.
Me levantei. As luzes voltaram à acender. Meus olhos doíam.
Me deitei e apaguei as luzes.
“Boa noite.”
-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Viver

Lá estava novamente, o velho e seu espelho.
Um espelho mágico, porém. Um espelho que refletia uma vida de 47 anos atrás.
E ele se perguntava; onde foi parar toda aquela cor?
Para onde aquele turbilhão, antes chamado de vida, se escondeu para dar espaço a um monótono tique taque de um velho relógio, que sem permissão tornou-se o mestre do tempo. Risadas, agora ecos abafados de ponteiros desgastados.
Para onde foram os seus amigos? 
As pessoas que riam e cantavam ao seu lado. Aqueles que para sempre juraram estar. Onde estava o André, o Guilherme? Bruno ou Pedro? Qualquer Rafael serviria, qualquer braço estendido para um abraço. Qualquer sorriso. Aqueles que por anos estiveram, não estavam mais.
Agora o velho olhava para o lado, e preenchendo o ambiente, apenas música. Músicas e uma solitária lágrima. Solitária como o velho descolorido.
E por fim o amor. Sem dúvidas, esta fora a pior parte da fotografia.
Foram tantos amores, e tantos amores em potencias. Para o velho, antes jovem, era só aceitar. Apenas deixar ser amado, para ser amado. Tantas pessoas que cederam seu coração em busca de apenas um singelo fragmento de amor. 
Porém, para o antigo jovem, a vida se resumia em uma esplendida festa. Cada dia era alguém diferente. Cada dia uma nova boca, um novo sorriso, um novo coração apaixonado. E ah, como era delicioso esta época, como era gratificante, sentir em sua mão o que apenas um par de olhos azuis eram capaz de realizar. 
Lágrimas brotaram dos mesmos olhos azuis quando lembrou-se de seu primeiro amor. De sua primeira namorada. Tentou sorrir, mas as rugas não permitiram. Lembrou do fim, belo e incerto. Chorou mais ao lembrar de garotas que cederam tudo por ele, e que não fora concedido em troca nem mesmo agradecimentos banais.
O velho olhou pela janela, respirando a suave brisa que lhe acariciava o rosto, e permitiu-se sentir as lágrimas esfriando em suas bochechas ressecadas.
E assim por muito continuou, sentado, o velho e seu espelho mágico.
E assim, por muito continuei, sentado, olhando para aquele pequeno porta retrato, naquele solitário quarto do Residencial Recanto Feliz.
E permaneci naquela posição, aproveitando a brisa, um último toque terno, para sempre.
- Dedos Azuis

V.

Os dias se seguiam sempre da mesma maneira
Ele segura sua mão sob a mesa
Ninguém pode ver, ninguém pode ver
E nunca passaria de um dar de mãos
Ela só queria saber o porque
Talvez se tivesse falado ainda estaria vivo
Talvez o amor não tivesse se transformado em ódio
Talvez seu sangue não dominasse o salão
Talvez não tivesse sentido a dor
Talvez ainda segurasse sua mão
Mas ele ainda segura sua mão
Os dias se seguiam sempre da mesma maneira
Ele segura sua mão, não apenas sob a mesa
Ninguém pode ver, ninguém pode ver

- Dama da Noite

quinta-feira, 23 de maio de 2013

13 090 610


Você pode enviar-me um desenho.
Me escondia em meio as crateras. Mas qual a graça de um
esconde-esconde solitário?
No ar, alcançava as mais incríveis façanhas, as mais lindas piruetas.
Mas qual a beleza em não ser observado?
Corria, sorridente, por um solo tão branco quanto o sorriso de Deus, 
rumo ao encontro de meu amor. Mas como continuar quando não
há um amor?
Lembrava-me de uma antiga piada e sorria. Mas não havia ao meu lado
ninguém para sorrir comigo.
Não havia nem um amigo. Nem sete bilhões.
Não havia rosas nem raposas, gordos ou magros, Harrys nem Ronys.
Pode parecer, mas nem sempre é divertido morar na lua,
Se você quiser, você pode enviar-me um desenho
- Dedos Azuis

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Subindo


Entrei no elevador. O jovem senhor jazia com o braço estendido, segurando a porta aberta.

- Estou esperando um amigo – Explicou-me. Assenti com a cabeça e sorri.

Ele recolheu o braço e me fitou. Abriu um amarelado sorriso.

- Olá, amigo.

Continuou me fitando. Sorri de volta.

- Qual andar, amigo?

-Quarto, por favor.

Ele fez um lento movimento e apertou o botão do vigésimo andar. Voltou o olhar para mim e sorriu com entusiasmo.  Sorri também.

A música do fundo preenchia o ambiente.

- Esta ouvindo este tic-tac? – Perguntou-me.

Foi quando percebi que sua panturrilha esquerda recheava a calça de maneira disforme do convencional. Olhei para ele. Sorri, e acrescentei:

- Está frio, não é mesmo?

- Por enquanto, por enquanto.

Trocamos olhares e sorrisos. Típicas conversas de elevadores.

- Dedos Azuis

terça-feira, 14 de maio de 2013

Escolher

A luz amarelada ofuscava minha vista. Tão forte, mas tão fraca, a pequena lâmpada balançava de um lado para o outro, no fino fio que a prendia ao teto de madeira.

Tentei acalmar minha respiração. Minhas costelas estavam marcando até mesmo minha suja camiseta. Resultado de quatro dias sem comer. Minha boca sangrava, minha pele estava ressecada. Resultado de quatro dias sem água. Minhas roupas estavam amassadas, rasgadas, suadas. Resultado de quatro dias sem tomar banho, sem trocar de roupa.

As tábuas de madeira do piso, as tábuas de madeira do teto; todas apontando e rindo de minha situação, de minha angústia.

Há quatro dias meu poder aflorou. Foi a primeira vez. 

Me tranquei no sotão desde então. Não sairía, não sairía. Não por enquanto

“Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”, disse uma vez o tio de um colega meu.

Como, então, sair do sotão sem saber se voltarei meus poderes para o bem ou para o mal? Como sair sem saber? Onde esta, então, a responsabilidade de meus poderes? Preciso decidir, preciso decidir. Bem ou Mal?

Eu não sou totalmente Mau. Não, não sou. Mas estou longe de ser Bom.

Por um lado tem o bem. Proativo, bondoso, acolhedor. Viver de maneira simples para dar o conforto ao próximo. Por outro existe o mal. Egoísta, egocêntrico, conquistador. Viver de maneira esbanjadora, infinitas riquezas, infinitos falsos amigos.

Existe céu, inferno. Anjos, demônios. Bem, mal. Agora só me resta escolher o que ser.

Escolhi ser um pato.

- Dedos Azuis