domingo, 9 de junho de 2013

Distinguir

Me perco por um segundo, e minhas pálpebras pesadas se fecham.
Um sono rápido me atinge, implacável e solidário. Na verdade não um sono, mas aquele belíssimo estado da consciência em que você começa a refletir sobre inúmeras coisas, pensar inúmeras outras, e até mesmo desenvolver conclusões sobre fatos nunca pensados antes; um meio termo entre vigia e sonho.
A realidade se confunde com lençóis, e por um momento chego a acreditar que sou feito de tecido. Mas foi apenas um breve momento.
A madeira rangendo me acorda de sobressalto, enquanto a claridade penetra por minha porta em movimento. Olho, eufórico, para a silhueta que ali está, parada, parada. Fitando-me.
Imóvel ela permanece, e meu coração preste a estourar. 
Suavemente, desliza a mão para trás de seu corpo, e volta a puxá-la. Agora, porém, com um brilho lusco-fusco em suas mãos.
Então é assim? Toda uma vida que foi, que deveria ser, indo embora como um suspiro de alma, como um soluço ofegante?
Como será a sensação? Como será a sensação do frio metal deslizando por entre sua pele, sua carne, seus ossos. Estalando em um banho de sangue quente? Como será o gosto de engasgar com seus próprios fluídos? Como deve ser o último segundo, o último instante?
A silhueta dá um passo para frente, e volta a parar.
Por que tão devagar? Por que tão sádico?
Estica o braço lentamente…
Prendo a respiração. Não quero morrer, não assim, não assim. Este foi um mundo que há muito larguei. Agora eu estava com ela, e tudo estava certo, tudo estava certo. Eu só queria tocá-la mais uma vez, dizer que a amava, dizer que sentiria saudades. 
…E acendeu a luz.
E lá estava ela, parada, na soleira de minha porta. Sorrindo com seus olhos caramelos, segurando na mão um par de alianças.
Foi quando percebi que minha vocação não era o terror. Não.
Minha vocação é o amor.

- Dedos Azuis