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O negrume lusco-fusco de um crepúsculo mal-resolvido começava a se expandir, anunciando com trombetas infernais a vinda da noite.\u003Cbr \/\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\"Maldito Rogério e sua infinidade de planilhas à ser contabilizadas\"\u003C\/i\u003E, pensei. Nesta hora, eu provavelmente já estaria logado na Netlfix, tomando uma sopa instantânea enquanto meu maltês já alimentado me acompanhava no oitavo episódio de Narcos. Mas não, graças ao maldito Rogério, cá estou eu, indo para o ponto de ônibus duas horas mais tarde do que meu horário normal.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- Não, não, não!! - gritei. E lá se foi o último ônibus 3.85. Sangue, excremento, suor, lágrimas, detritos, dejetos decompostos. Três quilómetros percorridos a pé, pelo bairro mais sujo desta imunda cidade. Uma hora de caminha infernal, através do próprio inferno.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EMaldito Rogério.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EMaldito 3.85.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EPuxei meu iPod do bolso e desenrolei os earpods. A sujeira acumulada nas pontas dos fones só davam-me menos aflição do que os fios rachados. O cordão que uma vez já fora branco estava amarelado, desfazendo-se em meus dedos. Maldição, maldição.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EHello darkness, my old friend\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEnquanto eu andava, olhando para o chão e chutando garrafas vazias, Simon e Garfunkel cuidava de minha depressiva trilha sonora. Se eu não poderia desfazer a visão desprazerosa ou o cheiro desgostoso daquele caminho, pelo menos poderia transportar meus ouvidos para longe dali.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EI've come to talk with you again\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EE, de repente, uma terrível sensação. A incomoda presença que aparenta te seguir, te vigiar. Olhei para trás, sobre o ombro direito e deparei-me com duas silhuetas que me acompanhavam.\u003Cbr \/\u003EMaldição, só faltava eu ser assaltado agora. Fui mais rápido.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EMeu coração acelerou, ouvia os passos a trás de mim tornando-se mais intensos, mais pesados. Comecei a correr. Maldição, maldição.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EBecause a vision softly creeping\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u0026nbsp;Quase gritei quando um vulto cortou minha frente. Parei de súbito, pronto para vomitar minhas vísceras. Olhei para trás, mas não havia mais ninguém.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003ETirei os fones dos ouvidos, mas Simon e Garfunkel continuaram cantando.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- QUEM ESTÁ AI? - gritei.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003ELeft its seeds while I was sleeping\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- Vocês querem me roubar? Que assim seja, porra! Venham, levem toda essa merda! Atirei o iPod no chão com força, mas o aparelho não se quebrou.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EAnd the vision that was planted in my brain\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EO silêncio predominava, e a única coisa que eu conseguia ouvir era minha respiração pesada, meu coração explodindo em meu peito e a fraca música que cantarolava no fundo.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEntão, quebrando a calmaria efêmera, das sombras formadas pelas ruelas sinuosas e tortas que margeavam a rua, saiu uma estranha garotinha. As luzes amarelas dos postes velhos deixavam seu aspecto um tanto quanto sombrio, sinistro. Um vestido branco rasgado adornava seu corpo e, escondendo a face, uma máscara de cirurgião finalizava o incomum conjunto.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EStill remains\u0026nbsp;\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EFiquei olhando aquela figura, atônito, com calafrios percorrendo todo o meu corpo. Por fim, murmurei:\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- O que você quer?\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEla não respondeu.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- O QUE VOCÊ QUER? - gritei.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- Você me acha bonita? - ela perguntou.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EA voz era a mais pura e inocente que eu já ouvira. Adocicada e angelical. Era suave, era tênue.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EMas eu não sabia o que responder.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- S-s-sim - menti.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEla então fez algo que parou o meu antes explosivo coração; removeu a máscara, revelando o buraco no meio de seu pequeno rostinho. A ferida havia removido completamente seu nariz, deixando no lugar um aglomerado de carne exposta, sangue, pus, tecido adiposo e traços do que parecia ser osso.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEngasguei em minha própria saliva, tomado por um refluxo irracional. Virei para o lado e comecei a vomitar, enquanto e pequena garota caminhava em minha direção.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- Você ainda me acha bonita? - ela perguntou novamente. Era a mesma voz doce de antes, era a mesma voz. Mas eu não conseguia nem olhar para seu rosto, pois sabia que seria inundado novamente pelo acesso de ânsia.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- S-sim, sim, ainda acho.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EEla sorriu. Cruelmente, não posso dizer que era um sorriso bonito, pois a ferida chorava lágrimas de sangue sobre sua pequena boca, mas ainda assim era inocente e puro.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EE então ela começou a gargalhar, e naquele instante toda a doçura se desfez. Aquilo era a personificação do mal.\u003Cbr \/\u003EEla era a forma mais pura de maldade que eu já presenciei.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003EUm negrume abriu em meu coração, e todo meu peito foi tomado por um vácuo desesperador.\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003ETentei correr, mas o cimento tinha cedido e incorporado meu pé em sua fundação. Meus braços tornaram-se pesados como chumbo e movimentá-los mostrou-se impossível.\u0026nbsp;\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003EA garota aproximou-se mais, ainda gargalhando. Tirou um pequeno bisturi da faixa que prendia seu vestido e disse:\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E- Moço, não se preocupe, eu vou te deixar bonito também!\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003EWithin the sound of silence\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cb\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/b\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cb\u003E- Dedos Azuis\u003C\/b\u003E\u003C\/div\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Ci\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/i\u003E\u003C\/div\u003E"},"link":[{"rel":"replies","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/feeds\/3255300547213384811\/comments\/default","title":"Postar comentários"},{"rel":"replies","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/10\/a-crianca-sem-nariz.html#comment-form","title":"0 Comentários"},{"rel":"edit","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/3255300547213384811"},{"rel":"self","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/3255300547213384811"},{"rel":"alternate","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/10\/a-crianca-sem-nariz.html","title":"A Criança sem Nariz"}],"author":[{"name":{"$t":"Unknown"},"email":{"$t":"noreply@blogger.com"},"gd$image":{"rel":"http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail","width":"16","height":"16","src":"https:\/\/img1.blogblog.com\/img\/b16-rounded.gif"}}],"thr$total":{"$t":"0"},"gd$extendedProperty":[{"name":"commentSource","value":"1"},{"name":"commentModerationMode","value":"FILTERED_POSTMOD"}]},{"id":{"$t":"tag:blogger.com,1999:blog-7966503279227453876.post-1570563360744677977"},"published":{"$t":"2015-09-14T08:04:00.000-07:00"},"updated":{"$t":"2016-02-04T06:19:09.085-08:00"},"category":[{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Contos"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"LGLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Lágrimas de Gasolina"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"OOLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Ônibus 3.85"}],"title":{"type":"text","$t":"O Ônibus 3.85 #10 - 45 53 43 4f 4e 44 45 52"},"content":{"type":"html","$t":"\u003Cspan style=\"color: #999999;\"\u003E\"Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo.\" - Sófocles\u003C\/span\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003EAs chamas das velas oscilavam uniformemente fazendo com que as sombras da mobília e daqueles dois corpos sentados sobre o sofá se alongassem e escalassem as paredes. A maior parte do cômodo estava devorada pela escuridão que a cada minuto consumia mais alguns de seus centímetros, transformando a aconchegante aparência dos móveis rústicos em assombrosas peças de mostruário de alguma loja de velharias.\u003Cbr \/\u003EA figura de vestido azul sentada desleixadamente sobre as gastas almofadas direcionava seus olhos na direção do televisor desligado enquanto exprimia uma fisionomia consagrada pela mais profunda estranheza. Balançando involuntariamente os antebraços e direcionando as palmas entreabertas para cima à medida que escorregava a cabeça para trás, esperou alguns poucos segundos e fechou os olhos.\u003Cbr \/\u003ENo momento em que suas pálpebras se encostaram, o garoto ao seu lado pôde ver o movimento epilético realizado por seus olhos, que desenhavam pequenas esferas confusas de pele. Suas sobrancelhas e nariz projetavam a natureza dos pensamentos que invadiam a sua mente: o abismático terror sentido por aqueles que viram o inconcebível.\u003Cbr \/\u003EO garoto esticou as pequenas mãos e colocou-as sobre a palma esquerda da mãe que convulsionava violentamente, arpejando uma musica amedrontadora ouvida apenas por ela, esticou o torso para se aproximar do rosto dela enquanto exprimia o desespero de uma criança que não compreende o que está acontecendo. Nunca a vira protagonizando nenhuma ação desmedida ou incontrolável como aquela, exceto pelos flagelos e os súbitos acessos de raiva que jamais pôde compreender.\u003Cbr \/\u003EVirou o rosto na direção do dele, ainda tremendo e de olhos fechados, os ombros balançando involuntariamente como os rodeiros de uma locomotiva desajustada e desferiu um ruído quase inaudível e inesperado:\u003Cbr \/\u003E- \"Horas\" - o garoto a olhava sem entender - \"Que horas\" - soltou a mão da mãe e correu na direção da mesa de canto, onde descansava o velho relógio de pêndulo, o apanhou rapidamente e o levou ao sofá. Sentou-se e esticou as mãos trementes, segurando o relógio em frente à face da mulher.\u003Cbr \/\u003E- \"Que horas\" - insistiu, sem abrir os olhos.\u003Cbr \/\u003ETrouxe o objeto para si e encarou os ponteiros por alguns instantes, tentando reconhecer os números e dizer as horas que nunca aprendera. Lembrou-se que os ponteiros formavam uma linha vertical sempre que fosse hora de jantar e que o ponteiro menor sempre andava um número quando o maior realizava a volta completa, disse:\u003Cbr \/\u003E- \"São duas voltas\" - olhou para a mãe que aguardava em silêncio, de lábios entreabertos e cabeça encostada no sofá. Não estava tremendo, mas seus olhos fechados continuavam a dançar - \"Não\" - voltou os olhinhos para o objeto e corrigiu - \"Duas voltas e meia, depois do jantar\".\u003Cbr \/\u003EA mulher soltou um longo suspiro, seus olhos não bailavam sob as pálpebras.\u003Cbr \/\u003E- \"Oito e meia\" - rosnou, desencostando violentamente o pescoço do sofá, apoiou as mãos sobre as almofadas e empurrou o corpo para se levantar, criando um rastro formado pelos seus cabelos castanhos que antes pendiam pacificamente por trás do móvel. Olhou para aquele garoto assustado que se agarrava ao macio tecido que envolvia a almofada e a pressionava contra o peito.\u003Cbr \/\u003E- \"Ela vai me bater de novo!\" - pensou enquanto seguia com os olhos a figura azulada cruzar a sala.\u003Cbr \/\u003EDirigiu o olhar para o lado sem compreender por que sua mãe caminhava até a cozinha sendo que o cinto de seu falecido pai jazia ao seu lado, sobre o sofá. O cinto sempre fora a ferramenta preferida usada pela matriarca, então descartou a possibilidade de espancamento.\u003Cbr \/\u003EOuviu o som das gavetas de talheres serem rapidamente manejadas e o tilintar dos objetos que descansavam lá dentro, os ruídos soaram mais algumas vezes até o momento em que múltiplos baques surdos atravessaram a cozinha e a sala, as gavetas estavam sendo fechadas sequencialmente e constatou que a meta da mulher fora alcançada.\u003Cbr \/\u003EA sala estava majoritariamente consumida pela escuridão, não era possível constatar o que havia nos cantos mais distantes, somente uma das velas estava acesa, travando uma batalha imaginária contra o breu absoluto, uma luta entre luz e trevas em que a claridade se perdia perante a implacável oposição. O silêncio que dominava a casa não era natural, uma ausência total de qualquer ruído, como uma planície desolada por onde nem mesmo o vento ou qualquer forma de vida ousa passar.\u003Cbr \/\u003EEsperou estaticamente por alguns segundos, fitando a porta da cozinha com os pequenos olhinhos repousados sobre a almofada, remexendo-os e demonstrando intensa curiosidade. Um calafrio atingiu-lhe as costas quando viu a escuridão por trás da porta entreaberta da cozinha tomar forma, um abismo humanoide e de vestido azul tornava-se cada vez mais nítido perante seus olhos, tentou reconhecer seu rosto, mas não pôde analisá-los sem ser frustrado pelo reflexo que atraia seus olhos. Um objeto metálico e brilhoso agarrado pela mão esquerda da mãe projetava a luz da vela na direção de seu rosto, em poucos segundos de analise soube que se tratava de uma faca.\u003Cbr \/\u003EUm ímpeto furioso tomou conta dos membros da mulher, transformando-a em um vulto azul cinzento que escorria violentamente na direção do sofá em que Igor jazia tapando os olhos com a almofada e rastejando para a outra extremidade do móvel. Saltou sobre o filho e ergueu ambas as mãos que seguravam a faca com firmeza, a apontou para seu peito e desceu os membros para apunhalá-lo pela primeira vez. Repentinamente, um breu consolidou-se por toda a extensão do aposento, a vela apagou e toda a escuridão consumiu a sala, deixando apenas uma leve e inútil brasa sobre o móvel e o som de algo que violava o espaço físico de algum objeto macio e sem vida.\u003Cbr \/\u003EEm êxtase e rodeada pela escuridão, desferia golpes cada vez mais violentos, soltava curtos gritos e gemidos enquanto ignorava todo o vestígio de realidade à sua volta. Não pôde notar que sua vitima tratava-se de uma almofada e nem que a porta da sala estava sutilmente entreaberta, denunciando um fugitivo.\u003Cbr \/\u003EEla só cessou o esfaqueamento e retomou consciência da realidade quando os primeiros raios de luz, provindos do estranho evento não anunciado na televisão, cruzaram os céus daquela madrugada e iluminaram o amontoado de algodão e panos que se acumulavam nos pisos da sala.\u003Cbr \/\u003EIgor nunca mais foi visto.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003EContinua\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/09\/o-onibus-385-8-uma-moeda.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EAnterior\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E- Lágrimas de Gasolina\u003Cbr \/\u003E\u003Cdiv\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/div\u003E"},"link":[{"rel":"replies","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/feeds\/1570563360744677977\/comments\/default","title":"Postar comentários"},{"rel":"replies","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/09\/o-onibus-385-10-45-53-43-4f-4e-44-45-52.html#comment-form","title":"0 Comentários"},{"rel":"edit","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/1570563360744677977"},{"rel":"self","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/1570563360744677977"},{"rel":"alternate","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/09\/o-onibus-385-10-45-53-43-4f-4e-44-45-52.html","title":"O Ônibus 3.85 #10 - 45 53 43 4f 4e 44 45 52"}],"author":[{"name":{"$t":"Unknown"},"email":{"$t":"noreply@blogger.com"},"gd$image":{"rel":"http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail","width":"16","height":"16","src":"https:\/\/img1.blogblog.com\/img\/b16-rounded.gif"}}],"thr$total":{"$t":"0"},"gd$extendedProperty":[{"name":"commentSource","value":"1"},{"name":"commentModerationMode","value":"FILTERED_POSTMOD"}]},{"id":{"$t":"tag:blogger.com,1999:blog-7966503279227453876.post-259212184118546718"},"published":{"$t":"2015-09-01T14:16:00.001-07:00"},"updated":{"$t":"2015-09-17T15:15:42.479-07:00"},"category":[{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Contos"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"LGLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Lágrimas de Gasolina"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"OOLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Ônibus 3.85"}],"title":{"type":"text","$t":"O Ônibus 3.85 #9 - Uma Moeda"},"content":{"type":"html","$t":"\u003Cspan style=\"color: #999999;\"\u003EA partir de determinado momento, alguns indivíduos estão fadados à não ter destino e até mesmo a condição de não se ter destino é obra do mesmo. A liberdade é a ilusão de quem a sente e o mártir de quem a desconhece.\u003C\/span\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E- \"Eu não sou ninguém!\" - Disse ofegante e sentiu que uma gota de sangue despencava de uma das narinas, provavelmente mancharia ainda mais a camisa vinho - \"Sou um qualquer!\" - E a gota caiu, molhando um pouco mais a camisa encharcada de sangue.\u003Cbr \/\u003EO motorista se agachava novamente para ver de perto a estranha fissura que o ferimento havia se tornado, não passando de uma pequena marca de arredores avermelhados com uma casca superficial vinho e preto.\u003Cbr \/\u003E- \"Isso foi incrível!\" - Comentou impressionado, podia-se sentir um leve teor de sadismo em sua voz.\u003Cbr \/\u003EO ferimento havia se fechado por completo, as cascas haviam deslizado e caído no chão do ônibus e voado para o fundo.\u003Cbr \/\u003EO homem se levantou, ainda segurando a barra de ferro com uma das mãos e dirigiu a mão direita sobre a cabeça da jovem mulher que segurava o punho esquerdo de Dante, correu os dedos pelos cabelos escuros e disse:\u003Cbr \/\u003E- \"Espero que a senhorita segure este homem com toda a destreza do mundo, certo?\" - Os dedos passaram pelos últimos fios e correram em direção ao rosto do segundo carcereiro - \"E de você, eu não espero nada de diferente! Certo, garoto?\" - Completou, passando as costas da mão pela bochecha do rapaz.\u003Cbr \/\u003EOs dois não esboçaram reação alguma, mantiveram os mesmos olhares funéreos, as mesmas expressões apáticas e a mesma força sobre-humana aplicada nos punhos e antebraços de Dante, que tentava inutilmente movimentar os membros e os dedos azuis à todo momento.\u003Cbr \/\u003E\"Você aí atrás! O mesmo vale pra você!\" - Gritou, apontando a barra de ferro na direção do rosto do homem que se apropriava do punho direito do prisioneiro.\u003Cbr \/\u003ESentiu o braço cansado levantado sobre o ombro que se torcia para manter aquele carcere um pouco menos desconfortável, e os pequenos dedos que envolvia seu membro esquerdo adormecido. Olhou para as faces fúnebres e constatou que não haveria qualquer chance de escapatória, cogitou em levantar as pernas ou saltar, mas logo em seguida desistiu da ideia, pois provavelmente o derrubariam, por isso fixou os pés ao chão, decidido a não se mover não importando quais fossem os flagelos que lhe seriam infligidos. Deixou que os olhos colhessem o máximo de informação possível, correndo-os por toda a extensão do ônibus, observando as costas da jaqueta jeans que se dirigia para à cabine do motorista e em seguida correndo para os assentos e passageiros. Não encontrou nada que pudesse salva-lo do que poderia vir a seguir e amaldiçoou o momento em que decidira pegar um ônibus para ir para casa. Foi então que se deu conta de que praguejava de olhos fechados e estava completamente despreparado para qualquer coisa que pudesse acontecer, abriu os olhos e sentiu um calafrio escorrer pelos seus ombros quando virou os olhos em direção às janelas e das imagens que elas projetavam.\u003Cbr \/\u003EPor um momento, viu os outros passageiros desaparecerem deixando como lembrança uma fina nevoa branca que deslizava sob seus tornozelos, a fumaça se acumulava no chão sobrepondo e escondendo os sujos pisos de ônibus, deixando apenas as cadeiras à mostra. O corpo do motorista estava congelado, estacionado sobre a nevoa, preparado para dar o próximo passo. Percebeu que no lugar das mãos e dedos autoritários que tolhiam seus membros residia apenas uma fina camada de fumaça que se dissipava ao redor de seus punhos, caminhou em direção a janela sem dar valor algum para a liberdade que não teve nas ultimas horas e encostou as palmas e testa no vidro da janela sem acreditar na familiaridade do que via.\u003Cbr \/\u003EAs arvores e calçadas que corriam maravilhosamente perante seus olhos pertenciam ao canto mais brilhante e feliz de suas antigas memorias de infância. Os muros azuis da antiga casa dos Souza, onde jogava futebol de rua com os meninos da rua, passou voando pelas janelas, o homem apertou inconscientemente o vidro com os dedos para tentar abraçar aquela recém-reanimada lembrança e em seguida, voou a velha praça e pôde ver sua antiga escola ao fundo.\u003Cbr \/\u003EEram lembranças das quais a fase adulta jamais o permitiria se lembrar, por alguns instantes fechou os olhos, tentando entender o que acontecia naquele momento, afinal o ônibus não deveria passar por estes lados. As mãos estavam apoiadas nas janelas, mas não estavam abertas, formando punhos fechados e todo o rosto descansava recostado sobre o vidro riscado por lágrimas escorridas. Seu corpo fez o breve movimento que um passageiro faz quando um veículo freia até parar, inclinando-se levemente para o lado e voltando ao ponto inicial. Percebendo que o ônibus havia parado, desgrudou a testa do vidro e abriu os olhos vermelhos e encharcados, pensou que iria desmaiar quando vislumbrou a insensatez que se escancarava do lado de fora para ele, sentiu que a nevoa que dominava as periferias de sua visão escurecia de forma gradual, mas naturalmente elas estavam enegrecidas, formando uma espécie de moldura abismática ao redor daquele retrato que revelava o impossível para seus olhos. Coçou as órbitas desacreditadas e colocou a mão no vidro, enquanto com a outra afastava a negra nevoa que insistia em tentar tapar a janela.\u003Cbr \/\u003ERodeado pelo breu e clareado pela luz da imagem da antiga casa de seus pais, Dante se recostou sobre o vidro e se pôs a chorar, mas não chorava pelas lembranças que um dia formaram seu antigo presente, e sim porque diante de seus olhos uma pequena criança brincava na calçada em frente aos muros de sua antiga casa e facilmente fora reconhecida pelo homem, pois aquele homem e aquela criança eram a mesma pessoa.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E- \"Meu deus, eu só queria ir para casa\" - Sutilmente aquela frase dominou seus pensamentos e todo seu corpo foi coberto pelo breu. Naquele momento, Dante compreendeu.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/09\/o-onibus-385-10-45-53-43-4f-4e-44-45-52.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EContinua\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/08\/o-onibus-385-8-projecoes.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EAnterior\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cb\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/b\u003E\u003Cb\u003E-Lágrimas de Gasolina\u003C\/b\u003E"},"link":[{"rel":"replies","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/feeds\/259212184118546718\/comments\/default","title":"Postar comentários"},{"rel":"replies","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/09\/o-onibus-385-8-uma-moeda.html#comment-form","title":"0 Comentários"},{"rel":"edit","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/259212184118546718"},{"rel":"self","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/259212184118546718"},{"rel":"alternate","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/09\/o-onibus-385-8-uma-moeda.html","title":"O Ônibus 3.85 #9 - Uma Moeda"}],"author":[{"name":{"$t":"Unknown"},"email":{"$t":"noreply@blogger.com"},"gd$image":{"rel":"http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail","width":"16","height":"16","src":"https:\/\/img1.blogblog.com\/img\/b16-rounded.gif"}}],"thr$total":{"$t":"0"},"gd$extendedProperty":[{"name":"commentSource","value":"1"},{"name":"commentModerationMode","value":"FILTERED_POSTMOD"}]},{"id":{"$t":"tag:blogger.com,1999:blog-7966503279227453876.post-1119882355140867487"},"published":{"$t":"2015-08-26T14:43:00.002-07:00"},"updated":{"$t":"2015-09-14T07:55:57.473-07:00"},"category":[{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Contos"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"LGLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Lágrimas de Gasolina"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"OOLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Ônibus 3.85"}],"title":{"type":"text","$t":"O Ônibus 3.85 #8 - Projeções"},"content":{"type":"html","$t":"Por que as coisas devem se limitar ao que são?\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003ELevantou mais uma vez o bastão de madeira e atingiu o para-brisa do automóvel elegantemente estacionado na frente daquele gigantesco condomínio de escritórios. O dia estava nublado e um alarme rouco e metálico soava cada vez mais alto, interrompendo o cantar dos pássaros e atraindo a atenção de alguns olhares do alto do prédio.\u003Cbr \/\u003E- \"O desgraçado surtou!\" - Todos da sala de cópias começaram a gargalhar enquanto assistiam à cena pela janela - \"Aquele era um belo carro!\" - Disse o mesmo homem, com um ar de tristeza e ironia.\u003Cbr \/\u003EEra um carro lindo, disso ninguém duvidaria, pois bastava olhar para ele para ver que se tratava de um modelo do ano passado, completo, tinha as rodas cromadas, uma lataria encoberta por um tom cinza que tendia para o preto dependendo do anglo em que fosse visto. De fato, um belo carro.\u003Cbr \/\u003E- \"Quer saber de uma coisa, Anderson?\" - Gritou para todos que passavam, desferindo outro golpe, dessa vez atingindo o retrovisor externo - \"Eu não preciso da droga desse emprego! Eu não preciso de uma promoção! Eu não preciso de você e nem de nenhum de seus parasitas! Eu não preciso de ninguém!\" - Destruiu o que restara da janela lateral do carro, em seguida dirigindo um chute na porta do motorista.\u003Cbr \/\u003EAs dezenas de olhos se posicionavam nas janelas do edifício, todos voltados para aquela figura que gritava para as paredes da fortaleza do Sr. Anderson. Alguns funcionários podiam ser vistos atrás das janelas pelo lado de fora, uns estavam rindo e comentando alguma piada com os colegas de trabalho, outros seguravam xícaras de café ou chá enquanto abafavam um olhar de admiração e uma minoria que permanecia sentada em suas mesas, trabalhando.\u003Cbr \/\u003E- \"Aquele ali é o Sr. Anderson\" - Disse o gerente financeiro apoiado à janela do terceiro andar, apontando para uma figura baixa e gorducha que se aproximava do louco destruidor de carros - \"Ele vai ficar louco quando puder ver o que esse maluco fez com o teto solar do carro dele\" - Completou ironicamente e soltando uma risadinha de canto de boca.\u003Cbr \/\u003EAs nuvens estavam ficando cada vez mais escuras, as passivas e cinzentas nuvens que preenchiam os céus transformaram-se em massas disformes e agitadas cinza chumbo e as primeiras gotas começaram a cair sobre o assento descoberto do carro.\u003Cbr \/\u003E- \"O que você está fazendo?\" - O gorducho balançava as mãos ferozmente - \"Você ficou louco?\" - Gritou junto a uma trovoada distante.\u003Cbr \/\u003EO homem estava em pé sobre o capô do carro, balançava os sapatos sociais, espalhando os cacos que insistiam em descansar ao lado de seus pés. Soltou o taco e o deixou rolar em direção ao solo, estava digerindo as palavras proferidas pelo antigo homem que comandava seus afazeres.\u003Cbr \/\u003E- \"Você não imagina o quanto este carro me custou!\" - Esbravejou Anderson - \"Este carro vale mais do que a quantia em dinheiro que você ganharia de salário e comissão em 10 anos de trabalho, seu imundo!\" - Fez uma pausa - \"Onde estava meu bom senso quando contratei um lunático como você?\" - Completou, balançando negativamente a cabeça.\u003Cbr \/\u003EO homem girou o pescoço e apertou os dedos inchados pela grande pressão com que pressionara a haste do taco, formando um punho fechado, sentindo que poderia simplesmente esticar os dedos e esmagar facilmente a traquéia de seu antigo chefe.\u003Cbr \/\u003E- \"Você era um bom funcionário, mas depois daquele incidente com a máquina de café você ficou estranho\" - Continuou, seus ombros estavam molhados devido à garoa que se transformava aos poucos em chuva - \"A policia já está a caminho!\" - Disse roucamente após alguns segundos avaliando todos os gastos que teria com o seguro.\u003Cbr \/\u003EO homem pulou do automóvel e caiu em pé sem demonstrar qualquer centelha de esforço, se aproximou naturalmente daquela figura bem vestida, medindo sutilmente cada passo. As dezenas de faces os assistiam através das janelas embaçadas, ninguém mais estava trabalhando, o prédio parecia um gigantesco organismo único formado por pequenas faces cinzentas e curiosas.\u003Cbr \/\u003EAnderson olhou para cima, vendo seus funcionários o encarando e esboçou uma pequena fagulha de raiva somada ao medo do que poderia vir a seguir, afrouxou os joelhos, caminhando para trás, enquanto aquela figura movimentava as mãos e as esticava em sua direção - Um raio cortou os céus - E o homem as levantou, soltando um intenso rugido confundido pela trovoada que veio logo em seguida. Teve a mesma sensação que se tem ao encarar algum animal feroz e desconhecido, afrouxou demais os joelhos e escorregou para trás, sentando no chão molhado, sentiu as calças molhadas, se virou e correu pateticamente em direção às portas fechadas do edifício.\u003Cbr \/\u003E- \"Mas que merda!\" - Gritou quando percebeu que empurrava a porta com uma placa que dizia para realizar o processo inverso. Entrou, deixou a porta entreaberta e encostou o peito na maçaneta de forma que pudesse colocar a grande cabeça para fora e proteger os membros da ventania, deixando amostra apenas o rosto e parte dos dedos e pescoço.\u003Cbr \/\u003E- \"Você é um escroto, Dante!\" - Gritou mais alto que o ruído causado pela chuva - \"Farei algumas ligações! Você não conseguirá emprego nesta cidade!\" - Finalizou gaguejando e fechando a porta metálica.\u003Cbr \/\u003EDante pôde ver através dos vidros das portas que conduziam para o salão de entrada, uma figura embaralhada e gorda falando com duas outras figuras uniformizadas, não conseguiria ouvi-las, mas sabia que faziam parte da segurança patrimonial do edifício. Olhou para cima e notou que alguns ainda o assistiam do alto das janelas, mas a grande maioria já havia voltado ao trabalho. Ouviu as sirenes ao longe e o ranger das portas metálicas, correu pelas ruas e nunca mais foi visto.\u003Cbr \/\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003C\/span\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/09\/o-onibus-385-8-uma-moeda.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EContinua\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/08\/o-onibus-385-7-o-atractor-estranho.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EAnterior\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E- Lágrimas de Gasolina"},"link":[{"rel":"replies","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/feeds\/1119882355140867487\/comments\/default","title":"Postar comentários"},{"rel":"replies","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/08\/o-onibus-385-8-projecoes.html#comment-form","title":"0 Comentários"},{"rel":"edit","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/1119882355140867487"},{"rel":"self","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/1119882355140867487"},{"rel":"alternate","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/08\/o-onibus-385-8-projecoes.html","title":"O Ônibus 3.85 #8 - Projeções"}],"author":[{"name":{"$t":"Unknown"},"email":{"$t":"noreply@blogger.com"},"gd$image":{"rel":"http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail","width":"16","height":"16","src":"https:\/\/img1.blogblog.com\/img\/b16-rounded.gif"}}],"thr$total":{"$t":"0"},"gd$extendedProperty":[{"name":"commentSource","value":"1"},{"name":"commentModerationMode","value":"FILTERED_POSTMOD"}]},{"id":{"$t":"tag:blogger.com,1999:blog-7966503279227453876.post-987448056369834193"},"published":{"$t":"2015-08-14T21:52:00.000-07:00"},"updated":{"$t":"2015-09-11T12:08:08.716-07:00"},"category":[{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Contos"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"LGLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Lágrimas de Gasolina"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"OOLINK"},{"scheme":"http://www.blogger.com/atom/ns#","term":"Ônibus 3.85"}],"title":{"type":"text","$t":"O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho"},"content":{"type":"html","$t":"\u003Cspan style=\"color: #999999;\"\u003EA realidade é um tanto quanto estranha. A maioria esmagadora das pessoas tende a acreditar que a razão e o conhecimento são suficientes para traçar e prever todo e qualquer acontecimento que as rodeia. Quantas vezes nós não tivemos nossos planos frustrados por consequência de um misero acontecimento aleatório e totalmente imparcial? Um dia de chuva, um carro que quebra ou uma câimbra em momento inoportuno. Afinal, quais outros fatores norteiam estes fatores? Fatores menores? De que adianta anos de treinamento e preparação quando estes forem frustrados por um momento de azar, de acaso?\u003Cbr \/\u003ENo fim das contas, todos estão à mercê do acaso e de toda a gama de fatores que o estabelece. Talvez, se o motorista soubesse da teoria e não somente da prática, deduziria que todas as ações que tomaria daquele momento em diante não surtiriam efeito nenhum no futuro.\u003C\/span\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003EEstava ofegante – “Não posso perder a calma, estou no controle” – Repetia mentalmente para si – “Ainda estou no controle” – Disse em voz alta, apanhando uma pequena haste metálica logo ao lado do pequeno extintor de incêndio repousado sob o assento do motorista. \u003Cbr \/\u003EAndou na direção de Dante, balançando a barra metálica e contornando passageiros inertes que insistiam em ficar em pé no corredor. Seu rosto ainda estava sujo de sangue, um vermelho escuro sobre a textura jeans da jaqueta e os longos cabelos desobedientes lhe tapava parte dos olhos.\u003Cbr \/\u003EO ônibus mantinha velocidade constante dando alguns pequenos saltos, dirigindo-se a um destino desconhecido por todos os passageiros. \u003Cbr \/\u003E- “Eu não vou perder meu posto” – Rosnou em voz baixa. \u003Cbr \/\u003EDante, ainda tentava se soltar dos três passageiros que o seguravam, balançando de um lado para o outro e grunhindo cada vez mais alto à medida que o motorista se aproximava. O homem não deixara claro o que faria com aquela barra de ferro, mas os olhos e a intensidade raivosa com que encarava o prisioneiro explicitavam o que aconteceria com o rosto daquele pobre infeliz.\u003Cbr \/\u003E- “Você está louco!” – Gritou enquanto lutava contra as forças sobre-humanas de seus carcereiros.\u003Cbr \/\u003EOlhou para os lados, buscando alguma forma de ajuda, algum apelo que pudesse ser feito, mas todos os assentos à sua volta estavam vazios, exceto pelas cadeiras à sua esquerda, que abrigavam parte do corpo do garoto que aprisionava teus punhos. Lembrou-se da garotinha apática que repousava em algum dos bancos de trás, fora de seu campo de visão e gritou:\u003Cbr \/\u003E- “Garota! Ei, garota!” – Girou o pescoço ao máximo que pôde para ver se conseguia atrair sua atenção, porém a jovem ainda encarava friamente o vidro que compunha a janela do ônibus. Tentou outra vez.\u003Cbr \/\u003E- “Garota! Gar...” – E sentiu uma forte dor no centro do abdome. Olhou para frente e trombou com os olhos do motorista pregados aos seus, sentiu os tecidos abdominais começarem o processo de rompimento. Abaixou os olhos e viu toda a vermelhidão que escorria através da camisa social perfurada. Soltou um longo suspiro e sentiu a barra de ferro que se alojava acima de seu umbigo e entre suas costelas. \u003Cbr \/\u003EA pressão e a dor diminuíram por um momento, enquanto o motorista recuava o objeto e se preparava para repetir o movimento, uma tentativa de encravamento improvisado. \u003Cbr \/\u003EEle olhou para o ferimento por alguns segundos e percebeu o quão superficial parecia. A laceração tinha apenas uns dois centímetros de profundidade, porém a barra tinha uma marca avermelhada uniforme por toda a sua circunferência e atingia um pouco menos de um quinto do comprimento total do objeto, resultando em aproximadamente uns dez centímetros de sangue. \u003Cbr \/\u003EEstava perplexo, esticou os dedos na direção do buraco e Dante se contorceu. Estranhamente, o diâmetro do machucado também estava um pouco menor do que deveria.\u003Cbr \/\u003E- “O raio da barra é de pelo menos uns cinco centímetros” - Concluiu após analisar por um curto período a ponta do objeto que segurava - “E o raio deste ferimento tem um pouco mais que a espessura do meu dedo” – Completou mentalmente, enquanto corria o dedo indicador por toda a circunferência da laceração.\u003Cbr \/\u003ELevantou os olhos, boquiaberto. Estava presenciando uma espécie de recuperação espontânea.\u003Cbr \/\u003E- “Mas que raio de divindade é você?” – Disse, se levantando e esboçando um leve sorriso de incredulidade.\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/08\/o-onibus-385-8-projecoes.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EContinua\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Ca href=\"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com.br\/2015\/08\/o-onibus-385-6-inicio.html\"\u003E\u003Cspan style=\"color: white;\"\u003EAnterior\u003C\/span\u003E\u003C\/a\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cb\u003E- Lágrimas de Gasolina\u003C\/b\u003E\u003Cbr \/\u003E\u003Cbr \/\u003E"},"link":[{"rel":"replies","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/feeds\/987448056369834193\/comments\/default","title":"Postar comentários"},{"rel":"replies","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/08\/o-onibus-385-7-o-atractor-estranho.html#comment-form","title":"0 Comentários"},{"rel":"edit","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/987448056369834193"},{"rel":"self","type":"application/atom+xml","href":"http:\/\/www.blogger.com\/feeds\/7966503279227453876\/posts\/default\/987448056369834193"},{"rel":"alternate","type":"text/html","href":"http:\/\/lagrimasdegasolina.blogspot.com\/2015\/08\/o-onibus-385-7-o-atractor-estranho.html","title":"O Ônibus 3.85 #7 - O Atractor Estranho"}],"author":[{"name":{"$t":"Unknown"},"email":{"$t":"noreply@blogger.com"},"gd$image":{"rel":"http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail","width":"16","height":"16","src":"https:\/\/img1.blogblog.com\/img\/b16-rounded.gif"}}],"thr$total":{"$t":"0"},"gd$extendedProperty":[{"name":"commentSource","value":"1"},{"name":"commentModerationMode","value":"FILTERED_POSTMOD"}]}]}});