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domingo, 25 de outubro de 2015

A Criança sem Nariz

Os preguiçosos raios de sol rosa-alaranjados já tinham se despedido do céu há muito tempo. O negrume lusco-fusco de um crepúsculo mal-resolvido começava a se expandir, anunciando com trombetas infernais a vinda da noite.
"Maldito Rogério e sua infinidade de planilhas à ser contabilizadas", pensei. Nesta hora, eu provavelmente já estaria logado na Netlfix, tomando uma sopa instantânea enquanto meu maltês já alimentado me acompanhava no oitavo episódio de Narcos. Mas não, graças ao maldito Rogério, cá estou eu, indo para o ponto de ônibus duas horas mais tarde do que meu horário normal.

- Não, não, não!! - gritei. E lá se foi o último ônibus 3.85. Sangue, excremento, suor, lágrimas, detritos, dejetos decompostos. Três quilómetros percorridos a pé, pelo bairro mais sujo desta imunda cidade. Uma hora de caminha infernal, através do próprio inferno. 

Maldito Rogério. 
Maldito 3.85. 

Puxei meu iPod do bolso e desenrolei os earpods. A sujeira acumulada nas pontas dos fones só davam-me menos aflição do que os fios rachados. O cordão que uma vez já fora branco estava amarelado, desfazendo-se em meus dedos. Maldição, maldição. 

Hello darkness, my old friend 

Enquanto eu andava, olhando para o chão e chutando garrafas vazias, Simon e Garfunkel cuidava de minha depressiva trilha sonora. Se eu não poderia desfazer a visão desprazerosa ou o cheiro desgostoso daquele caminho, pelo menos poderia transportar meus ouvidos para longe dali.

I've come to talk with you again 

E, de repente, uma terrível sensação. A incomoda presença que aparenta te seguir, te vigiar. Olhei para trás, sobre o ombro direito e deparei-me com duas silhuetas que me acompanhavam.
Maldição, só faltava eu ser assaltado agora. Fui mais rápido. 
Meu coração acelerou, ouvia os passos a trás de mim tornando-se mais intensos, mais pesados. Comecei a correr. Maldição, maldição.

Because a vision softly creeping 

 Quase gritei quando um vulto cortou minha frente. Parei de súbito, pronto para vomitar minhas vísceras. Olhei para trás, mas não havia mais ninguém.
Tirei os fones dos ouvidos, mas Simon e Garfunkel continuaram cantando.

- QUEM ESTÁ AI? - gritei.

Left its seeds while I was sleeping 

- Vocês querem me roubar? Que assim seja, porra! Venham, levem toda essa merda! Atirei o iPod no chão com força, mas o aparelho não se quebrou. 

And the vision that was planted in my brain 

O silêncio predominava, e a única coisa que eu conseguia ouvir era minha respiração pesada, meu coração explodindo em meu peito e a fraca música que cantarolava no fundo.

Então, quebrando a calmaria efêmera, das sombras formadas pelas ruelas sinuosas e tortas que margeavam a rua, saiu uma estranha garotinha. As luzes amarelas dos postes velhos deixavam seu aspecto um tanto quanto sombrio, sinistro. Um vestido branco rasgado adornava seu corpo e, escondendo a face, uma máscara de cirurgião finalizava o incomum conjunto. 

Still remains 

Fiquei olhando aquela figura, atônito, com calafrios percorrendo todo o meu corpo. Por fim, murmurei:
- O que você quer?
Ela não respondeu.
- O QUE VOCÊ QUER? - gritei.
- Você me acha bonita? - ela perguntou. 
A voz era a mais pura e inocente que eu já ouvira. Adocicada e angelical. Era suave, era tênue. 
Mas eu não sabia o que responder.

- S-s-sim - menti. 

Ela então fez algo que parou o meu antes explosivo coração; removeu a máscara, revelando o buraco no meio de seu pequeno rostinho. A ferida havia removido completamente seu nariz, deixando no lugar um aglomerado de carne exposta, sangue, pus, tecido adiposo e traços do que parecia ser osso. 

Engasguei em minha própria saliva, tomado por um refluxo irracional. Virei para o lado e comecei a vomitar, enquanto e pequena garota caminhava em minha direção. 

- Você ainda me acha bonita? - ela perguntou novamente. Era a mesma voz doce de antes, era a mesma voz. Mas eu não conseguia nem olhar para seu rosto, pois sabia que seria inundado novamente pelo acesso de ânsia. 
- S-sim, sim, ainda acho.
Ela sorriu. Cruelmente, não posso dizer que era um sorriso bonito, pois a ferida chorava lágrimas de sangue sobre sua pequena boca, mas ainda assim era inocente e puro. 
E então ela começou a gargalhar, e naquele instante toda a doçura se desfez. Aquilo era a personificação do mal.
Ela era a forma mais pura de maldade que eu já presenciei.

Um negrume abriu em meu coração, e todo meu peito foi tomado por um vácuo desesperador.
Tentei correr, mas o cimento tinha cedido e incorporado meu pé em sua fundação. Meus braços tornaram-se pesados como chumbo e movimentá-los mostrou-se impossível. 
A garota aproximou-se mais, ainda gargalhando. Tirou um pequeno bisturi da faixa que prendia seu vestido e disse:

- Moço, não se preocupe, eu vou te deixar bonito também!

Within the sound of silence

- Dedos Azuis

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Ônibus 3.85 #10 - 45 53 43 4f 4e 44 45 52

"Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo." - Sófocles

As chamas das velas oscilavam uniformemente fazendo com que as sombras da mobília e daqueles dois corpos sentados sobre o sofá se alongassem e escalassem as paredes. A maior parte do cômodo estava devorada pela escuridão que a cada minuto consumia mais alguns de seus centímetros, transformando a aconchegante aparência dos móveis rústicos em assombrosas peças de mostruário de alguma loja de velharias.
A figura de vestido azul sentada desleixadamente sobre as gastas almofadas direcionava seus olhos na direção do televisor desligado enquanto exprimia uma fisionomia consagrada pela mais profunda estranheza. Balançando involuntariamente os antebraços e direcionando as palmas entreabertas para cima à medida que escorregava a cabeça para trás, esperou alguns poucos segundos e fechou os olhos.
No momento em que suas pálpebras se encostaram, o garoto ao seu lado pôde ver o movimento epilético realizado por seus olhos, que desenhavam pequenas esferas confusas de pele. Suas sobrancelhas e nariz projetavam a natureza dos pensamentos que invadiam a sua mente: o abismático terror sentido por aqueles que viram o inconcebível.
O garoto esticou as pequenas mãos e colocou-as sobre a palma esquerda da mãe que convulsionava violentamente, arpejando uma musica amedrontadora ouvida apenas por ela, esticou o torso para se aproximar do rosto dela enquanto exprimia o desespero de uma criança que não compreende o que está acontecendo. Nunca a vira protagonizando nenhuma ação desmedida ou incontrolável como aquela, exceto pelos flagelos e os súbitos acessos de raiva que jamais pôde compreender.
Virou o rosto na direção do dele, ainda tremendo e de olhos fechados, os ombros balançando involuntariamente como os rodeiros de uma locomotiva desajustada e desferiu um ruído quase inaudível e inesperado:
- "Horas" - o garoto a olhava sem entender - "Que horas" - soltou a mão da mãe e correu na direção da mesa de canto, onde descansava o velho relógio de pêndulo, o apanhou rapidamente e o levou ao sofá. Sentou-se e esticou as mãos trementes, segurando o relógio em frente à face da mulher.
- "Que horas" - insistiu, sem abrir os olhos.
Trouxe o objeto para si e encarou os ponteiros por alguns instantes, tentando reconhecer os números e dizer as horas que nunca aprendera. Lembrou-se que os ponteiros formavam uma linha vertical sempre que fosse hora de jantar e que o ponteiro menor sempre andava um número quando o maior realizava a volta completa, disse:
- "São duas voltas" - olhou para a mãe que aguardava em silêncio, de lábios entreabertos e cabeça encostada no sofá. Não estava tremendo, mas seus olhos fechados continuavam a dançar - "Não" - voltou os olhinhos para o objeto e corrigiu - "Duas voltas e meia, depois do jantar".
A mulher soltou um longo suspiro, seus olhos não bailavam sob as pálpebras.
- "Oito e meia" - rosnou, desencostando violentamente o pescoço do sofá, apoiou as mãos sobre as almofadas e empurrou o corpo para se levantar, criando um rastro formado pelos seus cabelos castanhos que antes pendiam pacificamente por trás do móvel. Olhou para aquele garoto assustado que se agarrava ao macio tecido que envolvia a almofada e a pressionava contra o peito.
- "Ela vai me bater de novo!" - pensou enquanto seguia com os olhos a figura azulada cruzar a sala.
Dirigiu o olhar para o lado sem compreender por que sua mãe caminhava até a cozinha sendo que o cinto de seu falecido pai jazia ao seu lado, sobre o sofá. O cinto sempre fora a ferramenta preferida usada pela matriarca, então descartou a possibilidade de espancamento.
Ouviu o som das gavetas de talheres serem rapidamente manejadas e o tilintar dos objetos que descansavam lá dentro, os ruídos soaram mais algumas vezes até o momento em que múltiplos baques surdos atravessaram a cozinha e a sala, as gavetas estavam sendo fechadas sequencialmente e constatou que a meta da mulher fora alcançada.
A sala estava majoritariamente consumida pela escuridão, não era possível constatar o que havia nos cantos mais distantes, somente uma das velas estava acesa, travando uma batalha imaginária contra o breu absoluto, uma luta entre luz e trevas em que a claridade se perdia perante a implacável oposição. O silêncio que dominava a casa não era natural, uma ausência total de qualquer ruído, como uma planície desolada por onde nem mesmo o vento ou qualquer forma de vida ousa passar.
Esperou estaticamente por alguns segundos, fitando a porta da cozinha com os pequenos olhinhos repousados sobre a almofada, remexendo-os e demonstrando intensa curiosidade. Um calafrio atingiu-lhe as costas quando viu a escuridão por trás da porta entreaberta da cozinha tomar forma, um abismo humanoide e de vestido azul tornava-se cada vez mais nítido perante seus olhos, tentou reconhecer seu rosto, mas não pôde analisá-los sem ser frustrado pelo reflexo que atraia seus olhos. Um objeto metálico e brilhoso agarrado pela mão esquerda da mãe projetava a luz da vela na direção de seu rosto, em poucos segundos de analise soube que se tratava de uma faca.
Um ímpeto furioso tomou conta dos membros da mulher, transformando-a em um vulto azul cinzento que escorria violentamente na direção do sofá em que Igor jazia tapando os olhos com a almofada e rastejando para a outra extremidade do móvel. Saltou sobre o filho e ergueu ambas as mãos que seguravam a faca com firmeza, a apontou para seu peito e desceu os membros para apunhalá-lo pela primeira vez. Repentinamente, um breu consolidou-se por toda a extensão do aposento, a vela apagou e toda a escuridão consumiu a sala, deixando apenas uma leve e inútil brasa sobre o móvel e o som de algo que violava o espaço físico de algum objeto macio e sem vida.
Em êxtase e rodeada pela escuridão, desferia golpes cada vez mais violentos, soltava curtos gritos e gemidos enquanto ignorava todo o vestígio de realidade à sua volta. Não pôde notar que sua vitima tratava-se de uma almofada e nem que a porta da sala estava sutilmente entreaberta, denunciando um fugitivo.
Ela só cessou o esfaqueamento e retomou consciência da realidade quando os primeiros raios de luz, provindos do estranho evento não anunciado na televisão, cruzaram os céus daquela madrugada e iluminaram o amontoado de algodão e panos que se acumulavam nos pisos da sala.
Igor nunca mais foi visto.

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- Lágrimas de Gasolina

terça-feira, 1 de setembro de 2015

O Ônibus 3.85 #9 - Uma Moeda

A partir de determinado momento, alguns indivíduos estão fadados à não ter destino e até mesmo a condição de não se ter destino é obra do mesmo. A liberdade é a ilusão de quem a sente e o mártir de quem a desconhece.

- "Eu não sou ninguém!" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - "Sou um qualquer!" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.
O motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.
- "Isso foi incrível!" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.
O ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.
O homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:
- "Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - "E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.
Os dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.
"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.
Sentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.
Por um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.
As arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.
Eram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.
Rodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.

- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.

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-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #8 - Projeções

Por que as coisas devem se limitar ao que são?

Levantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.
- "O desgraçado surtou!" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - "Aquele era um belo carro!" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.
Era um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.
- "Quer saber de uma coisa, Anderson?" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - "Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.
As dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.
- "Aquele ali é o Sr. Anderson" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - "Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.
As nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.
- "O que você está fazendo?" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - "Você ficou louco?" - Gritou junto a uma trovoada distante.
O homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.
- "Você não imagina o quanto este carro me custou!" - Esbravejou Anderson - "Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!" - Fez uma pausa - "Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?" - Completou, balançando negativamente a cabeça.
O homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.
- "Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - "A policia já está a caminho!" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.
O homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.
Anderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.
- "Mas que merda!" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.
- "Você é um escroto, Dante!" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - "Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.
Dante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.

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- Lágrimas de Gasolina

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho

A realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?
No fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.


Estava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista.
Andou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.
O ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros.
- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa.
Dante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.
- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.
Olhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:
- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.
- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas.
A pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado.
Ele olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue.
Estava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.
- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.
Levantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.
- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.

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- Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #6 - Início

Você alguma vez já parou e se perguntou o que teria acontecido se tivesse se atrasado alguns minutos para algum evento do passado?
E se seus pais tivessem atrasado algumas horas para se conhecer? Talvez algum terceiro elemento tivesse tomado partido antes de um deles e se apaixonado, impedindo o seu futuro nascimento e, conseqüentemente, eu perderia um leitor.
E se você tivesse atrasado alguns minutos hoje de manhã? Talvez tivesse perdido o ônibus e o emprego.
E se você tivesse atrasado alguns segundos na semana passada? Talvez você pegasse aquele semáforo da esquina fechado, atrasando mais alguns segundos e impedindo a colisão que envolveu o seu carro na esquina seguinte.
Consegue perceber como os pequenos acontecimentos em um curto espaço de tempo podem gerar diferentes conseqüências?

Colocou os talheres, delicadamente, sobre a mesa, enquanto analisava os desenhos em forma de ondas dos mesmos. Apoiou os cotovelos sobre a superfície de madeira cuidadosamente feita a mão por algum artesão colonial renomado. Deixou os ares de satisfação entrar pelas suas narinas. Sua mãe não era a pessoa mais afável do mundo, mas cozinhava como uma deusa.
A mulher estava terminando a sua refeição, tinha os olhos cansados e desapontados, com uma das mãos dirigia uma garfada após a outra, sem proferir um ruído se quer, enquanto a outra repousava sobre o avental amarrotado e disposto sobre o colo encoberto pela parte inferior do vestido.
Terminou de comer e se levantou logo em seguida. Desamarrou o avental das costas, passou a pequena alça pelos cabelos castanhos, retirando-a por completo, dobrou o tecido ao meio e o dispôs sobre o balcão. Olhou por alguns segundos para suas mãos cansadas e envelhecidas, fechou os olhos. Igor a olhava por trás, ainda sentado a mesa, direcionando os olhinhos para a parede, pôde ver a silhueta que dançava, projetada pela soma de corpo e luz de velas.
- "As sombras não envelhecem" - pensou enquanto debruçava sobre os bracinhos.
Voltou a observar a movimentação de sua mãe, que apontava para a mesa e para as louças, a analisou por alguns segundos e entendeu, se levantou e começou a recolher os vestígios do que foi um delicioso jantar.
Soltou um som quase inaudível, proferido através dos dentes, como se queimasse a língua com algum tipo de fluido quente e invisível. Caminhou de cabeça baixa em direção ao velho sofá estacionado no cômodo ao lado, elegantemente disposto em frente a uma pequena tela televisiva de vinte polegadas. Passou os dedos sobre um dos botões agrupados no painel integrado ao lado da tela e o dispositivo se acendeu, fazendo rosnar um chiado de intensidade baixa e irritante.
Os sons do noticiário invadiam a cozinha, onde o jovem lavava as louças e enxugava alguns pratos. O programa começava sempre às sete horas da noite e sua mãe sempre o assistia. A noite já havia tomado conta do lado de fora e a casa estava tomada pelas luzes de velas e pela coloração cinzenta da velha televisão.
- "Um estranho fenômeno acontecerá às vinte e duas horas da noite de amanhã e poderá ser visto de toda a América do Sul, os cientistas dizem tratar de uma gigantesca massa de nuvens estratosféricas polares causadas pelas conseqüências da emissão de gases poluentes na atmosfera, dominando os céus da noite de quarta-feira, atingindo seu ápice na madrugada de quinta-feira. Os mais esotéricos acreditam ser um presságio para o fim do mundo" - Dizia o homem de penteado brilhante com suas mãos sobre a mesa, enquanto algumas imagens rodavam pela tela ao seu lado.
- "Nos dias de hoje" - A imagem pulou para um senhor de corpo franzino e cabelos calvos esbranquiçados - "Esse tipo de fenômeno meteorológico costuma ser corriqueiro nas regiões mais frias do planeta, chamadas de regiões polares. É extraordinário que estes aconteçam em regiões como o Brasil e Argentina" - Disse o meteorologista.
- "O que o senhor acha das teorias?" - Perguntou a repórter.
- "As conspirações? Sobre o fim dos tempos?" - Olhava incrédulo para a câmera - "As pessoas não estão acostumadas com o extraordinário, o que justifica todo esse misticismo alvoroçado." - E desligou.
O garoto estava recostado no batente da porta entre a sala e a cozinha, havia terminado seus afazeres e pôde ouvir toda a notícia. Andou até o sofá, deu umas palmadas na almofada e se sentou.
A televisão estava desligada, via-se apenas o reflexo das velas nos olhos de sua mãe e na tela escura. A mulher estava perplexa, como alguém que acabara de presenciar um atropelamento.
- "Eu" - Os olhos do garoto pareceram saltar - "Esperei por tanto tempo" - Disse a matriarca.
Esticou-se para entender enquanto não acreditava que escutava as primeiras palavras já proferidas pela mãe.

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- Lágrimas de Gasolina

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O Ônibus 3.85 #5 - Infinitos Vazios

As faces contorceram-se. Os que não estavam encarando as ações de Dante, agora estavam.
Até mesmo àqueles estacionados sobre as cadeiras, contorciam o pescoço de forma pouco natural na direção do homem que destruía o rosto do motorista.
Ouviam-se os gemidos ecoando, algumas respirações e um baque surdo de carne contra ossos, de segundos em segundos, por toda a dimensão metálica do ônibus.
O homem estava dominado por um tranqüilo frenesi, que misturava uma raiva desmedida e incompreendida com uma calmaria de fim de tarde. Não apresentava pressa para desferir mais outro soco, atingia-lhe a face e o encarava por alguns segundos, sentia uma fagulha de pensamento dominando a sua mente - Por que estou sentindo tanta raiva deste homem? - E em seguida, o atingia mais uma vez. Repetiu esta ordem por mais três vezes.
Levantou a mão direita pela quinta vez, preparando-se para aplicar a primeira lei de Newton nos ossos faciais do motorista. Girou o punho e ela foi aplicada, não por Dante, mas pelos dedos e mãos de um terceiro, que o inertizava, segurando seu pulso. Olhou para trás e viu aquele que o impedira de continuar. Era um passageiro. Aquele cujo Dante havia se sentado ao lado horas atrás, que não se dispôs a percebê-lo quando se levantara.
O passageiro, com ares funéreos, segurava seu punho levantado, sem demonstrar qualquer sinal de humanidade, parecendo uma casca humana vazia. Trajava um terno caro de gerente de banco e olhava indiferente para a nuca do homem a sua frente.
Dante estava de pé e de costas, olhando por cima do ombro, segurando o motorista inconsciente pela jaqueta jeans com a mão esquerda. Seus olhos, arregalados, não entendiam o que estava acontecendo, tremendo e procurando por uma solução, soltou o motorista, que atingiu o chão sujo de sangue e poeira. Tentou levar a mão esquerda até o punho direito para arriscar uma soltura e tomar espaço, mas falhou, outros dedos e mãos seguravam seu punho e braço esquerdo. Girou o crânio e os olhos para procurar por seu segundo limitador e encontrou. Outros dois passageiros, um adolescente de camisa escura e uma pré-adulta de vestido vermelho, ambos com faces mortas e apáticas.
Balançou os ombros, tentando desesperadamente se soltar, enquanto observava o motorista se levantar. O viu arrumar a jaqueta jeans e ajeitar as luvas antes de acertar-lhe um soco no nariz.
- "Meu deus, eu só queria ir para casa" - Falou em voz rouca e baixa - "Como tudo isso foi acontecer?"
O motorista riu.
- "Você realmente não está entendendo nadinha de nada, mesmo? Você realmente acredita em acaso, seu verme inútil? Você ainda não" - Um barulho gaseificado soou, o ônibus começou a se mover segundos depois. A feição de deboche do motorista mudou para uma expressão de dúvida.
Olhou para trás, na direção do pára-brisa, com os lábios entreabertos de incredulidade, apenas para confirmar se a movimentação que estava sentindo era verdade e não fruto do espancamento que sofrera.
De fato, o ônibus estava se movendo, soltou um grito e correu para o assento, deixando o homem e os passageiros para trás. Sentou-se e apanhou o volante.
- "Algo está errado, o ônibus não deveria se mover sem mim" - Pensou - "Só se" - E se virou para encarar um homem aprisionado pelos seus servos.

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- Lágrimas de Gasolina




segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #4 - A Graciosa e a Cheia de Graça

O sinal para o intervalo soou, ouviram-se alguns gritares e assovios. As crianças levantaram-se das cadeiras, deixando o professor que implorava por atenção.
Saíram correndo na direção da porta, não dando a mínima atenção para o professor, que soltou um leve som de insatisfação regado com alivio.
Em poucos segundos a sala estava vazia. Olhou para os lados à procura de alguma alma compadecida e lá estava ela, no canto direito, próximo a janela, no fundo.
Ana, ainda sentada, aguardava o professor dar o sinal para se levantar.
Apoiando-se na mesa com ambos os palmos, olhou para a garota de olhos verdes.
- "Ei, Ana. Você pode sair, é hora do intervalo."
Ainda sobre a mesa, repousava um caderno com todo o conteúdo da aula, devidamente anotado.
Graciosamente, prestando total atenção nos lábios do professor, se levantou, arrumou a mochila e saiu.
Os olhos do professor a seguiram enquanto cruzava a porta e perguntou-se a razão de as outras crianças não serem iguais a aquela garotinha.
Uma mochila cor-de-rosa com alguns chaveiros dispostos de forma simples pendia sobre um dos ombros. Caminhava a passos rápidos, como se não quisesse ser incomodada, mas, na verdade, sua mente ainda trabalhava e Ana estava perdida em meio a tantos papeis mentais.
Colocando um pé na frente do outro, olhando para baixo. Este era o seu andar.
Puxou a manga que cobria o braço esquerdo, revelando um delicado relógio dourado e esticou os olhinhos para ver as horas. Estava atrasada e o corredor parecia infinito, talvez mais alguns passos e chegaria até o refeitório. Apertou ainda mais a corrida, entendendo perfeitamente o motivo de tanta correria feita pelas outras crianças, o intervalo é curto demais e não daria tempo para fugir da escola.
Sua mente vagueava pelas decisões que, mesmo ainda indevidamente medidas, já haviam sido tomadas. Para sua cabecinha de criança, seria o que chamamos de um grande feito. Talvez, um pequeno passo para qualquer pré-adolescente, mas um grande salto para uma criança de nove anos.
Quando se deu conta, já havia chego ao refeitório e dali já pôde ver o limiar de seu plano:
As portas de saída, que ainda estavam abertas.
Olhou para os arredores, como quem procura um fruto maduro em uma arvore. Não encontrou nenhum e correu na direção da porta. Atravessou-a utilizando-se de um salto, caindo com ambos os pés na calçada.
Correu em direção à esquina, ouvindo o sinal que gritava ao fundo, chamando os alunos para entrarem em sala, mas ela não, pois aquela garotinha de cabelos longos e castanho-escuros estava livre para fazer o que queria e nada a impediria.
Ana olhou para trás por um momento e viu uma face familiar e feminina vindo na direção dela, correndo a uma velocidade envelhecida, pós-adulta. Não havia tempo para pensar, simplesmente ergueu os pequenos pés e colocou-se em movimento.
Chegou ao meio fio e olhou para os lados em busca de esperança e para averiguar se nenhum automóvel viria em sua direção, pois iria atravessar a rua sozinha pela primeira vez.
Olhou para a esquerda e as ruas estavam desertas, alongou o pescoço para a direita e arrepiou-se. Não era um automóvel que acelerava em sua direção, mas sim uma ponta de esperança. Era o 3.85.
Rapidamente o ônibus parou à sua frente e abriu as portas como um super-herói-automóvel que veio justamente para salvar o dia. Colocou os pés sobre os primeiros degraus e sentiu um puxão, que provinha das hastes que prendiam suas costas e ombros à mochila.
A monitora segurava a alça superior da mochila e puxava a garota. Ana gritou e soltou a mochila, gritando mais uma vez enquanto as portas se fechavam. A monitora abraçou a mochila.
Ana nunca mais foi vista.


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-Lágrimas de Gasolina

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #3 - O Duradouro

- "Por quê?"
O motorista o encarava com olhos arregalados de incredulidade. Nunca, até aquele momento, alguém havia lhe feito qualquer tipo de indagação. Não podia acreditar que o dia que tanto temia chegaria tão rápido.
O rapaz se levantou e perguntou novamente, porém com o tom um pouco mais eloqüente:
- "Por quê?"
O motorista cerrou os olhos, apertando os punhos, mas conseguiu se conter. Não poderia deixar que o medo o dominasse, seria certo que perderia o posto. Olhou para os passageiros, que mantinham a mesma posição, como peões de estanho em um tabuleiro de xadrez, indiferentes e desinteressados.
- "Que bom" - pensou - "ainda estou no comando."
Voltou o olhar para o homem na sua frente, que o encarava com olhos de fornalha e fedia álcool.
- "Qual é o seu nome?"
O homem afrouxou os olhos, sentindo-se mais seguro, pois sabia que não perderia a carona.
- "Dante, mas pode me chamar pelo meu segundo nome" - E recebeu um soco no canto esquerdo do rosto, atingindo a face no ombro da garota que residia ao seu lado, obrigando-o a se sentar.
Em estado de semi-lucidez, se perguntou o que estava acontecendo e recebeu outro golpe, dessa vez atingindo-lhe a têmpora esquerda. Ninguém moveu um membro ou esboçou alguma reação. Nada.
Olhou para o próprio peito, onde abrigava uma camisa amarrotada de coloração vinho e a viu ficando ainda mais vinho. Estava sangrando. Voltou o rosto para cima e levantou os braços, obstruindo a passagem de um terceiro ataque.
Levantou-se e olhou para os olhos do seu agressor, que gargalhava enquanto atingia-lhe os braços com os pulsos encobertos por uma fina luva de motorista.
Uma gota de sangue escorreu de seu rosto e atingiu a manga da camisa, contraiu o ombro direito e, em seguida, esticou o braço, em um movimento cruzado, cortando o ar na direção da face do motorista. Lembrou-se dos dias de glória, dos bares e das festanças, quando algum de seus amigos participava de alguma briga por engano.
O motorista tropeçou para trás, devido o golpe que lhe fora dado no queixo e caiu zonzo.
- "Os dias passaram rápido demais, não houve tempo suficiente para treinar" - pensou, enquanto via um corpo vinho e de calças sociais voando na sua direção, pronto para esbofeteá-lo por mais alguns segundos.
Soltando um grito de ajuda, quase ordenando, se encolheu cobrindo o rosto com as mãos e encolhendo os joelhos na direção do peito, em posição fetal.
- "Alguém faça alguma coisa!"
Dante soltou uma risada e esticou as mãos na direção da jaqueta jeans do motorista. Piscou depressa para retirar um cisco do olho e disse:
- "Eu nem sei o que está acontecendo aqui! O senhor levantou do seu posto, perguntou meu nome, me deu alguns socos e ninguém na droga desse ônibus fez porcaria nenhuma, mas que droga de mundo é esse em que vivemos? Olha para todas estas pessoas aqui!" - disse apontando para todos e percebendo que todos o encaravam de volta, sentiu um leve calafrio. Dando um soco na face do motorista, continuou:
- "Venham e façam alguma coisa!"


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- Lágrimas de Gasolina



terça-feira, 21 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #2 - Sem Futuro

Igor estava brincando no jardim quando sua mãe bateu na parede e fez sinal para que entrasse.
Correu em direção à humilde casinha da viúva, chorando, quase implorando para não ser esbofeteado.
Chorou em vão, pois quando cruzou o batente, sua mãe já estava em pé sobre o tapete da sala, trajando um vestido azul claro, um avental que escorria até os joelhos e em uma das mãos, uma longa e grossa cinta de seu falecido marido.
O garoto apanhou como um cachorro naquele dia. Igor estava no auge de seus 12 anos e já havia apanhado mais que qualquer outro garoto da rua, mas disso o pobre garoto não sabia, pois não conversava com as outras crianças, afinal, sua mãe não permitia que saísse para brincar.
Quando a mãe o soltou, correu pelo piso de madeira, com o rosto inchado de tanto gritar e chorar. Não entendeu o porquê daquelas cintadas desferidas contra seu corpo. Na verdade, Igor nunca compreendeu nenhuma das punições dadas pela mãe, ela nunca lhe disse uma simples palavra, seja de aprovação ou de censura, se a mãe permitisse que ele fosse à escola, provavelmente Igor poderia supor que o caso dela tratava-se de uma deficiência auditiva e que nunca aprendera a falar.
Enrolou a cinta e jogou sobre a velha poltrona. O garoto estava encostado no canto escuro da sala ao lado de uma peça rústica, que compunha parte da decoração da casa, seguiu sua mãe com os olhos, que caminharam em direção à mesa de jantar. O cheiro de carne moída com molho de tomate impregnava o ar e adentrava as narinas do garoto, sua barriga estava roncando.
Apanhando um pequeno sino de estanho, descansado sobre a mesa, e fazendo-o tilintar, a mulher deu sinal para que aqueles que jaziam na casa se aproximassem para o jantar.
O garoto deu alguns passos sobre o piso de madeira que seguia até a sala de jantar, caminhando, com os pés ainda sujos de terra, na direção da mesa. Puxou uma cadeira e se sentou. Sua mãe estava sentada logo à frente, com as mãos cobrindo parte do rosto e proferindo sons ininteligíveis em voz rouca e baixa. O garoto abaixou a cabeça e fez o mesmo, se pondo a orar sem saber, conversando com uma entidade da qual nunca ouvira falar e nem saber do por que de fazê-lo.
Tinha muitas perguntas não respondidas, que eram apenas saciadas pela sua vã imaginação somadas a sua visão de mundo infantil e sem embasamento familiar. Para ele, o mundo se resumia ao quintal de sua casa, sua mãe e os pássaros que voavam por cima do muro.
Estes momentos antes das refeições tinham um brilho intenso de reflexão e autoconhecimento que Igor jamais se daria liberdade de calcular, assim, os fazendo, simplesmente porque gostava da sensação e nunca se dando ao trabalho de questionar, seja a si ou a sua mãe.


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- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Tuberculose

Era o refrão.

- I'm lost without you, can't help myself, how does it feel, to know that I love you baby!

E o 3.85 passou, como um falcão, enquanto abstraia-me em meio ao vocal de Robin Thicke. 

Frio, noite, sozinho. E agora sem transporte. As moedas avulsas tilintavam em meu bolso, enfatizando o fato de que, tirando os R$ 3,50, eu não tinha mais nenhum centavo. 
Sem dinheiro para um taxi, sem amigos para uma carona. Neste horário, o próximo 3.85 passaria só daqui há duas horas. Meu celular apitou, sussurrando o fim, e ao som de clarinetes minha bateria despediu-se. Sem comunicação. 

Em uma hora e meia eu estaria em casa, se decidisse caminhar. Xingando o sádico destino, o frio insuportável, a bateria efêmera, o dinheiro escasso e a solidão de morar em uma cidade em que você não conhece praticamente ninguém, levantei e comecei minha jornada. 
A cada passo, repreendia-me mais intensamente, pela falta de atenção. Odiava-me ao ponto de começar a traçar em minha mente soluções incrivelmente ruins para o meu problema. Eu poderia voltar para o ponto de ônibus, e esperar. Talvez tirar um cochilo... e provavelmente ser assaltado. Talvez pegar um taxi, e quando estiver chegando perto pular do carro em movimento... correndo risco de quebrar grande parte dos ossos de meu corpo, além de uma bela surra do taxista. Talvez roubar um carro...

Neste segundo, um suspiro metálico soprou de forma deprimente ao meu lado. Torcendo o pescoço, deparei-me com a lataria verde e branca coberta por ferrugem, os faróis ridiculamente luminosos e as portas escancaradas. O 3.85 estava estacionado ao meu lado, em uma rua que fugia drasticamente do seu destino, em um horário que ele não deveria estar lá, apenas esperando. 

Sorri e subi no ônibus. 

O motorista entrou em uma tosse frenética, escondendo o rosto no canto esquerdo de seu corpo. Sinalizou com o polegar para que eu me dirigisse para o fundo. Não tinha cobrador, então não fiz nenhum movimento para pegar os R$ 3,50 em meu bolso. Nunca se sabe o dia de amanhã. 

Caminhei até o último banco e sentei, com um suspiro de satisfação. Logo estaria em casa. 

Porém, como se lendo meu pensamento e resolvendo contrariar-me, o motorista simplesmente levantou e saiu pela porta de embarque, deixando o motor ligado. 

O cinto apertou-se contra meu peito com uma intensidade anormal (eu não lembrava de ter afivelado os cintos), tirando todo ar de meu pulmão. Tentei gritar, mas nenhuma voz saiu de minha garganta. As janelas estavam completamente embaçadas e opacas, o motor rugia com voracidade. 
O tecido do banco projetou-se, penetrando em minha pele, enquanto eu me debatia enfaticamente. Aos poucos, começou a entrelaçar-se com meus músculos, e senti uma dor aguda, como se minha alma estivesse sendo arrancada de mim. Circulou minha cabeça e entrou em meus orifícios faciais, furando meu tímpano, destruindo meus olhos e adentrando por minha boca e nariz. Desmaiei com a dor. 

Acordei com um pulo assustado. 
Olhei para ambos os lados, assimilando o local. Ainda estava no ponto de ônibus. Maldição, havia sido a porra de um pesadelo. 

Tentava regularizar meu coração acelerado quando o 3.85 virou a esquina. Sinalizei com o indicador. 
Antes de subir a escada, notei a pintura descascando e a ferrugem exagerada. Maldita EMDEC e sua frota velha de ônibus.

Paguei os R$ 3,50 para o motorista e caminhei para os bancos do fundo. Logo que sentei, ouvi uma tosse doentia apoderar-se do motorista. 

Era impressão minha ou ele estava vestido de palhaço?


- Dedos Azuis

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O Ônibus 3.85 #1 - Fim da Linha

Fez um daqueles barulhos de gás escapando, como se alguma coisa estivesse com defeito, e parou.
Um bêbado caminhou em direção a entrada do ônibus, apoiou-se na porta traseira e puxou o próprio corpo contra a escada.
Entrou sem pagar, como de costume. Ninguém falou nada, nem mesmo o cobrador.
Sentou-se em uma das cadeiras, olhou para o lado e viu um rosto cinza. Eram nove horas da manhã.
A face não fizera questão de se mover, seus olhos cerrados, quase mortos, somados a uma boca cinza e sem vida. Bocejou.
Assustado, levantou-se, cuidadosamente, e mudou para o assento de trás. A face não ousou observar sua movimentação, permanecendo apático, admirando a rua com seus olhos sonolentos.
Sentou-se próximo a janela e o ônibus começou a se mover. Ainda estava zonzo devido à noite de ontem, que passara no bar. Encostou a cabeça no vidro e tentou lembrar.
Chegou às dez horas da noite anterior, encontrou alguns amigos, caminhou até o bar, pediu algumas doses e acordou recostado no meio fio. Levantou-se, caminhou até o ponto.
Bateu a cabeça no vidro, o ônibus passara sobre uma lombada, voltou a si. Olhou em volta e notou que cada vez mais assentos ocupados, alguns estavam em pé, todos mantinham a mesma expressão vazia, acinzentada. Olhou para o outro lado do ônibus, viu uma garota uniformizada, estava apoiada, encarando o lado de fora, como um animal em uma jaula, que encara seus espectadores.
Decidiu mudar de lugar e se sentar ao lado da garota. Realizou a proeza entre as chacoalhadas do ônibus para que ninguém notasse a sua movimentação. Só estava preocupado em não ser notado, enquanto os outros passageiros nem faziam questão de se preocupar. Colocou o pé direito no corredor do ônibus e em seguida pulou para o assento vazio ao lado da estudante. Ninguém percebeu.
Acomodou-se na cadeira e admirou, por alguns segundos, o acolchoado traseiro do banco à sua frente. Olhou para baixo, analisou as próprias roupas, suas mãos azuis sobre o colo e suas pernas tensionadas, não se sentia mais anestesiado pelo efeito da bebida e da noite mal dormida. Virou o rosto para a direita, em direção a garota, esticou os dedos sobre o ombro da jovem e cutucou.
A garota não se moveu, nem reagiu ao impacto do dedo contra o ombro, o único movimento notável provinha de seus cabelos castanho-escuros, que se movimentavam devido à brisa que adentrava pela janela, possibilitando ver apenas parte de seu rosto adormecido e apático.
Olhos congelados. Não admiravam a paisagem, olhavam fixamente para o próprio reflexo, impressionados e arregalados, como os de quem vê um fantasma refletido no espelho.
Levantou o pescoço, se levantando e apoiando as mãos sobre a cadeira da frente, tentou notar algo de estranho naquele ônibus, algo que não tivesse notado antes, que passara em branco.
Foi quando se lembrou das feições. Todos olhavam pela janela, mas não admiravam a paisagem. O que eles observavam com tanta intensidade eram os próprios reflexos. Estavam tão extasiados pela própria aparência refletida que não conseguiam desviar o olhar.
Notou que nem todos tinham olhos impressionados, alguns estavam com os olhos entreabertos, como os olhos de alguém que assiste ao mesmo programa de televisão durante horas sem poder mudar de canal.
Estava pasmo. Estava enlouquecendo, pensou, apoiando-se e voltando a se sentar em seguida. Percebeu que os ares estavam esfriando, mesmo que pudesse sentir a brisa provinda das janelas do ônibus em movimento, sabia que a repentina queda de temperatura não se tratava de um fator ambiental, muito menos natural.
O ônibus parou, ressonando aquele som gaseificado. Trombou o peito contra a cadeira da frente, os outros passageiros dançaram um pouco, mas se recolocaram na posição anterior logo em seguida.
O bêbado começou a ficar inquieto, estava tudo muito estranho. Colocou a cabeça no corredor e pôde ver, por entre os corpos cinza, que ocupavam o ônibus, uma movimentação vinda da cabine do motorista, que se levantara e vinha caminhando, lentamente, desviando dos corpos paralisados. Parou a duas poltronas de distancia, apontou e disse:
- "Que raios você está fazendo aqui?"
O rapaz, não mais embriagado, já aflito, ficou ainda mais angustiado. Não sabia se o motorista falava do dinheiro da passagem, aquele que não fora pago, ou se referia a alguma outra coisa. Por que ele sairia de seu posto e levantaria justamente agora, 15 pontos depois de sua entrada, parando o ônibus e adiando os compromissos dos outros passageiros, apenas para lhe dar uma bronca?
- "Você pegou o ônibus errado, meu amigo. Sugiro que saia. Agora!"


Continua

- Lágrimas de Gasolina

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Rotina

Sabe, eu nunca andei de ônibus.
Nunca vi tantas pessoas andando pela rua.
Vejo um mendigo jogado no frio. Vejo uma briga no meio dos carros.
Uma matilha de cães de rua tomam conta do asfalto, ouço uma batida oca sob meus pés.
Olho para trás e vejo um dos cães deitados no chão.
Talvez alguém devesse falar algumas coisa, é talvez alguém devesse.

Por que ninguém diz nada? Parecem tão apáticos perante o caos que chega aos meus olhos pela janela.

Sera que apenas eu assisto de verdade o que acontece lá fora? Será que eles não vêem? Sera que eles não sofrem?
Será que um dia me tornarei um ser humano tão cansado da vida que vou simplesmente ignorar os problemas alheios e apenas remoer os meus?
Será que me tornarei um escravo apático do sistema, que vai olhar para um mendigo de rua e cuspir na tua palma carente?

O ônibus para. Segunda-feira.
Eu tenho a semana toda para descobrir.

"Ou o resto da vida."
Uma voz rouca. Ouço um tiro.

Este é o terceiro suicídio este mês.
- Lágrimas de Gasolina no ônibus 3.85

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Portas e Buracos

A rua prolongava-se em uma gigantesca serpente solitária e escura. Luzes perdidas intercaladas entre postes queimados e postes amarelados traçavam um caminho que poucos gostariam de seguir. Becos abandonados, lixões em putrefação, paredes tomadas por pichações vulgares. O mundo real.

Caminhava a passos apressados, subindo a velha rua, fugindo de minha própria sombra, vez que não havia uma única alma vagando por entre as paredes maltratadas.

Exitei. Agora havia.

Na outra extremidade da rua, parada sobre um colossal poste, iluminada pela luz amarelada lusco-fusco que descia sadicamente sobre seu pequeno corpo, uma criança jazia parada. Fitando o chão, a criança permanecia ali, alternando o peso entre os pés. Para cá, para lá, e de novo para cá.

Continuei andando, subindo a rua, alheio a pequena criatura, até o momento em que ela levantou seus olhos.
Inundados por um branco leitoso, seu olhar arrancou todo o calor de meu corpo, deixando-me com um abraço gélido de desespero. Calmamente desencostou do poste e começou a andar em minha direção, mancando, soltando pequenos sons estranhos de todas as articulações de seu corpo.

Tec. Tec. Tec. Um estralo a cada novo movimento.

Tec.

Tec.

Tec.

Não diminui meu ritmo em momento algum, mas quanto mais andava, mais próximo dela eu ficava.

Com a proximidade, percebi sua pele. Branca, translúcida, dominada por veias estouradas que seguiam até as orbitas brancas de sues olhos.

E então ela parou. E o som do mundo parou.

As cores pararam, assim como o gosto de bile em minha boca deixou de existir.


Agora era um mundo preto e branco, abafado, surdo, e com ela parada em minha frente.

E seu sorriso. Um corte que estendeu-se de orelha a orelha, atravessando completamente seu rosto na horizontal. Aberto de tal modo bruto que todo o seu maxilar ficou exposto, a lateral de sua boca, um opaco febril ósseo mesclado ao sangue enegrecido da carne em putrefação.
Seu dentes, pequenas fileiras de caninos que se estendiam e multiplicavam-se desumanamente. Centenas de minúsculos dentes afiados e tortos que preenchiam aquela visão. Sangue seco escorria por entre eles e pelo seu queixo.

Abriu a boca, e pude ver aquele buraco. Um negrume colossal que revelava a ausência de língua. Apenas um buraco, apenas um buraco.

Apenas um buraco.

E disse:

- Vejo você em breve.

Joguei meu capuz sob minha cabeça, fechando-me em meu casulo de moletom. Puxei meus fones a minha orelha e isolei o mundo. The Strokes.

"Last night she said
Oh, Baby, I feel so down
Oh, and turned me off
When I feel left out"


Quando cheguei no cruzamento ao final da rua, olhei para trás, para ver se a criança continuava ali.

Ao fazer isso, subitamente não percebi o ônibus 3.85 que vinha em minha direção.

"So I, I turned around
Oh, baby, I don't care no more
I know this for sureI'm walking out that door"

E percebi, tarde demais, que aquela boca não era apenas um buraco, e sim uma porta.


Uma porta para o inferno.


Dedos Azuis

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Rodoviária

Me lembro da primeira vez que o vi. Sobretudo negro, barba longa. Carregava um pequeno livro de couro no colo.
Estava sentado na rodoviária, queixo direcionado para frente, os óculos escuros tapavam-lhe os olhos.
Me lembro de sentar ao seu lado.
A figura escura inquietou-se perante minha presença. Parecia desconfortável, coçava a barba e remexia os ombros.
Foi quando apanhou o livro e o abriu em uma página, repleta de escritas, indecifráveis. Caligrafia horrenda.
"Qual é o seu nome?" - perguntou, sem ao menos mover o pescoço.
"Samuel." - respondi, hesitante.
"De que?"
Jamais responderia a um estranho, mas as palavras saíram, mais fortes do que minha vontade.
"Guimarães Rosa"
Ele correu os dedos finos pelas linhas deformadas de seu livro negro, continuava igualmente estático.
"Você deve pegar o próximo ônibus, Samuel."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, adentrando ao primeiro dos ônibus. A rodoviária estava vazia, exceto por mim, a estranha figura e um pedinte apoiado em uma das vigas.
Meu bom senso falou pelos meus ombros. Permaneci sentado.

Me lembro da segunda vez que o vi. Ele estava sentado, na mesma poltrona, da mesma rodoviária.
"Ola, Samuel."
Me contive em responder.
"Hoje, definitivamente, você deve pegar o próximo ônibus."
No mesmo instante, dois ônibus cruzaram a esquina.
"Me acompanhe." - Proferiu, desta vez sem olhar para trás.
Cruzei os braços, virei o pescoço e gritei em minha mente.
"Não, velho escroto."
O ônibus fechou tuas portas e partiu.
O pedinte sentou-se ao meu lado, pediu por algumas moedas. Dei-lhe três moedas de real.
Entrou no outro ônibus e partiu.

Foi neste momento que o vi pela terceira vez.
"Ola, Samuel."
Estava cansado, estressado e com raiva daquilo. Quando fui abrir meus lábios para proferir alguma maldição para aquele homem, ele me interrompeu.
"Olhe teus bolsos, Samuel. Estão vazios. Parece que você doou teus últimos trocados para aquele pobre maltrapilho. Não terás dinheiro para o próximo ônibus."
Olhei a volta, o homem desaparecera. Uma voz ecoou em minha mente.
"Veremos se terás a mesma sorte."
A volta da rodoviária se tornara negra, abismática. Nenhum homem se aventuraria em tamanha escuridão.
Me apoderei dos cobertores largados daquele maltrapilho e ali permaneci, e ali permaneço.

Já fazem quatro dias.

- Lágrimas de Gasolina





segunda-feira, 13 de maio de 2013

Fama


Ah! Que momento glorioso fora aquele!

Todos ali, apontando, boquiabertos

Todos apontando para mim

Os olhos, as expressões

Nunca acreditaram que o garoto gordo seria o centro das atenções

Nunca acreditaram que o garoto excluído seria notado

Nunca acreditaram em mim

Nunca

Ah! Que momento glorioso fora aquele!

As pessoas em volta, se aglomerando, se acotovelando

O trânsito em estado caótico, contornando brechas para me ver

Ah! Mas que sensação!

Que alegria, que alegria

Nunca, naquela curta vida, eu fora tão feliz

quanto no dia em que fui atropelado pelo ônibus 3.85

- Dedos Azuis